Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

29/09/2016

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (141) – Volta José. Estás perdoado. É uma honra estares connosco (II)

A primeira vez estranha-se. A segunda vez entranha-se.

«Ver Sócrates a falar sobre leis de enriquecimento ilícito num encontro institucional do PS até podia ter piada. Ou melhor, ver Sócrates a falar em público de hipotéticas leis sobre enriquecimento ilícito é tão surreal que só pode ser encarado como um exercício de stand-up de uma pessoa inimputável. Sucede que esse show cómico foi realizado num evento do PS. A comédia passa assim a tragédia. Como é que o PS se permite a isto? Com a exceção de Ana Gomes, ninguém naquele partido está disponível para ver que um primeiro-ministro não pode receber milhares e milhares de euros em dinheiro vivo de um construtor que recebeu contratos do governo do primeiro-ministro que recebeu as malas de dinheiro? Como é que isto pode ser um tabu dentro do PS? Este facto já foi admitido por Sócrates, e chega e sobra para uma condenação pública, política e moral desta figura que devia estar coberta de vergonha e debaixo de uma pedra algures na Mongólia interior - mas está a ser reabilitado pelo PS, o tal partido que se julga a essência do regime.»

Henrique Raposo, no Expresso

28/09/2016

Títulos inspirados (60) – Da fúria dos manifestantes até à maratona de Guterres que afinal pode ser uma corrida de 3 mil metros obstáculos

«Secretária de Estado da Educação evita fúria de manifestantes»

Como escreveu aqui um blasfemo, «isto não vai abrir nenhum telejornal». Abriria se fosse antes de 26/11/2015. Por isso, o melhor é ver o vídeo publicado pelo JN, estranhamente ou talvez não (afinal o jornal é um esteio do animal feroz).

Ainda do JN, mais três títulos inspirados:

«Noiva cai no casamento e fica paraplégica» 

Na Bolívia.

«Português subiu de empregado de limpeza a dono de multinacional»

Claro que não foi no Portugal do inbreeding.


Solidário? Porquê solidário? Brr...

E agora títulos afectuosos:


Não será. 2011 foi uma tragédia e 2017 será uma comédia.


Talvez S. Exa. esteja a confundir a maratona com uma prova de 3.000 m obstáculos.

DIÁRIO DE BORDO: R.I.P.

Si vis pacem, para bellum

Shimon Peres

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (48) O clube dos incréus reforçou-se (XIII

Outras marteladas.

Aparentemente estamos a viver um momento de viragem em relação à doutrina predominante sobre as políticas monetárias e o papel dos bancos centrais. Depois de 8 anos de pensamento miraculoso, começa gradualmente a emergir uma visão crítica. Só nos últimos dias demos conta dos sinais da mudança de paradigma do lado da OCDE e do FMI a que acrescentamos hoje a Economist cujo apoio ao alívio quantitativo e às taxas de juro evanescentes também tem dado sinais de esmorecer. Leia-se, por exemplo, o artigo «The low-rate world», de há dias, de onde respigo dois parágrafos numa tradução semi-automática:

«No entanto, cresce a evidência de que as distorções causadas pelas taxas estão a crescer ao mesmo tempo que os ganhos estão a diminuir. Os défices dos fundos de pensões das empresas e dos governos locais têm aumentado porque é muito mais difícil cumprir as pensões garantidas quando as taxas de juros caem. Os bancos, que normalmente lucram com a diferença de taxas de curto prazo e longo prazo, têm dificuldades quando as taxas são nulas ou negativas. Isso prejudica a sua capacidade de emprestar e até a sua solvabilidade. A persistência de taxas baixas têm distorcido os mercados financeiros, garantindo vendas maciças se as taxas começarem de repente a subir. Quanto mais tempo durar, maiores serão os riscos acumulados.

Para viver em segurança num mundo de taxas baixas, é tempo de ultrapassar a dependência dos bancos centrais. As reformas estruturais para aumentar as taxas de crescimento subjacentes têm um papel vital. Mas os seus efeitos só se realizam lentamente e as economias ainda precisam de ajuda. A prioridade mais urgente é usar a política fiscal. A principal ferramenta para combater as recessões tem de passar dos bancos centrais para os governos.»

É claro que no (Im)pertinências não se subscrevem as políticas comum e inadequadamente chamadas keynesianas prescritas na parte final do último parágrafo citado. Como as últimas 4 décadas em Portugal evidenciam, essas políticas estão condenadas ao insucesso em pequenas economias endividadas com um mercado interno limitado e com problemas de competitividade decorrentes de défices de inovação e de produtividade.

