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12/06/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (87)

Outras avarias da geringonça.

Como seria de esperar numa economia cada vez mais descapitalizada (ver por exemplo «As 10 Questões do Colapso. Portugal: a provável derrocada financeira de 2016-2017» de João César das Neves), a produtividade não só não cresce, o que já seria um problema quando temos uma produtividade PPS inferior a 70% da média UE28, mas ainda se degrada.

Uma economia descapitalizada e, pior do que isso, que não investe o suficiente para compensar a depreciação do capital, e muito do que investe é em sectores de bens não transaccionáveis. Segundo o INE, sendo certo que no 1.º trimestre o investimento em máquinas e ferramentas cresceu 15%, o investimento em construção cresceu 8,5%, o maior aumento desde 2002 e o segundo maior desde 2000, e o crescimento em cadeia caiu de 5,9% para 2,1%. (Económico)
Enquanto isso, o governo socialista deixou cair as suas bandeiras keynesianas para segurar a bandeira da consolidação orçamental, que lhe permite manter aberta a torneira do óleo do BCE para lubrificar a geringonça, diz pela boca de Centeno citado pelo Expresso (a este respeito uma fonte fidedigna) que o investimento público não atingirá o nível de 2015 antes de 2022.

E porque não investimos o suficiente? Em primeiro lugar porque não poupamos o suficiente. Segundo o Relatório de Estabilidade Financeira do BdP, a poupança interna mantém-se em 15% do PIB, 9 pontos percentuais abaixo da média da zona euro, a capacidade de financiamento dos particulares diminui 0,3 pp para 1,2% do rendimento disponível e a poupança dos particulares registou o valor mais baixo, ficando em 4,4% do rendimento disponível. (Económico)

Já agora, registe-se mais uma cavalada que o governo pretende fazer ao pressionar a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa a aplicar 150 a 200 milhões do dinheiro destinado a fins sociais para tirar do buraco o Montepio Geral. É como assaltar a caixa das esmolas para financiar um bordel,

Em segundo lugar, e em cima disso, como reconhece o BdP, porque a banca está sentada em cima de uma quantidade astronómica de malparado, herança dos anos do socratismo.

Em terceiro lugar porque o sistema financeiro está a financiar o monstro devorador de recursos e detém 53,5 mil milhões (mM) de euros de dívida pública. Em quarto lugar porque 25 mM da pouca poupança privada está igualmente aplicada em dívida pública (fonte).

A Segurança Social prossegue o seu caminho inexorável para a insustentabilidade. Apesar da redução do desemprego e das subsídios de desemprego, em 2016 o total das prestações sociais aumentou 1,2% devido ao aumento de 2,4% das pensões. O aumento de 4,5% das receitas (resultante em grande parte também ele da redução do desemprego) é um efeito conjuntural que se esgotará quando o desemprego chegar ao valores normais e não nos desvia do caminho a longo prazo.

O salário mínimo português é já 80% da média da EU28, muito superior ao salário médio que não passa de 57% da média EU28, abrange 730 mil trabalhadores e no 1.º trimestre representou mais de 40% dos novos contratos. Como a esmagadora maioria dos salários mínimos é paga pelas micro e pequenas empresas imagine-se os efeitos sobre a sua viabilidade dos sucessivos aumentos. É um problema que o governo, pressionado pela geringonça, insiste em agravar.

Se não fosse trágico, seria cómico. Segundo informação do Ronaldo das Finanças ao Conselho das Finanças Públicas «o número de saídas deverá aumentar de 9.585 em 2016 para cerca de 12 mil em 2017», isto depois do número de funcionários públicos ter aumentado no 1.º trimestre 6,8 mil ou 1%.

De vez em quando, atravessam o nevoeiro informativo da máquina de propaganda da geringonça alguns dados que permitem perceber o milagre do défice. Desta vez foi a presidente da CMVM que numa audição no parlamento na Comissão de Orçamento e Finanças se descaiu e revelou que as cativações do Ronaldo das Finanças não lhe permitem pagar todos os salários até ao fim do ano. Imaginemos as indignações e as pandeiretas mediáticas que soariam se isto se tivesse passado nos tempos do governo anterior.

Outro facto que permite perceber o milagre do défice é o cancelamento de cirurgias por redução de 35% das verbas para contratar novos médicos e enfermeiros para poder pagar horas extraordinários que tiveram de ser feitas para compensar a redução para as 35 horas, não obstante as garantias de que não seriam necessárias.

Outra fonte de nevoeiro informativo é o caso EDP, sopre o qual escrevi que é típico da promiscuidade do que se poderia chamar o bloco central informal dos negócios, um zingarelho com algumas semelhanças com a geringonça, a quem devemos uma parte substancial do apodrecimento do regime. Para um esclarecimento desta tese há várias leituras disponíveis e recomendáveis, por exemplo este artigo de José Manuel Fernandes, este de Helena Garrido ou este de Filipe Alves.

E, já que falamos em indignações e em pandeiretas mediáticas, imaginemos se o governo PSD-CDS fechasse a correr um inquérito à CGD sem esperar pelo auditoria e pela lista de créditos, como fez o PS apoiado pelos comunistas e bloquistas,

Uma das bandeiras da geringonça tem sido a criação de emprego. Sendo indesmentível, convirá olhar para três indicadores: (1) a maioria dos novos empregos é na hotelaria, alojamento e restauração fruto do incremento do turismo, para o qual as medidas do governo socialista contribuíram menos do que o Estado Islâmico; (2) dois terços dos contratos são temporários e (3) a média dos salários dos novos contratos temporários é de 688 euros, menos 207 euros do que os contratos sem termo.

Depois de ter revertido a privatização da TAP, o governo faz dela um case study de nomeação de gestores. Socorro-me do semanário de reverência Expresso, que não é suspeito de antipatia pelo governo e escreve pela pena do seu director (se ele o escreve...) que o governo nomeou o amigo de Costa e vários paraquedistas que tudo quanto sabem de aviação comercial foi aprendido na classe executiva, entre eles a amiga do inimigo da TAP Rui Moreira e Frasquilho que serve de vaselina para o PSD engolir os outros.

Mais um sinal do que pode estar para vir: em Abril os aumentos homólogos das exportações e das importações de bens foram, respectivamente, +0,4% e +10,8% e em consequência o défice comercial agravou-se em 500 milhões. (fonte) Não há razões para ficarmos surpreendidos se lermos todos os sinais que vêm sendo dados desde há meses e nos lembrarmos do que se passou nos primeiros 10 dos últimos 15 anos (parece que estou a falar do cálculo das pensões de reformas, mas não estou).

Para fechar esta crónica, registo o crescimento para 40% das intenções de voto do PS, 11 pp acima do PSD, e a queda do BE (0,4%) e do PCP (0,1%) e faço aqui um prognóstico sobre as consequências indesejadas desse crescimento na ansiedade dos comunistas e dos bloquistas (menor nos segundos porque têm esperança de entrar num governo PS), consequências potenciadas pela saída do PDE que constituía uma barreira para a enxurrada reivindicativa da esquerdalhada, o que tudo por junto pode levar a uma crise da geringonça.

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