Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

22/08/2017

Dúvidas (206) - E se, em vez de tentar chocar os saloios, a secretária de Estado da modernização arejasse o bafio da administração pública?

Importante, importante mesmo, não é a secretária de Estado vir expor as suas preferências sexuais que são (deviam ser) irrelevantes para a sua função no governo socialista da geringonça. Importante, importante mesmo, seria a secretária de Estado vir expor as suas ideias sobre a modernização da administração pública.

Estranho, estranho mesmo, é a primeira vez que se houve falar de uma secretária de Estado é a propósito dos desvios/orientações (cortar conforme o gosto) sexuais da criatura.

Declaração de interesse: sou heterossexual e penso que os homossexuais são... maricas

ACREDITE SE QUISER: Energia renovável não é necessariamente sinónimo de carbono neutro

Segundo a Agência Internacional de Energia para 2015 (Renewables Information - Overview 2017), a produção solar e eólica em conjunto representa apenas um quinto da geração de electricidade definida como renovável, contra mais de 70% proveniente de energia hidroeléctrica. Do restante, os biocombustíveis (como a combustão de pellets de madeira ou a queima de metano) representam mais do que os painéis solares.

Por isso, quando o jornalismo de causas ecológicas escreve sobre energias renováveis deveria mostrar fotos de barragens e turbinas em vez de "florestas" de painéis solares e parques eólicos. E deveria esclarecer que devido à decomposição anaeróbia de algas e outras matérias vegetais nas barragens, as centrais hidroeléctricas podem ser grandes emissores de metano, um gás com efeito de estufa várias vezes mais potente que o dióxido de carbono. E deveria mostra que, sendo certo que a queima de metano de resíduos agrícolas deixa uma pegada negativa de carbono, se a floresta de onde provém não for regenerada essa queima pode ser mais poluente do que a de carvão.

Em conclusão, «energia renovável» não é necessariamente sinónimo de carbono neutro. (Fonte: Why Renewable Energy Is Not As Clean As You Think»

21/08/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (97)

Outras avarias da geringonça.

O know-how do governo na produção de estatísticas de causas está-lhe tão natureza que até em matérias em que a aldrabice é facilmente verificável não resiste a aldrabar. Os recordes de desgraças neste Verão em matéria dos incêndios que o governo propalou terem sido batidos para se desculpabilizar pelo fracasso, tais como o mês de Julho mais quente, a maior área ardida, o maior número de ocorrências num só dia, mais reacendimentos, mais fogos postos e falhas do SIRESP,  foram todos aldrabados, segundo o fact-checking do Expresso, a quem nesta circunstância desalinhada temos de dar crédito.

E como a aldrabice contamina todas as áreas, não se estranha que a acusação que o governo de Costa tem feito ao de Passos Coelho quanto à execução dos fundos comunitários é mais uma mistificação porque, como o Negócio mostra aqui, a comparação do QREN da responsabilidade do governo anterior com o Portugal 2020 da responsabilidade do actual, quer nas taxas de compromissos, quer nos níveis de execução, quer nos atrasos, é desfavorável ao governo de Costa.

20/08/2017

Curtas e grossas (49) - Os novos marxistas trocaram o motor da história - a jihad em vez da luta de classes

«Agora que os amanhãs já não cantam a Internacional a caminho de uma sociedade sem classes, a fúria da rua árabe e toda aquela litania da colonização, as cruzadas e tudo o que mais lembrar, configuram-se como o anúncio do admirável mundo novo que mais uma vez se anuncia: uma sociedade em que as comunidades substituíram os cidadãos; as minorias impõem as suas particulares circunstâncias como regras e os revolucionários se tornaram reguladores dos ressentimentos.»

Do lado de dentro da janela, Helena Matos no Observador

Manifestações de paranóia/esquizofrenia (24) - O eucalipto do tudológo é um pinheiro

No post anterior escrevi que a esquerdalhada esquizofrénica vêm exigindo medidas de combate ao eucalipto com a colaboração dos telejornais que mostram quase sempre imagens dos mortíferos eucaliptos que representam menos de 13% da área total ardida.

Uma floresta de eucaliptus tavarensis
A este propósito, leia-se o que João Soares, um especialista na floresta, disse em entrevista ao jornal SOL:

«O eucalipto não é infestante?
De todo. A prova disso é que ele está cá há 150 anos e a gente não o conhece fora dos sítios onde foi plantado. Mas como é uma indústria de capital intensivo, que cheira mal e tem grandes lucros gerou- se uma psicose, que tem uma origem ideológica. O Miguel Sousa Tavares vai para a televisão com uma fotografia da estrada [de Pedrógão Grande] onde morreram aquelas pessoas e diz: 

'Como vêem nesta fotografia, foi o eucalipto que passou o fogo'. 

O que está na fotografia são pinheiros. São pinheiros! Não quer dizer que se fossem eucaliptos aquelas pessoas não morressem também, mas a pouca-vergonha com que se usa a mentira é inenarrável. O país insiste em não produzir coisa nenhuma. Aqui temos a mais-valia de pegar numa plantinha ou uma semente, fazer uma árvore e chegar ao papel, com valor acrescentado de 80 ou 90%, que se exporta e concorre · com o mercado nacional, sem nenhum dano irreversível.»

Miguel Sousa Tavares, levado pelo seu culto da tudologia, imaginando que o fervor substitui o conhecimento, acrescentou mais um dislate à longa lista das suas indignações mediáticas.

19/08/2017

BREIQUINGUE NIUZ: Costa vai casar outra vez


  • «Foi de António Costa, como ministro da Administração Interna, a decisão de apostar tudo num sistema de combate aos incêndios focado em extinguir rapidamente as ignições e que desvalorizou a reforma da floresta. É essa opção que, neste ano quente e de imensa acumulação de combustível nas matas, mostra não ser capaz de evitar tragédia atrás de tragédia.

18/08/2017

Cuidado com o que desejas

«Grupo de esquerda anticapitalista e separatista Arran ocupou este sábado (12-08) uma praia na cidade de Barcelona em protesto contra o turismo em massa» (Observador)

Menos de um semana depois, um atentado reclamado pelo Estado Islâmico faz mais de uma dezena de mortos e mais de uma centena de feridos. Um dos efeitos possíveis do atentado pode resolver o «problema» da esquerda anticapitalista e separatista - o turismo em massa.