Pro memoria (319) - Uma espécie de jornalismo normal

Numa leitura original do polémico livro de José António Saraiva «Eu e os políticos» (que não li), Pedro Tadeu escreveu no DN uma peça interessante sobre a prática do que chamamos jornalismo em Portugal (que inclui o que nós no (Im)pertinências costumamos designar por jornalismo de causas), de onde destaco:

«(...) o que lemos a maior parte do tempo são descrições detalhadas de uma forma de praticar o jornalismo que parece estar incorporada como "normal" pois ninguém, no meio de tanta indignação pelos "segredos" publicados, pareceu importar-se com isso.

Segundo este entendimento da minha profissão é natural jornalistas e políticos percorrerem juntos os mais caros restaurantes de Lisboa para negociarem notícias, traficarem timings de publicação, emporcalharem reputações, congeminarem manobras, conceberem planos governamentais, ajudarem a eleger líderes partidários, interferirem noutros media.

Segundo este entendimento, é natural jornalistas irem aos palácios do poder ouvir "confidências" de presidentes e governantes, darem "conselhos" aos poderosos, aceitarem publicar notícias de veracidade duvidosa e verificação impossível, transformar palpites adivinhatórios em factos, assegurar - nos tempos difíceis - mútuos empregos e colaborações bem remuneradas.

Segundo este entendimento, é portanto natural políticos e jornalistas de topo, proclamando independência e separação de águas (é mesmo cego quem não quer ver), trabalharem juntos, horas ao telefone, para, em primeiro lugar, perpetuar o estatuto das respetivas castas e, em segundo lugar, gerir a luta entre fações que, conjunturalmente, divide essas castas.»

27/09/2016

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Coisas que outros escreveram sobre Costa, as quais, por isso, já não precisam de ser escritas (31)

Outras coisas que outros escreveram.

Na 5.ª feira passada durante o debate parlamentar António Costa definiu o que para ele seria uma «sociedade decente» nos seguintes termos:
«é uma sociedade onde cada um contribui para o bem comum de acordo com as suas capacidades, e cada um recebe de acordo com as suas necessidades»
Por alguma razão, porventura um curto-circuito nas suas sinapses atafulhadas de ideias mal assimiladas e pior arrumadas, mas mais provavelmente pela necessidade de pagar tributo a comunistas e bloquistas dos quais depende, Costa usou quase ipsis verbis a definição de Karl Marx de uma sociedade comunista.

Sobre este episódio, remeto para o que escreveu José Manuel Fernandes, sobre o enquadramento histórico, e para o artigo pedagógico de João Carlos Espada que explica o significado da escolha de Costa, de onde respigo a passagem seguinte:

«Observemos a frase de Karl Marx. Se as pessoas devem contribuir de acordo com as suas capacidades e receber de acordo com as suas necessidades, isso implica que alguém terá de deter o poder para determinar as capacidades de cada um e o poder para determinar as necessidades de cada um.

Sabemos qual foi a resposta prática fornecida pelo comunismo e pelo nacional-socialismo a esta questão: esse alguém é o Estado. Mas, este não é sequer o problema mais fundo. Podia, por hipótese, não ser o Estado. Podia ser o “colectivo” — que era em rigor o que Marx tinha em mente naquela frase. E, também em bom rigor, o poder absoluto que o nazismo e o comunismo deram ao Estado foi dado em nome do “colectivo” — a “Nação”, no caso do nazismo, o “proletariado”, no caso do marxismo (o Terceiro Estado, no caso da revolução francesa)

Lembrando que este episódio se segue à declaração de Mortágua sobre a espoliação dos «ricos», a partir de agora só se engana quem quer ser enganado.

A maldição da tabuada (34) - Não saber a tabuada nunca foi uma desculpa para errar as contas (III)

Episódios anteriores (I) e (II)

Ainda outra oportunidade, ao nosso dispor ainda em vida de El-Rei Dom Filipe II "O Pio", para superar a maldição da tabuada foi a calculadora «Bones».


A «Bones» foi inventada em 1617 por John Napier, um matemático escocês, que se inspirou num sistema de multiplicação de matriz popularizado pelo matemático otomano Nasuh. O zingarelho de Napier podia fazer as 4 operações básicas e ainda extrair raízes quadradas e seria certamente muito apreciado pelo Doutor Centeno para as suas previsões de crescimento do PIB, que por falta de um zingarelho adequado deram o que estão a dar.

