Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético, heterodoxo (e homofóbico). Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: No país do faz de conta, a culpa costuma morrer solteira e a responsabilidade morre virgem.

21/05/2013

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Quotidiano de desleixo, incompetência e negligência (3)

Outros quotidianos: (1), (2).

Buraco municipal em curso
Cerca das 8 horas da manhã, à hora em que deveriam começar a trabalhar, uma brigada de funcionários da câmara de Oeiras deve ter-se encontrado na tasca nas proximidades do parque de viaturas para tomar sossegadamente o mata-bicho. Talvez cerca das 9 horas, partiram em direcção à praia de Santo Amaro para aparafusar um chuveiro de praia numa base de betão previamente lá colocada e ligar à canalização que também já lá se encontrava. Coisa pouca que ocuparia com boa vontade 2 operários e um olheiro, transportados numa viatura.

Ocuparia, mas graças à reforma autárquica, eram 5 operários e 3 motoristas em três viaturas que cerca das 9:30 já tinham encontrado o tubo de PVC para fazerem a ligação do chuveiro. Para terem a certeza, deram-lha uma boa pazada, fazendo um furo por onde saíram uns metros cúbicos de água, enquanto todos galhofavam animadamente em volta do buraco. Ao fim de uns minutos, um deles, descansadamente, foi fechar a torneira de segurança. E lá continuaram com todo o ripanço a fazer horas para com antecedência necessária se porem a caminho do almoço, de onde sairão 2 ou 3 horas depois para mais uma nova jornada de luta.

@RTISTA CONVIDADO: «O que tu quiseres» (11)

Efabulações já publicadas: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9) e (10)

«O que tu quiseres», uma colecção de 24 efabulações. O estendal onde a artista pendura algumas das suas coisas pode ser visto AQUI.

Monstros Voadores
(Continua)

20/05/2013

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: A via socialista para a viabilização de empresas

Uma das propostas mirabolantes de António José Seguro apresentada no congresso de Santa Maria de Feira para salvar empresas viáveis «sem que o Estado meta lá um cêntimo» consiste em transformar em capital as dívidas fiscais, à Segurança Social e aos bancos.

E como se faria essa milagrosa transformação de vários passivos em capital sem gastar um cêntimo? Perceberá AJS que isso equivaleria a um perdão de dívidas que, sendo passivos de uma empresa, são activos do Estado ou dos bancos que se perderiam com a «transformação»? E que diferença faria isso no que respeita à liquidez das empresas, cujo aumento é um dos propósitos da proposta mirabolante, se não entrasse «um cêntimo» na empresa? AJS não explica – ele nunca deve ter olhado para um balanço e começo a suspeitar que foi para não enfrentar essas matérias áridas que desistiu do curso de Organização e Gestão de Empresas do ISCTE e passou para o de Relações Internacionais, na UAL onde deve ter aprendido a lidar com o pensamento mágico.

É claro que esses milagres só na cabeça de gente que se e quando chegar ao governo vai retomar o caminho para a insolvência momentaneamente interrompido. Só as dívidas fiscais, segundo a estimativa do governo, são 6,3 mil milhões e a isso haveria de acrescentar-se as dívidas à Segurança Social (mais uns milhares de milhões) e à banca (idem).

Tudo por junto, salvar empresas viáveis «sem que o Estado gaste um cêntimo» custaria possivelmente umas dezenas de milhares de milhões e, talvez pior do que tudo isso, colocaria essas empresas sob a tutela do acionista mais incompetente que o sector empresarial português algum dia viu: o Estado Socialista.

Pro memoria (114) – Portas, o político (mais) fingidor

Talvez por coincidência, na véspera do Expresso publicar uma colectânea de citações de Paulo Portas na sua encarnação de jornalista («a mim basta-me ser jornalista … não tenho a menor intenção de me submeter a votos»), eurocéptico, «liberal», «conservador», «anarquista de direita», entre outras caracterizações que se autoatribuiu, era divulgada uma sondagem da Aximage que o considera o melhor ministro.