ESTÓRIA E MORAL: Em vez de usar esfregonas e baldes é preferível fechar a torneira

Estória

Em Agosto do ano passado chegaram a Itália provenientes da Líbia 21.294 pessoas. Nas duas primeiras semanas de Agosto deste ano chegaram apenas 2.080 ou seja uma redução de 80%, redução que já em Julho tinha sido de 51%.

Porquê? Segundo o Economist Espresso, dois factores contribuíram para essa significativa redução. O governo italiano impôs restrições às ONG que realizam missões de salvamento, acusando algumas de colaborarem com os traficantes que transportavam as pessoas e, principalmente, uma guarda-costeira líbia melhor treinada e equipada que dificulta a acção dos traficantes e retorna as pessoas a terra.

Moral

Em vez de usar esfregonas e baldes é preferível fechar a torneira.

[Às criaturas que me julguem insensível ao sofrimento dos refugiados direi que a maioria não são refugiados mas migrantes económicos e que para ajudar todos a Europa se arrisca a não ajudar nenhuns e a alimentar a xenofobia. Às criaturas da esquerdalhada e do politicamente correcto que improvavelmente passem por aqui e tenham vontade de me insultar, direi: ide catar-vos.]

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: É preciso ganhar dinheiro para pagar o preço da independência

«Sem informação livre e sem verdadeira liberdade opinativa o estatuto  dos cidadãos numa democracia fica em crise. E quem não sabe não pode escolher bem. Tudo isto vem a propósito do estado actual da comunicação social portuguesa. Jornais, televisão e  rádio  vivem uma  quase unanimidade em matéria de louvaminhas à gerigonça e ao actual Governo, destacando-se todos no panegírico ao “génio político” do primeiro-ministro. Essa atitude não decorre apenas do facto da maioria dos jornalistas serem de “esquerda”, ou odiarem Pedro Passos Coelho. Tem sobretudo a ver, julgo eu, com as manifestas dificuldades económicas em que vivem, em particular a imprensa e os canais televisivos privados.

A experiência diz-nos que quando o dinheiro falta a isenção e a independência vão minguando. O cemitério da comunicação social está repleto de valorosos baluartes da independência jornalística. Por outras palavras: para falar alto ao poder é necessário ter suficiente folga financeira. E isto é tanto mais verdade num país como Portugal, onde o poder político vive em conúbio com o poder financeiro ou pelo menos tem como ele uma especial relação de cumplicidade. Isso  coloca a generalidade dos órgãos de comunicação social na posição em que não gostam de ser vistos: de mão estendida! 

Imprensa, rádio e televisões estrangulados ou dependentes de ajuda financeira  não ajudam à liberdade de imprensa. Talvez por isso alguns projectos jornalísticos exclusivamente digitais, provavelmente menos condicionados financeiramente, sejam os únicos (ou quase) a resistir a esta vaga de ilusionismo que nos pinta o país em tons de rosa, quando essa não é, infelizmente, a cor da floresta depois de arder…»

«Ilusionismo», Ricardo Leite Pinto no Económico

17/08/2017

Here comes the same lengalenga again


Depois da trovoada seca, do downburst, da seca, do aquecimento global retornaram à velha lengalenga. De onde podemos concluir que as mãos criminosas estão quase todas a norte do Tejo e a lenda do bom povo que aí habita esconde resmas de pirómanos.

Fonte ICNF
Se o leitor tiver a pachorra indispensável e interesse em ver a coisa a uma luz diferente das lengalengas mediáticas e das narrativas branqueadoras de responsabilidades, pode ler alguns da dúzia de posts que o (Im)pertinências dedicou em mais de 10 anos a este tema - por exemplo este.

Uma mão só lava a outra se houver sabão

Entendamo-nos, considerar Donald Trump um mau presidente para os Estados Unidos e um péssimo presidente americano para o mundo não implica considerar que tudo o que defende é errado ou condenável e não implica considerar que os seus detractores têm razão por direito divino quando se lhe opõem; por outro lado, considerar que muitos dos seus detractores defendem ideias erradas ou condenáveis não implica dar razão a Trump quando se lhes opõe.

Vem isto a propósito dos incidentes de Charlottesville em cuja génese se encontra mais um episódio da estupidez revisionista da história: a tentativa de remover do Emancipation Park uma estátua de Robert E. Lee, um herói da Guerra de Secessão, general do exército dos Estados Confederados, que por acaso não era esclavagista e por acaso defendia a integridade da União e até foi escolhido pelo presidente Lincoln para comandar o exército da União; confrontado com a secessão da Virgínia, não aceitou e escolheu o Estado onde nasceu.

É claro que isso justifica e legitima a manifestação contra a remoção da estátua. É igualmente claro que a contra-manifestação, começando por ter legitimidade perde-a a partir do momento em que uma facção dos contra-manifestantes, a Antifa ou "activistas anti-fascistas" se manifestaram violentamente com bastões e líquidos coloridos contra os "supremacistas brancos", segundo o testemunho insuspeito de repórteres do New York Times. E é ainda mais claro que tudo isto não pode justificar a violência dos manifestantes e muito menos um acto extremo como o atropelamento deliberado por um "neo-nazi"de contra-manifestantes de que resultou a morte de um deles. E, já agora, repare-se como os mídia na sua maioria utilizam os adjectivos para instilar nas meninges qual o lado certo (anti-fascistas) e o lado errado (supremacistas brancosneo-nazis) dispensando-se de mais argumentos.

Face a esta situação compreende-se que Trump, mostrando por uma vez algum senso, tenha tentado evitar tomar partido e resistido a condenar os "supremacistas brancos". Já não se percebe e não se desculpa que a incapacidade de Trump para lidar com situações complexas como esta e com as pressões que naturalmente foi sujeito o tenha levado a perder a distância, a tomar partido limpando a folha do alt-rigth e atacando a alt-left que é uma espécie de alt-right de esquerda que inspirou a contra-manifestação. (NYT, NYT)


É possível que as coisas não fiquem por aqui porque continua a fúria de remoção de símbolos históricos a quem a esquerdalhada americana pretende julgar pelos padrões da sua vulgata e colar rótulos que nem hoje fazem sentido quanto mais no século XIX. O episódio mais recente é o da remoção retratada na imagem das estátuas de Robert E. Lee (outra vez) e de um outro general e herói sulista Thomas Jonathan "Stonewall" Jackson. (NYT)