26/09/2016

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Sobre o (ig)nobel Stiglitz

«O americano Joseph Stiglitz, economista e Nobel do ramo, elogia portugueses, gregos e espanhóis por, cito o DN, "terem melhores noções de economia do que a troika" e derrotarem nas urnas "os governos defensores da austeridade depois de 2008".

Em primeiro lugar, convém explicar ao homem que, Grécia discutivelmente à parte, Portugal elegeu um governo alegadamente "austeritário" em 2011 - e, descontadas moscambilhas parlamentares, voltou a elegê-lo em 2015 -, e a Espanha continua, na medida do possível, sob um governo do PP. Em segundo lugar, acredito que portugueses, gregos, espanhóis, guatemaltecos e curdos tenham melhores noções de economia do que o sr. Stiglitz.

Em 2007, este portento andava por Caracas a prever a irreversibilidade do "sustentável" (sic) crescimento local, a admirar o nível de vida vigente e a declarar irrelevante a elevada inflação. Em 2016, enquanto vende utilíssimos conselhos ao Sul, assegura ainda que a Alemanha está aqui, está na miséria.

Para a semana, aposto que o sr. Stiglitz vai anunciar que a Irlanda, que cresceu 26% em 2015, não sai da cepa torta. Esperem lá: já anunciou, em Janeiro passado. Ou seja, em economia, história, actualidades e no que calha, o sr. Stiglitz é bem capaz de ser o indivíduo mais à nora e menos esclarecido do mundo. Aparentemente, o homem só é óptimo a esconder de uns tantos a sua prodigiosa incompetência. E isso, sim, merecia um Nobel

Alberto Gonçalves no DN

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (50)

Outras avarias da geringonça.

É difícil de acreditar. Até o consumo que era a poção mágica da geringonça para o crescimento parece estar a cair de acordo com a  Síntese Económica de Conjuntura do INE. Do investimento nem vale a pena falar, continua a diminuir desde Abril de 2015 (quando o governo PSD-CDS começou a preparar as eleições...).

É claro que a estimativas de crescimento do PIB só podem ser revistas em baixa. De acordo com as previsões do painel de economistas da Bloomberg voltaram a diminuir: de 1,2% para 1% em 2016 e de 1,5% para 1,2% em 2017. Recorde-se que o crescimento de 2016 foi sucessivamente previsto pelo PS em 2,4% (documento dos 12), 2,1% (geringonça 1.0) e 1,8% (geringonça 2.0).

25/09/2016

SERVIÇO PÚBLICO: o défice de memória (18)

Por razões que não será preciso explicar aos leitores atentos, vou retomar esta série de posts iniciada em Novembro de 2009, nos tempos do saudoso par José Sócrates-Teixeira dos Santos, com as metas e previsões do défices do OE 2016. Aqui ficam os links para uma retrospectiva: (1 em 05-11-2009), (2 em 26-11-2009), (3 em 27-01-2010), (4 em 01-02-2010), (5 em 17-05-2010), (6 em 28-10-2010), (7 em 09-01-2011), (8 em 31-03-2011), (9 em 24-04-2011), (10 em 26-04-2011), (11 em 30-04-2011), (12 em 04-07-2011), (13 - 03-10-2011), (14 em 29-11-2012), (15 em 13-11-2015), (16 em 11-02-2016) e (17 em 12-02-2016).

Síntese até 20-06-2016


26-07-2016 - «o défice orçamental ajustado da sazonalidade do primeiro trimestre de 2016  (...) o défice português foi de 0,8% do PIB, metade da média da zona euro que foi de 1,6%».

25-08-2016 - «a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos (CGD) é “uma boa solução” e que “não atinge défice nenhum”» (António Costa)

31-08-2016 - «O défice de 2016 ficará “confortavelmente abaixo de 2,5%”» (António Costa)

01-09-2016 - «Pela primeira vez nesta década a meta orçamental do défice para 2016 será cumprida» (Ana Catarina Mendes)

20-09-2016 - «O secretário de Estado Adjunto do Tesouro das Finanças, Ricardo Mourinho Félix, admitiu esta terça-feira que o gabinete europeu de estatística, Eurostat, venha a considerar a injeção de capital público na Caixa Geral de Depósitos (CGD) no défice deste ano»

23-09-2016 - «Mário Centeno afirmou hoje que a execução orçamental de 2016 está “no bom caminho”, havendo uma “redução muito significativa” do défice face ao ano anterior, o que constitui um fator de credibilidade da economia portuguesa (...) após o Instituto Nacional de Estatística (INE) ter estimado que no primeiro semestre deste ano o défice das administrações públicas foi de 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB) – uma diminuição face aos 4,6% registados no período homólogo.»