Se a sondagem diz muito do que pensa a maioria do eleitorado e ajuda a perceber como foi possível durante 3 décadas ter votado e tolerado sem um protesto (salvo as brigadas comunistas e berloquistas) quase duas dezenas de governos que foram arruinando o país, a colectânea diz imenso sobre Paulo Portas, o político das mil-caras que finge ter princípios e só tem fins. Talvez a melhor caracterização do próprio Portas seja a que ele próprio fez algo injustamente sobre Francisco Lucas Pires e é citada na colectânea. Mutatis mutandis:
«Ex-fascista e neodemocrata, ex-direitista e neossituacionista, ex-conservador e neoprogressista, ex-liberal e neossocial, ex-nacionalista e neoeuropeísta, ex-coimbrão e neobruxelense, ex-federalista e neoantifederalista, ex-CDS, ex-AD, ex-independente e neo-PSD, ex-pirista e pós-cavaquista»

ESTADO DE SÍTIO: Crisis? What crisis? (4)

«Segundo dados da Associação de Construtores Europeus de Automóveis (ACEA) divulgados hoje, as vendas em Portugal cresceram 0,9% nos primeiros quatro meses do ano contra as quedas de 44,4% do Chipre, 13,3% da Irlanda e 9,8% da Grécia. A Espanha, que não está formalmente em resgate, também viu as vendas de carros caírem 6,7%.» (Oje)

E não, não temos o parque automóvel mais pequeno da Europa. Temos um dos maiores por mil habitantes – o terceiro ou quarto. Resta acrescentar que são os automóveis da gama alta que mais aumentaram as vendas.

19/05/2013

SERVIÇO PÚBLICO: Uma pedagogia que competiria ao governo ser capaz de fazer

A raiz da austeridade

«Que mal fiz eu para me cair em cima esta austeridade? Por que sobem tanto os meus impostos e me cortam cada vez mais benefícios sociais?

Há muitos portugueses a fazerem estas perguntas. Não compreendem o motivo da austeridade, o que torna ainda mais doloroso suportá-la. O Governo foi parco em pedagogia e a maior parte dos 'media' é mais sensacionalista do que pedagógica.

Tirando as famílias sobre-endividadas e os gestores de numerosas empresas do nosso país - as mais endividadas da Europa -, a maioria da população não entende, nem, talvez, queira entender o que significa a dívida de Portugal. Prefere protestar. Curiosamente, não protesta contra quem nos colocou nesta situação.

O PS fala no crescimento económico, mas não explica como irá financiá-lo, se e quando for governo. Aparentemente, será através de mais dívida. Ora essa fórmula não resultou, antes pelo contrário, na primeira década deste século, ao longo da qual a economia portuguesa cresceu apenas à média de 0,5% ao ano, apesar das grandes obras públicas. Agora o crédito é escasso e caro. E aumentar uma dívida pública que já passou os 120% do PIB é suicidário.

O caso das auto-estradas e das Scut (originalmente sem encargos para o utilizador) é exemplar. Antes da crise, Portugal tinha 28,5 km de auto-estradas por mil km quadrados de área, contra 20 km em França e de 22 em Itália. A Irlanda e a Grécia tinham, respectivamente, 6 e 8km.

Nessa altura, Portugal possuía o terceiro maior número de carros por mil habitantes da Europa (depois da Itália e do Luxemburgo), estando longe de ser o terceiro país mais rico da UE. Atingimos, assim, 2,5 km de auto-estradas por dez mil habitantes, contra 1,5 km na Alemanha, 1,4 km na Finlândia, 0,5 km no Reino Unido, etc. Essa loucura levou o país a gastar em auto-estradas cerca de três vezes mais do que a média da UE, em percentagem do PIB. Como muitas das nossas auto-estradas resultaram de parcerias público-privadas escandalosamente prejudiciais para o Estado, as próximas gerações terão às suas costas uma tremenda herança de encargos, apesar das reduções já conseguidas.

Mas, ao menos, terá tido alguma utilidade este investimento a crédito nas auto-estradas? Poucos carros lá passam hoje e não só por causa das portagens e da crise. Essas vias de luxo não desenvolveram o interior. E o transporte de mercadorias não beneficiou grande coisa com elas.

O prof. Avelino de Jesus notava em 2008, no Jornal de Negócios, que nos anteriores 15 anos, enquanto Portugal aumentou a rede de auto-estradas em 480% e o volume de mercadorias transportadas em 28,5 %, a Espanha aumentou a sua rede de auto-estradas em 130%e o volume de mercadorias transportadas em 121 %. Acresce que, segundo o mesmo artigo, na UE as auto-estradas representam 1,2% da rede viária, enquanto em Portugal representam 2,3 %. Ou seja, «temos auto-estradas a mais e vulgares estradas a menos».