Esta onda de imbecilidade que ameaçar submergir os Estados Unidos seria comparável a uma outra onda, que esperemos não venha a ser formada pelos pamonhas locais da esquerdalhada, e que levaria entre nós a desmantelar, entre muitas outras estátuas e monumentos, a Fonte Luminosa (porque foi um símbolo do salazarismo e, já agora, onde Mário Soares iniciou o ataque a comunistas e esquerdistas), o Cristo-Rei (porque uma parte da hierarquia católica colaborou com o salazarismo), o monumento a Gomes da Costa em Braga (porque comandou o golpe de estado que acabou com a baderna da 1.ª república), as dezenas de estátuas de colonialistas como Afonso de Albuquerque ou o Monumento ao Esforço Colonizador Português (Foz do Douro), sem esquecer o derrube de todos os padrões dos descobrimentos espalhados por esse mundo.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Biopsia ao maior e mais agressivo carcinoma no tecido político-económico do regime

Secção Res ipsa loquitur

Se é verdade que o Público faz demasiadas vezes o papel de intendente do regime e porta-voz da esquerdalhada, seria injusto não reconhecer que tem lá gente de qualidade, com um módico de independência e desatrelados das corporações que governam o país.

Por isso, deve relevar-se o excelente trabalho (mais de compilação e sistematização do que de investigação, esclareça-se) no artigo «Suspeitas de gestão danosa na antiga PT» de Cristina Ferreira que faz uma biopsia ao maior e mais agressivo carcinoma no tecido político-económico do regime. (Se fosse mauzinho diria que o artigo deve ter sido lido alguma satisfação pelos Azevedos donos do jornal a quem o duo Sócrates-Ricardo Salgado e a sua cambada furaram a OPA.)

Quatro afonsos para Cristina Ferreira.

16/08/2017

Lost in translation (296) - "Consenso nacional" é o que o Costa quiser (2)

Ainda sobre as indignações de António Costa a respeito dos aproveitamentos políticos perante tragédias desta natureza, Manuel Carvalho recorda no seu comentário de hoje no Público, com o título muito apropriado «Sua Santidade, o Governo», «que o PS da oposição (e ainda mais o fervoroso Bloco) fez sempre exactamente a mesma coisa que o PSD e o CDS fazem agora em torno dos incêndios: exploram as feridas abertas pela tragédia para desgastar quem manda. Foi precisamente o que fez o actual secretário de Estado das Florestas e então deputado do PS, Miguel Freitas, em Novembro de 2013, quando acusou Governo de Passos Coelho de se “tentar desresponsabilizar” pela falta de uma “estratégia integrada” no combate aos fogos desse Verão que provocaram a morte de nove pessoas e a maior destruição da floresta nacional desde 2005. Foi também o que fizeram o Bloco e o PCP sempre que os relatos dos incêndios subiam de tom e colocavam, como agora, o país em estado de alarme.»

Eu diria mesmo mais, como Manuel Carvalho, «era o que faltava que num país democrático que vive um dos seus momentos mais dramáticos em anos se limitasse a cantar em coro a partitura do Governo.»

DIÁRIO DE BORDO: O extraordinário do ordinário

Uma semana na vida de Paterson, poeta do quotidiano e motorista de autocarros acidental, ou vice versa, na cidade de Paterson, vista pela câmara inspirada de Jarmush

15/08/2017

Dúvidas (205) - O líder que a oposição precisa é Passos Coelho?

É uma dúvida recorrente, que parece não existir nas mentes da geringonça e por isso catam palavras nas intervenções de Passos Coelho e aplicam-lhe o melhor das suas hermenêuticas para o tentar entalar. Vejam-se, como exemplo, as reacções à homilia do Pontal:

António Costa, líder do PS: «Acho absolutamente lamentável que se tenha quebrado um consenso nacional que sempre existiu, que perante tragédias desta natureza não haja aproveitamentos políticos»;

Catarina Mendes, secretária-geral do PS: «um homem só, desnorteado, errático e prisioneiro do seu passado» (ao contrário do chefe de Catarina para quem o passado é o que ele quiser);

João Galamba, porta-voz do PS, quase doutor em Filosofia Política pela London School of Economics e docente na Mouse School of Business: «um líder político e o líder político do maior partido da oposição, a ensaiar um discurso racista e xenófobo»;

Joana Mortágua, bloquista, irmã da Mariana: «ensaiou um discurso que não é habitual e que vai ao encontro de posições xenófobas recentes».

Só o tio Jerónimo é que parece não ter tido tempo para catar o discurso de Passos Coelho.

De onde, uma vez mais, devemos concluir que Passos Coelho não é o líder da oposição que a geringonça precisa.

Lost in translation (296) - "Consenso nacional" é o que o Costa quiser

«Acho absolutamente lamentável que se tenha quebrado um consenso nacional que sempre existiu, que perante tragédias desta natureza não haja aproveitamentos políticos» indignou-se ontem António Costa, com o chapéu de primeiro-ministro do governo da geringonça, verberando as críticas que a oposição tem feito às desastrosa resposta do seu governo ao incêndio de Pedrógão Grande que fez pelo menos 65 mortos.

No Verão de 2013, em que não houve mortes nos incêndios florestais que então então grassavam, o mesmo Costa, com o chapéu de candidato a líder do PS, falando com voz grossa por cima de Seguro, o líder do PS, falou à Antena 1 e a RTP descreveu a coisa assim: «na qualidade de antigo ministro da Administração Interna, António Costa (acusou) o governo de nada ter feito na prevenção dos incêndios assinalando que o trabalho no âmbito da reestruturação da floresta é nulo (e destacou) o trabalho dos bombeiros e das forças de segurança, "um esforço extraordinário que só dará frutos quando o Ministério da Agricultura efetuar o que é necessário na floresta portuguesa, enquanto isso não suceder mais ano menos ano, as calamidades vão acontecer"».

De onde podemos concluir que o consenso nacional depende de onde está o Costa.

14/08/2017

BREIQUINGUE NIUZ: Se o ridículo fosse mortal a geringonça teria perdido o ministro da Agricultura

Segundo Capoulas Santos, o ministro da Agricultura, o governo fez «a maior revolução que a floresta conheceu desde os tempos de D. Dinis».

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (96)

Outras avarias da geringonça.

Prosseguindo a produção de mistificações em geral e em particular sobre as suas responsabilidades directas no fracasso do SIRESP, Costa começou por não ficar satisfeito com as conclusões dos relatórios (não, não é paródia) e em entrevista ao Expresso tenta chutar a bola para fora do seu campo: «o colapso do SIRESP resultou do colapso da rede da PT». Sobre este chuto de Costa, veja-se esta sequência de acontecimentos e declarações que vai desde o incêndio de Pedrógão até à responsabilização da PT.