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (47) O clube dos incréus reforçou-se (XII)

Outras marteladas.

Depois da inesperada entrada da OCDE para o clube dos cépticos nas propriedades milagrosas do alívio quantitativo (ver este post), também o FMI no «Overview of the ECB’s Asset Purchase Program» publicado no IMF Country Report No. 16/301 manifesta uma grande falta de entusiasmo quanto aos resultados do Asset Purchase Program (APP) em Portugal que se terão limitado ao crédito para habitação e pouco ou nenhum impacto tiveram no investimento devido ao elevado nível do crédito empresarial malparado. Ora leia-se:

«The impact of the APP (Asset Purchase Program) is most clearly visible in the fiscal sector, where it has alleviated financing constraints and facilitated a slower pace of fiscal adjustment than had been envisaged previously. The APP, together with the ECB’s expanded refinancing operations, has similarly helped improve access to financing for banks and put downward pressure on lending rates, but transmission to lending appears constrained by the high level of NPLs (Non-Performing Loans). The impact on bank lending appears to have been primarily on household mortgages, where NPLs are relatively modest, with corporate lending continuing to contract. As a result, the macroeconomic effect thus far appears most evident on consumption, rather than investment, with little impact on headline growth.»

24/09/2016

A maldição da tabuada (33) - Não saber a tabuada nunca foi uma desculpa para errar as contas (II)

Episódio anterior (I)

Outra oportunidade ao longo da nossa história para superar a maldição da tabuada foi o «Sector» abaixo reproduzido.



O «Sector» supõe-se ter sido inventado por Galileo Galilei nos finais do século XVI e permitia realizar um certo número de operações matemáticas para fins militares. Quem diz militares diz para afinar o tiro e quem diz afinar o tiro diz afinar os défices orçamentais para evitar dar tiros nos pés. Este zingarelho teria feito as delícias do Dr. Teixeira dos Santos para calcular o défice de 2009 que começou por ser 2,2% e acabou em 10%.

23/09/2016

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (46) O clube dos incréus reforçou-se (XI)

Outras marteladas.

O clube dos cépticos nas propriedades milagrosas do alívio quantitativo acabou de ter ganhar um novo membro de peso. Nada menos do que a OCDE que acaba de publicar no Interim Economic Outlook, um «Global growth warning: weak trade, financial distortions» de onde respigo a seguinte passagem expressando a falta de fé nas políticas monetárias dos bancos centrais:

«Monetary policy is overburdened and, in the absence of strong fiscal and structural policy action, will not suffice to break out of the low-growth trap, while leading to growing financial distortions and risks. Current market-based expectations suggest that policy interest rates will remain zero or negative at least until end-2018 in the euro area and Japan and in the United States only slightlyhigher than at present. With past and current purchases of government bonds, central banks have become major holders and buyers of sovereign debt and are intervening in a wide range of other markets, including for corporate bonds and equities. The uneven policy response across countries and over-reliance on monetary policy adds to global imbalances and creates spillovers that can have disruptive effects on other countries through capital flows and build-up of financial risks.

Preparemo-nos, pois, para a emergência de um novo credo que receio seja também baseado nos supostos poderes miraculosos dos bancos centrais a manipularem o preço e a quantidade de dinheiro.

A maldição da tabuada (32) - Não saber a tabuada nunca foi uma desculpa para errar as contas (I)

O (Im)pertinências tem sustentado que os problemas com as contas, públicas e privadas, que afectam políticos, economistas, jornalistas e até, imagine-se, contabilistas, resultam da nossa falta de vocação para os números, sobre cuja origem aqui especulei. Falta de vocação que as luminárias que se têm dedicado a instruir a população nas últimas décadas pensaram superar eliminando a tabuada. Por isso lhe temos chamado a maldição da tabuada.


Acontece que essa falta de vocação não pode ser alibi para errar as contas pelo menos desde que existem dispositivos de cálculo. Ou seja desde 2.700 AC quando foi inventado na Mesopotâmia o ábaco, um zingarelho como o acima reproduzido. Nos próximos posts vou tentar demonstrar que, ainda que tivéssemos falhado o ábaco, tivemos muitas outras oportunidades ao longo da nossa história para superar a maldição da tabuada.