Felizmente, conseguiu-se evitar o TGV, que nem sequer pagaria os custos operacionais, quanto mais os do investimento. Mas o irrealismo dos entusiastas dos grandes projectos era tal que o então ministro da Economia, o prof. António Mendonça, justificou o TGV com a grande quantidade de espanhóis que nele viria tomar banho à praia da Caparica, regressando a Madrid ao fim da tarde.»

Francisco Sarsfield Cabral no SOL

@RTISTA CONVIDADO: «O que tu quiseres» (10)

Efabulações já publicadas: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8) e (9)

«O que tu quiseres», uma colecção de 24 efabulações. O estendal onde a artista pendura algumas das suas coisas pode ser visto AQUI.


Monstros Que Gostam De Flores
(Continua)

18/05/2013

ARTIGO DEFUNTO: Espero bem que os eurodeputados repudiem o modelo socrático-teixeirense

Confesso ter ficado ainda mais preocupado do que quando escrevi este post ao ler uma meia dúzia de artigos com títulos do tipo «Eurodeputados querem proteger depósitos acima de 100 mil euros». E porquê? Ora, porque bem poderia ser que os eurodeputados pretendessem serem os contribuintes a pagar a falência dos bancos, segundo o modelo socrático-teixeirense, pagamento que no caso do BPN vai ser maior do que o défice das contas públicas. Fiquei tão preocupado que quase me dispus a ler um documento de 60 páginas em europês intragável, baptizado «Banking Union: The Single Resolution Mechanism - Monetary Dialogue, 18 February 2013, Compilation of Notes».

Quase li, porque, vencido pelas primeiras páginas do pernóstico texto, fiz a agulha para apenas o folhear até concluir, talvez apressadamente, que afinal as criaturas não pretendem que os contribuintes contribuam com o seu dinheiro extorquido pelo Estado para poupar os grandes depositantes. Em vez disso, parecem pretender que os grandes depositantes suportem a sua parte na sua vez, isto é depois dos accionistas e dos obrigacionistas criticando o modelo socrático-teixeirense. Leia-se esta conclusão:

«The best resolution mechanism will not work properly if the competent authorities continue to follow the principle that no bank should ever be allowed to fail, and that most creditors (including senior unsecured and large depositors) should always be guaranteed full payment. If this practice continues, investors will not price the risk of banks properly. The actual practice in resolution followed today is thus more important than the bail-in regime formally enshrined in legislation.»

Chávez & Chávez, Sucessores (7) – A revolução chávista chegou ao traseiro do povo

«A revolução trará ao país o equivalente a 50 milhões de rolos de papel higiénico, para que nosso povo se tranquilize e não se deixe manipular pela campanha mediática que fala em escassez».
«Alejandro Fleming, ministro do Comércio da Venezuela, informando que o governo decidiu importar 50 milhões de rolos de papel higiênico não por haver escassez do produto, mas porque a demanda aumentou depois que a imprensa decidiu mostrar tudo o que Hugo Chávez fez e Nicolás Maduro anda fazendo com o país.» (Revista Veja)

17/05/2013

SERVIÇO PÚBLICO: Pobres e mal pagos (2)

Se já estávamos mal, pior ficámos.


Fonte: European Payment Index 2012, intrum justitia
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@RTISTA CONVIDADO: «O que tu quiseres» (9)

Efabulações já publicadas: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7) e (8)

«O que tu quiseres», uma colecção de 24 efabulações. O estendal onde a artista pendura algumas das suas coisas pode ser visto AQUI.

Monstros Que Comem Flores

(Continua)

16/05/2013

Desta vez não foi diferente

Fonte: TSF
Rebeldes sem causa mostram a sua falta de educação e convicções democráticas impedindo Vítor Gaspar de apresentar «Desta vez é diferente: Oito séculos de loucura financeira», ontem no El Corte Inglés. São rebeldes do grupo «Que se lixe a troika», protestando com atraso por nos terem sido emprestados de favor 80 mil milhões de euros a taxas de juros de favor, sem os quais os rebeldes teriam tido de ir cavar batatas para o interior para não passarem fome.

Lost in translation (176) – Caminhar para o abismo é a nossa especialidade, queria o camarada significar

«Como está à vista, ..., este é um caminho para o abismo económico, para o retrocesso económico e para a hipoteca do futuro do país como nação desenvolvida e soberana» disse o camarada Jorge Cordeiro, dirigente do PCP, com a autoridade imanente aos comunistas pelas suas performances domésticas e nos paraísos socialistas da URSS e restantes países do Comecon e, ainda hoje, em Cuba e Coreia do Norte.