Este expediente de Costa tem uma piada acrescida porque a justificação principal do SIRESP foi proporcionar um meio de comunicação seguro e alternativo às comunicações públicas existentes. Se calhar teria sido melhor entregar a cada bombeiro e a cada elemento da Protecção Civil um Nokia 3310 de menos de 50 euros.

13/08/2017

As esquerdas em Portugal lidam mal com a liberdade

«O PS ainda não expurgou este período grave da sua história. A competição pelo poder não permite que o partido o faça. Os seus dirigentes reduziram o problema Sócrates a uma questão de justiça. Mas não é apenas uma questão de justiça. A estratégia de um governo para controlar a banca e a comunicação social é uma questão política. E vai para além de Sócrates. Muitos ministros não teriam conhecimento dos comportamentos do Sócrates que estão sob investigação judicial. Mas todos eles, onde se inclui o actual PM, e o partido sabiam sobre as estratégias de aliança com a banca e de controlo sobre a imprensa.

As esquerdas estão sempre preparadas para atacar a banca e para defender a liberdade de imprensa. Mas foi um governo de esquerda, socialista, que elevou a cumplicidade com a banca até níveis nunca vistos e que tudo fez para controlar a comunicação social. Não foi apenas Sócrates. Foi um governo do PS. Terá o PS mudado? Os ataques de Costa à PT, depois da compra da Media Capital (é importante sublinhar) e os comentários de Ferro Rodrigues sobre a justiça são sinais de que os velhos vícios não desapareceram. Mais do que nunca é crucial lutar pela liberdade de imprensa. Essa luta compete hoje à direita. Como mostra o passado recente, as esquerdas em Portugal lidam mal com a liberdade.»

«O PS e a ameaça de Sócrates à democracia», João Marques de Almeida no Observador

Dúvidas (204) - «A extrema-direita americana mostrou a sua força na Virgínia»?

«A extrema-direita americana mostrou a sua força na Virgínia» foi o título escolhido pelo Público (ler também e de preferência o NYT) para noticiar uma manifestação da chamada «alt-right» com palavras de ordem como «You will not replace us» e «Jew will not replace us». A manifestação degenerou em violência quando surgiu uma contra-manifestação «anti-racista».

Parece-me que a extrema-direita americana mostrou mais fraqueza do força e, em todo o caso, mostrou certamente mais estupidez do que inteligência no escolher as suas causas ou pelo menos a resposta às causas dos outros. Seja como for, importa saber por que cargas-de-água os «supremacistas brancos, saudosistas nazis, membros da Ku Klux Klan» e tutti quanti resolveram manifestar-se.

Desde há um ano e meio em Charlottesville um «afro-americano» estudante de liceu promoveu uma petição para retirar do Emancipation Park uma estátua de Robert Lee, um herói da Guerra de Secessão, general do exército dos Estados Confederados que, como se sabe, defendiam a escravatura. O Conselho Municipal votou por maioria a favor da venda da estátua, mas um juiz embargou-a temporariamente.

Em conclusão, uma iniciativa estúpida de revisionismo histórico, promovida pelo politicamente correcto (PC) a pretexto da ofensa a alguns afro-americanos, espoletou uma outra iniciativa igualmente estúpida a pretexto da ofensa a alguns euro-americanos - é assim que a imbecilidade do PC deveria designar o que eles chamam white supremacists.

12/08/2017

CASE STUDY: Quando uma utopia encontra um tópos tende a converter-se em distopia

Uns dez anos atrás, os 1.300 habitantes de Von Ormy, um lugarejo no Texas, receando ser absorvido por San Antonio, uma cidade de 1,5 milhões de habitantes em crescimento rápido, com todo o cortejo de impostos, regulamentos e burocracia, iniciaram uma experiência «libertária» inspirada por Art Martinez de Vara, um estudante de direito que convenceu os seus concidadãos a criar «A Pequena Cidade mais Livre do Texas», com uma administração simplificada, com impostos baixos e um governo municipal light inspirada no Tea Party do Texas.

Segundo o projecto de Martinez de Vara, Von Ormy teria impostos sobre o consumo e os impostos sobre a propriedade seriam gradualmente reduzidos até desaparecerem, uma vez que seriam atraídas empresas para a cidade e a economia dispararia. O nanny state seria desmantelado e os cidadãos seriam livres de fazer o que quisessem. Martinez de Vara foi tão convincente que os habitantes de Von Ormy o elegeram mayor em 2008.

Nove anos depois a cidade está completamente falida, a administração municipal simplesmente não funciona, a polícia e os bombeiros e os outros serviços municipais colapsaram e a cidade agoniza endividada e em crise. Para ficar a conhecer a história completa leia «The Rise and Fall of the “Freest Little City in Texas”» no Texas Observer.

11/08/2017

CONDIÇÃO FEMININA / CONDIÇÃO MASCULINA: Os estereótipos são todos iguais, mas há uns melhores do que outros

O engenheiro de software James Damore trabalhava para a Google antes de resolver escrever um memo de 10 páginas onde entre outras coisas discutíveis disse (fonte):

«(...) os homens e as mulheres diferem biologicamente em muitas maneiras  (...) as mulheres são mais ... neuróticas...  (o que) pode ​​contribuir para os níveis mais elevados de ansiedade que as mulheres relatam no Googlegeist (inquérito anual aos empregados da Google) e para o menor número de mulheres em empregos de grande stress».

Damore argumentou ainda que a tendência para proteger as mulheres cria um ambiente hostil para os homens «porque os homens são descartáveis ​​biologicamente e porque as mulheres geralmente são mais cooperativas e agradáveis. Temos uma governação e extensos programas da Google, áreas de estudo, regulamentos e regras sociais para proteger as mulheres, mas quando um homem se queixa de uma questão de género que afecta os homens, é rotulado como misógino e choramingas».

Aparentemente os pontos de vista de Damore, pelo menos em parte fundados na psicologia evolucionista, tiveram uma larga aceitação entre os empregados (homens, presume-se) da Google.

O que fez a Google? Despediu Damore e Sundar Pichai, o CEO da Google, distribuiu uma nota ao pessoal considerando que «sugerir que um grupo de nossos colegas tenha traços que os tornem menos adequados biologicamente a esse trabalho é ofensivo e não está bem», e que partes do memorando violaram activamente o código de conduta do Google por «promover estereótipos prejudiciais de género no nosso local de trabalho». Fez uma coisa inútil (despedir Damore) e o que escreveu não é menos preconceituoso do que o memo de Damore ao admitir que os pontos de vista dele são ofensivos (o que não significa que não possam ter fundamento) e ao considerar que os estereótipos da Google são indiscutíveis, ao contrário dos pontos de vista de Damore que são estereótipos.

Vem a propósito republicar este post de há quatro anos:

10/08/2017

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (43) - Terá tido uma epifania?

Outras preces.

Por uma vez, o presidente dos afectos tomou uma decisão prudente e de interesse nacional travando a obsessão estatal da esquerdalhada ao não promulgar o «Decreto da Assembleia da República que altera regime do serviço público de transporte colectivo de superfície de passageiros na cidade de Lisboa» proibindo «qualquer concessão da Carris mesmo que tal possa vir a corresponder um dia à vontade da Autarquia Local». Ao vetar um decreto inspirado no PREC, inviabilizou a chantagem comunista a que o PS cedeu que visava impedir a eventual concessão da Carris pela câmara de Lisboa a uma entidade privada.

09/08/2017

Dúvidas (203) - LGBTQQIAAP? FYAYWSFWU!

Quando li o título «Breve história da comunidade LGBTQQIAAP» comecei por admitir que João Miguel Tavares estivesse a sofrer de delírios persistentes, talvez irremediavelmente afectado por aquele episódio em que Costa lhe ficou a tomar conta dos filhos, o que desde logo invocou a minha compreensão e solidariedade.

Uma googlada foi suficiente para me esclarecer a respeito da sanidade mental de JMT. Sim, é verdade, existe essa coisa LGBTQQIAAP, segundo uma fonte considerada geralmente credível, apesar de paga com o dinheiro dos contribuintes britânicos....

Um artigo com dois anos (como estamos atrasados!) da newsbeat da BBC «We know what LGBT means but here's what LGBTQQIAAP stands for» explica-nos pedagogicamente o que a maioria das criaturas normais (no sentido gaussiano) já sabia (L = lesbian, G = gay, B = bisexual, T = transgender) e o que só uma minoria privilegiada conhecia: Q = queer, Q = questioning, I = intersex, A = allies, A = asexual.

Agora não penseis que ficastes a saber tudo a este respeito. Ficai atentos porque em breve serão acrescentadas novas letras ao alfabeto dos sexos desviantes. Entretanto, permito-me acrescentar um acrónimo para designar um apelo às criaturas LGBTQQIAAP por parte das criaturas normais (no sentido gaussiano): FYAYWSFWU!

08/08/2017

Contributos para os trabalhos da comissão parlamentar de inquérito à Caixa (2)

Continuação daqui.

Desta vez o contributo foi do Observador que lista os 11 grandes devedores da Caixa, a saber:
  • La Seda/Fábrica de Sines
  • Grupo Efacec
  • Vale do Lobo
  • Autoestradas Douro Litoral
  • Grupo Espírito Santo
  • Grupo Lena
  • António Mosquito
  • Reyal Urbis
  • Finpro
  • Brisal, a concessionária da A17
  • Pescanova/Fábrica de Mira
  • Berardo
É uma boa amostra do capitalismo de compadres que domina a economia portuguesa.

DIÁRIO DE BORDO: Todo o pai é filho, mas nem todo o filho é pai

«O sacrifício e a renúncia são os pilares do casamento, da família, da vida. Não há vida, isto é, não há filhos sem este ato de anulação - o ato mais difícil de explicar numa época de likes, shares e tinders. Não há vida e civilização se andarmos todos atrás da felicidade enquanto prazer imediato. Eu queria mesmo acabar o "Khadji-Murat" do Tolstoi ou passar a tarde com a minha mulher, mas o que eu tenho de fazer é trocar uma fralda, preparar uma sopa e carregar 30 quilos numa areia mole que consome cada um dos meus passos. (...) 

E é mesmo nestas alturas que um tipo descobre que passou a vida inteira a gostar burocraticamente dos pais. Eu gostava dos meus pais, apenas. Agora, sim, posso dizer que os amo. Agora, sim, depois de perceber aquilo que eles tiveram de diminuir para me criarem, já posso dizer que os amo. O amor não é um afeto ou um impulso, é uma dura confissão à saída das trincheiras. E, por falar em trincheiras, tenham um bom dia de praia.»

Foi ao ler a crónica, assim para o melodramático, mas em todo o caso suficientemente realista para me recordar os meus tempos de pai de infantes, «Praia, inferno e paraíso» de Henrique Raposo no Expresso, de onde extraí os dois parágrafos precedentes, que me ocorreu uma outra leitura também recente do artigo «In defence of the childless» da Economist.

Como o título anuncia, trata-se de defender o direito a não ter filhos, direito que segundo o articulista tem estado ameaçado por preconceitos que vão desde o papa Francisco, que disse «não ter filhos é uma escolha egoísta», a outros que criticam a falta de contribuição para «produzir os futuros trabalhadores que pagarão as suas pensões». Sem pôr em causa o direito à escolha de não ter filhos, é difícil discordar destes «preconceitos».

Para contrapor a estes «preconceitos», o articulista puxa da bazuca e argumenta que os políticos que não têm filhos não são menos capazes do que os políticos que os têm. É possível, porque encontramos exemplos óbvios nos dois sentidos como Donald Trump (cinco filhos) versus Angela Merkel (sem filhos) ou Winston Churchill (cinco filhos) versus Adolf Hitler (sem filhos). Contudo o argumento mais imbecil para louvaminhar os políticos sem filhos e, por via deles, todas as criaturas sem filhos, é que «as suas oportunidades de nepotismo são limitadas e eles poupam seus países ao espectáculo da política dinástica, que pode levar à mediocridade». Imbecil porque sendo o nepotismo o favorecimento de parentes e de amigos não é preciso ter filhos para praticar o nepotismo e tendo a maioria dos políticos filhos é natural que a maioria dos casos de nepotismo envolva políticos com filhos.

Parece-me uma linha argumentativa muito parecida com o que faz o politicamente correcto que começa por combater a discriminação de certas minorias e acaba a discriminar outras minorias ou mesmo as maiorias, pretendendo impor-lhes o pensamento único e o newspeak.

07/08/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (95)

Outras avarias da geringonça.