15/05/2013

TRIVIALIDADES: A cada um segundo as suas posses, a Nossa Senhora de Fátima está do nosso lado e a fé é que nos salva

«Passos e Sócrates regressaram de Paris no mesmo avião mas em classes diferentes.» PPC em económica e JS em executiva. (Negócios)

«Eu penso [no fim da sétima avaliação] como uma inspiração - como já a minha mulher disse várias vezes - da nossa Senhora de Fátima, do 13 de maio"» suspirou Cavaco Silva, segundo o Expresso.

Enquanto isso, o ex-ministro das Finanças Silva Lopes, hipoteticamente inspirado por N. Senhora, acha muito bem o corte nas pensões porque «não há outro remédio» e «a geração grisalha não pode estar a asfixiar a geração nova da maneira como tem feito até aqui.» Mais um para juntar à lista dos inimigos do povo.

Aditivos:

Possivelmente também inspirado em N. Senhora, Vítor Gaspar, o abençoado, para uns, e amaldiçoado, para outros, ministro das Finanças, garantiu que «relativamente à questão muito importante dos depósitos bancários, foi absolutamente claro que a garantia de depósitos abaixo dos 100 mil euros é sacrossanta, reforçando que a expressão que foi usada e repetida é sacrossanta.» Deve ser matéria de fé, porque se o sistema bancário se desmorona, com a dívida pública nas alturas em que se encontra, e sempre a crescer, só mesmo N. Senhora poderia compensar com indulgências as largas dezenas de milhões de euros aos depositantes.

Se para uns é matéria de fé, o caso das capacidades preditivas dos economistas tele-evangélicos da Louçã School of Economics que antecipam que a Holanda se afundará colapsando o euro, é mais matéria leiga, talvez inspirada pelo oráculo de Delfos. Que outra fonte poderia ser a de quem não conseguiu antecipar a falência do Estado português e a atribuiu às mesmas causas do sindicato dos motoristas de táxis: capitalismo de casino, agências de rating, Alemanha, troika e, mais recentemente, àquele último senhor das garantias sacrossantas?

Mitos (110) - O sofrimento dos jovens

No Expresso de sábado passado, escrevia-se a propósito do desemprego: «os jovens é que sofrem mais» por terem uma taxa de desemprego superior a 40%. O jornalista que escreveu essa asserção piedosa deve saber coisas que eu não sei. Vejamos alguns números.

Dos 1.147 mil indivíduos no escalão etário 15-24 anos, grosso modo, 229 mil estão empregados e 166 mil estão desempregados ou inactivos. A taxa de desemprego de 42% não é medida em relação ao número total de jovens no escalão etário (1.147 mil), como aparentemente o articulista de causas imagina, mas em relação aos 394 mil activos. Estão matriculados no ensino secundário 441 mil e 396 mil no ensino superior, a maior a maior parte de uns e outros pertencerão ao escalão 15-24. (Dados do Censo 2011 e da Pordata)

Quantos dos 1.147 mil jovens sofrem? Os cerca de 750 mil não activos não me parece que estejam em estado de sofrimento – vejam-se as festas académicas que mobilizaram centenas de milhares (mais do que todas as manifs contra o desemprego), onde se consumiram uns milhões de litros de cerveja e se torraram milhões de euros; veja-se assiduamente as discotecas cheias e as muitas dezenas de festivais de música (só a Blitz seleccionou 22 melhores entre os festivais de verão) com dezenas ou centenas de milhares de espectadores cada um (em 2008 foram mais de 4 milhões de espectadores), onde se consumirão muitos milhões de litros de cerveja. Quanto aos menos de 15% desempregados, vivem à conta dos e em casa dos pais, aliás como a maioria dos restantes.

Talvez os que mais «sofrem» sejam afinal os 229 mil empregados que têm horários e obrigações profissionais. Além destes «sofredores», quem mais sofrerá? Talvez muitos dos pais dos restantes que os sustentam e muitos dos avós para quem os pais não estão disponíveis, de tão ocupados a cacarejarem à volta dos seus frágeis rebentos.

@RTISTA CONVIDADO: «O que tu quiseres» (8)

Efabulações já publicadas: (1), (2), (3), (4), (5), (6) e (7)

«O que tu quiseres», uma colecção de 24 efabulações. O estendal onde a artista pendura algumas das suas coisas pode ser visto AQUI.


Luas Dorminhocas
(Continua)