Parece cada vez mais claro que o aumento de 84% das devoluções de IRS no 1.º semestre de 1,3 para 2,4 mil milhões (mM) resultou de mais um expediente a juntar às cativações, à redução extrema do investimento público e ao perdão fiscal aos evasores, para conseguir o défice milagroso de 2016, a saber: um empréstimo forçado dos contribuintes equivalente a 20% do IRS de 2016.

Por falar nas cativações, no relatório da UTAO podemos encontrar uma interessante tabela (aqui reproduzida) que mostra que os valores finais de cativação em 2016 (943 milhões) foram de longe os mais elevados desde 2009 e mais do dobro da média do governo anterior (396 milhões).

06/08/2017

Mitos (258) - Diferenças salariais entre homens e mulheres

Economist
Uma boa parte das causas abraçadas pela esquerdalhada é fundada em «factos alternativos» - uma bela formulação inventada por Kellyanne Conway, a secretary press de Donald Trump, ele próprio um dos mais dotados criadores de «factos alternativos» que rivaliza com o melhor que a esquerdalhada nos vem oferecendo. O pay gap atribuído à discriminação de sexos (que os imbecis chamam de género) é mais um desses factos que não resiste a uns quantos kilobytes de informação e a uns minutos de reflexão.

De facto (não alternativo), como o diagrama mostra, confirmando a observação empírica ao alcance de qualquer mente com um módico de sinapses em bom estado, a desigualdade nos salários é quase irrelevante, a não ser que abandonemos o princípio tão caro à esquerdalhada de «a trabalho igual salário igual». O que é desigual é o acesso a certas profissões ou funções, consequência de mais de uma centena de milhar de anos de divisão do trabalho por sexos. Divisão de trabalho que a evolução tecnológica está a tornar cada vez mais obsoleta e que acabará por desaparecer, mesmo sem a engenharia social baseada em ejaculações legislativas. Aliás, suspeito que essa engenharia social em duas ou três gerações terá de trocar a discriminação positiva das mulheres pela discriminação positiva dos homens que precisarão dela para compensar a confusão nas suas mentes resultante do conflito entre as suas hormonas e os comportamentos feminizantes induzidos e de uma escola cada vez mais formatada para ensinar o sexo feminino.

05/08/2017

Pro memoria (352) - Diz o nu ao roto, por que não te veste tu?

Até 2012 existiam em Portugal, um país com população inferior a qualquer das 12 maiores cidades do mundo, 308 municípios e 4.259 freguesias, com respectivamente áreas médias de cerca de 300 km2 e 22 km2 e populações residentes de 33,7 mil e 2,4 mil e um número de funcionários que andava perto dos 200 mil.

Face a este absurdo kafkiano com um custo colossal, o memorando de entendimento com a troika negociado e assinado pelo PS previu algumas medidas de reorganização autárquica incluindo as seguintes:

«3.41. Com vista a aumentar a eficiência da administração local e racionalizar a utilização de recursos, o Governo submeterá à Assembleia da República uma proposta de lei até ao T4-2011, para que cada município tenha o dever de apresentar o respectivo plano para atingir o objectivo de redução dos seus cargos dirigentes e unidades administrativas num mínimo de 15% até final de 2012.

3.44. Reorganizar a estrutura da administração local. Existem actualmente 308 municípios e 4.259 freguesias. Até Julho 2012, o Governo desenvolverá um plano de consolidação para reorganizar e reduzir significativamente o número destas entidades. O Governo implementará estes planos baseado num acordo com a CE e o FMI.»

O governo PSD-CDS atolou-se no pântano autárquico e a única coisa que conseguiu impor aos caciques locais foi a redução do número de freguesia de 4.260 para as 3.092. O número absurdo de câmaras ficou intacto.

Em entrevista ao diário da manhã Público, aquele jornal com uma tiragem evanescente que a família Azevedo financia, sabe-se lá porquê (talvez um seguro para não ser chateada pela esquerdalhada), Eduardo Cabrita, aquele compincha de Costa desde os tempos da JS e marido da ministra do Mar, classificou a fusão de freguesias como «uma fraude política do governo anterior».

Estaria de acordo com a criatura não fora dois pequenos pormenores. O primeiro é que o governo socialista nem sequer tem uma «fraude» para apresentar a respeito da reforma autárquica e o segundo é que quando perguntam ao ministro de um governo especialista em reverter as poucas reformas do anterior «Então por que é que não reverteram?» ele responde «a solução não é voltar atrás» e, quando a andar para a frente, quatro anos depois de tomar posse, «no final deste mandato, aprovaríamos uma lei com critérios de organização territorial». Estamos conversados.

04/08/2017

ESTADO DE SÍTIO: Habituem-se (10)

Outros Habituem-se
Expresso Diário
Repetindo-me: admirados? Não sei porquê. Vivemos hoje com menos stress, mais afectos, temos mais férias, trabalhamos menos (os funcionários públicos), mudamos de carro e o Costa não nos manda emigrar e não nos incita a sair da zona de conforto. Que mais quereis?

Em todo o caso, sigamos com atenção o que farão comunistas e bloquistas à medida em que forem perdendo eleitorado para o PS e este se aproximar de uma maioria absoluta. Adivinho que Costa nos seus sonhos mais húmidos deseja a passagem de uns e outros para a oposição, a sua vitimização e subsequente demissão para antecipar eleições legislativas, tentando repetir o milagre de Cavaco. E o que fará Marcelo a quem não interessa nada uma maioria absoluta socialista que lhe tiraria das mãos a trela do governo? Suspeito que, depois das eleições autárquicas, vai haver muita tourada na arena política.

Enquanto isso, a única coisa certa e segura é que caminhamos lenta mas inexoravelmente para um novo resgate, cuja chegada só dependerá da conjuntura internacional. Como disse Warren Buffet no início da crise de 2008, «quando a maré desce é que se vê quem não tem calções» e este governo está a dar o seu melhor para deixar o país, não já de tanga como o deixou Guterres, mas sem cuecas,

CASE STUDY: Trumpologia (24) - Os índices de confiança em Trump aproximam-se perigosamente do jornalismo de causas


Não adianta meter a cabeça na areia ou atirar esta para os nossos olhos. Um terço ou mais dos americanos independentes, que em princípio não são eleitores de Trump, confiam mais nele do que nos mídia. Talvez conviesse (sobretudo aos jornalistas de causas) perceber porquê.

03/08/2017

Manifestações de paranóia/esquizofrenia (23) - A eucaliptofobia como manifestação de esquizofrenia esquerdizante

«Esquizofrénico é alguém que perde a capacidade de pensar de uma forma lógica e, consequentemente, de comunicar e de se relacionar, passando a viver num mundo paralelo e sem as normas pelas quais se regem as pessoas ditas normais».
Recentemente, desde o incêndio de Pedrógão Grande, a pretexto de limitar os incêndios florestais, várias correntes da esquerdalhada vêm exigindo medidas que vão desde a limitação drástica dos eucaliptais até ao extermínio do último eucalipto. Têm contado, aparentemente, com a colaboração dos telejornais, por entre gritos de excitação ou de indignação, conforme o jornalista de causas florestais em causa, para mostrar imagens quase sempre dos mortíferos eucaliptos.

É claro que os factos não ajudam, mas o zelo da eucaliptofobia não se desmobiliza perante factos como:
  • A área ardida de eucaliptos não ultrapassa nos 13% do total;
  • Metade da área ardida é de matos e o restante é na maioria de pinhal;
  • A área ardida nas florestas de eucaliptos sob gestão da indústria da celulose é de cerca de 1%;
  • O eucalipto é espécie que mais absorve dióxido de carbono por unidade de área e tempo.

Ao contrário, o credo quia absurdum da esquerdalhada ganha novo alento por saber que os eucaliptais são essenciais para viabilizar a indústria do papel que representa 5% do PIB e 10% das exportações.

Morais da estória:

True ignorance is not the absence of knowledge, but the refusal to acquire it, Karl Popper

It is certain, in any case, that ignorance, allied with power, is the most ferocious enemy justice can have, James Baldwin

02/08/2017

Contributos para os trabalhos da comissão parlamentar de inquérito à Caixa

Como é sabido, o relatório preliminar da comissão de inquérito (CPI) à Caixa e à sua gestão entre 2000 e 2016, redigido pelo deputado socialista Carlos Pereira, concluiu depois de ouvir 19 responsáveis políticos e ex-gestores que «as pressões para a aprovação de crédito de favor foram liminarmente afastadas por todos os responsáveis da empresa (Caixa) que marcaram presença na CPI».

A acrescentar aos contributos do Tribunal da Relação de Lisboa que suspeitou «que a CGD tem vindo a acumular, desde pelo menos meados da década de 2000, um conjunto de negócios consubstanciados em concessões de crédito, sem que as mesmas se revelassem colateralizadas por garantias bancárias adequadas aos montantes mutuados», aos contributos do Tribunal de Lisboa que declarou a insolvência La Seda em Sines (Artlant) que poderá custar à Caixa 500 milhões, aos inúmeros contributos que o (Im)pertinências deu durante mais de uma década, por exemplo no caso dos empréstimos a Berardo para comprar acções do BCP, a juntar a tudo isto, dizia eu, temos agora o contributo do administrador da insolvência da Obriverca que pode custar à 60 milhões à Caixa e 12 milhões à Parvalorem, sem esquecer o Novo Banco com 170 milhões dos tempos do saudoso DDT Ricardo Salgado, grande apoiante do glorioso SLB e do seu presidente Luís Filipe Vieira, um dos fundadores da Obriverca, que saiu do comboio em andamento nos idos de 2001.

DIÁRIO DE BORDO: O Céu visto da terra (15)

[Outros céus vistos de outras terras]

A galáxia NGC 7098 com dois braços em espiral, fotografada pelo Very Large Telescope do European Southern Observatory (Wired)

01/08/2017

ACREDITE SE QUISER: Adivinhe quem é o homem mais rico no mundo

MarketWatch
Possivelmente pensou, como eu, que seria Bill Gates (Microsoft) ou Jeff Bezos (Amazon). Nem de longe. Segundo Bill Browder, CEO de Hermitage Capital Management que já foi accionista da Gazprom e de outras empresas estatais russas, no seu o depoimento no Comité Judicial do Senado americano, no âmbito da investigação à interferência russa nas eleições americanas, o czar de todas as Rússias Vladimir Vladimirovitch terá uma fortuna entre 40 a 200 mil milhões de dólares, quase o PIB português, conseguida à custa de extorsão, tortura e confiscação. Nada mal para quem começou a vida como espião no KGB e depois no FSB até 1991.

DIÁRIO DE BORDO: R.I.P.

Jeanne Moreau

31/07/2017

Chávez & Chávez, Sucessores (60) - Maduro e Jerónimo, a mesma luta

Outras obras do chávismo.

Venezuela a ferro e fogo em domingo de eleições


Venezuela: PCP exige "atitude de respeito do Governo" português pelas eleições

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (94)

Outras avarias da geringonça.

Começo esta crónica com a grande novidade desta semana: o presidente dos Afectos saltou de pára-quedas e deixou a geringonça desgovernada com os motores a falhar e em risco depois de um mensis horribilis.

Retornando ao incêndio de Pedrógão Grande, em primeiro lugar separemos a ocorrência, que nada tem a ver com este governo, com a resposta que lhe foi dada de que o governo é o único responsável. Um mês e meio depois surge cada vez com maior nitidez um quadro de enorme incompetência que na sua maior parte tem a mão de Costa [ver A obra feita de Costa nos incêndios florestais (1) e (2)]. A começar com as falhas do SIRESP, que continuam agora em Mação, em que Costa está enfiado até ao pescoço, e a continuar com a colocação dos seus boys na Autoridade Nacional da Protecção Civil - um dos casos mais escandalosos foi a substituição de um comandante distrital licenciado em Protecção Civil e bombeiro com mais de 20 anos de experiência por um advogado e mandatário da candidatura do PS à câmara de Alcobaça que passou pelos bombeiros voluntários. O amadorismo é tão grande que as criaturas que comandam o combate aos incêndios nem sequer tomam em conta as previsões do IPMA sobre a direcção dos ventos para posicionar os recursos, nomeadamente os meios aéreos (ver aqui).

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (160) - O costismo visto por Henrique Neto

«Que não fez a rutura com o passado que gostaria de lhe ter visto fazer. 
Escrevi-lhe cartas e tive reuniões com ele para lhe dizer que se ele não cortasse com a herança de Sócrates, os herdeiros iriam destruí-lo, era só uma questão de tempo. Ele, bem intencionado, dizia que era preciso unir o partido. Eu sempre estive convencido de que não havia união possível com aquilo a que se convencionou chamar "tralha socrática". E assim foi. 

E António Costa faz parte dessa "tralha"?
Claro que 'sim, é uma emanação da governação de Sócrates, é dos que nunca levantaram um dedo a dizer "isso está mal". Aquilo que é hoje a força do PS é uma extrema fidelidade ao chefe. Como se vê na forma incompetente como o PS e o Governo geriram a questão dos fogos e que foi a gota de água que me fez demitir: Costa, talvez mais do que Sócrates, tem a política de escolher os amigos, ou os muito fiéis ao partido, para cargos para os quais não têm as competências necessárias. Na tragédia de Pedrógão Grande, ficou claro que Costa não tem estatura de grande dirigente político: era naquele dia que se tinham de tomar grandes medidas, que se tinha de identificar as pessoas que falharam, de se responder à pergunta porque é que se atacaram os fogos em vez de se protegerem as populações, que é uma pergunta que tem de ter uma resposta rápida.

Não precisa de uma comissão técnica independente? 
Para isso não. Talvez a característica mais lamentável do PS no nosso tempo é que manipula a opinião pública com informações erradas ou com falta de informações, quando a característica principal de um partido democrático é a transparência, a boa informação. Ora, um país não pode desenvolver-se com base na mentira e na manipulação da verdade. Mas não houve um socialista que tenha feito a mais leve crítica ou sugestão. Isto prova uma reverência ao chefe, uma fidelidade quase canina, muito pouco própria num partido democrático.»

Excerto de uma entrevista do Expresso a Henrique Neto, um socialista honrado que nunca ficou silencioso

30/07/2017

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (42) - Empurrando Costa para o redil de Belém

Outras preces.

Agora é oficial. Com esta entrevista ao diário da manhã DN, Marcelo Rebelo de Sousa puxou o tapete a Costa. E não, sossegai, não é para o derrubar, porque eles precisam um do outro (até ver). É apenas para o desequilibrar e o deixar mais dependente da muleta de Belém submetendo-o às suas manobras.

A que outro propósito, um presidente, que enche a boca com estabilidade e tem mantido uma cumplicidade com o primeiro-ministro que nada tem a ver com a indispensável solidariedade institucional, vem agora esclarecer que «o Presidente não tem de ter confiança política pessoal no primeiro-ministro», admitir a dissolução da assembleia e sublinhar a conveniência de ter uma oposição forte que proporcione «outro termo da alternativa que possa governar o país»?

Porquê agora? Porque Marcelo é tudo menos um político corajoso e só agora sente que Costa está suficientemente fragilizado para o trazer ao seu redil. Como diz o povo, mandaste-os vir? agora aturai-os.

CASE STUDY: Sócrates & Pinho, uma dupla de sucesso nos negócios – La Seda (REPUBLICAÇÃO)

Este post também poderia ser a propósito das conclusões da comissão de inquérito (CPI) à Caixa entre 2000 e 2016 que afastaram quaisquer «pressões para a aprovação de crédito de favor», contra toda a evidência. Mas é a propósito da La Seda em Sines (Artlant), cuja insolvência foi declarada na passada quarta-feira, onde a Caixa poderá perder 500 milhões, 75% dos 690 milhões de euros das dívidas desta empresa. Trata-se de uma das empresas do complexo político-empresarial socialista muito acarinhada pelo governo de Sócrates e pelos seus serventuários, acerca da qual publiquei há oito anos um post que agora é oportuno republicar.

[Advertência: os links das notícias da época já não estão válidos, por várias razões, umas boas outras más; nalguns casos é possível aceder a essas notícias fazendo uma pesquisa com algumas as palavras-chave do texto]

20-09-2007
«O ministro da Economia, Manuel Pinho, afirmou hoje que gostaria de atrair para Portugal mais investimentos do tipo dos efectuados pelas empresas Abertis, Repsol e La Seda, que totalizam 1,5 mil milhões de euros.»


21-09-2007
«La Seda diz que produção da fábrica de Sines arranca em 2009 e estuda nova unidade em Portugal»


12-03-2008
«O investimento do grupo La Seda de Barcelona, que tem como principais accionistas as portuguesas Imatosgil, com 10,8 por cento, e a Caixa Geral de Depósitos (CGD), com 5 por cento, na unidade de PTA, que ficará localizada na Zona Industrial e Logística de Sines, é de 400 milhões de euros até 2010.
Este é um projecto de Potencial Interesse Nacional (PIN) e, de acordo com declarações hoje à Lusa do presidente do grupo La Seda de Barcelona, Rafael Español Navarro, "os trabalhos no local estão bastante avançados".
O lançamento da primeira pedra da nova fábrica de PTA conta com as presenças do primeiro-ministro, José Sócrates, do ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho, e do presidente do grupo La Seda de Barcelona.»


04-02-2009
«Mais de quarenta accionistas da empresa La Seda de Barcelona apresentam quinta-feira à Comissão Nacional de Mercado de Valores (CNMV) espanhola um pedido de OPA obrigatória para que o grupo português Selenis/CGD/Imatosgil compre 100 por cento do capital da empresa.»

13-03-2009
«Um ano depois do lançamento da primeira pedra, o projecto de engenharia de base da fábrica da Artenius já está concluído em 95% e os equipamentos gerais já foram todos comprados, passando ao lado dos efeitos da crise económica.
A La Seda de Barcelona, onde os portugueses Imatosgil são accionistas (11%), está a investir 400 milhões de euros, em Sines, na construção da única fábrica n Europa dedicada, em exclusívo, à produção de PTA (que serve de matéria-prima ao PET, utilizado na produção de embalagens plásticas).»


20-05-2009
«O EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortizações) baixou 99,2 por cento para 300 mil euros e as vendas caíram quase para metade, de 437 milhões de euros, no primeiro trimestre de 2008, para 258 milhões.
A LSB tem planos para construir uma fábrica em Sines, que tem sido apresentada como bom exemplo de investimento pelo Governo de José Sócrates


09-06-2009
«O grupo La Seda - que em Portugal está já atrasado cinco meses no desenvolvimento do projecto de 400 milhões de euros da fábrica de PET em Sines, para o qual garantiu financiamento até 320 milhões de euros – tem um passivo de 1,3 mil milhões de euros. A falta de liquidez do grupo foi já motivo suficiente para que a unidade catalã, em El Prat, parasse a laboração.
O “fantasma” de suspensão de pagamento de salários e de cobrança de credores, noticia o jornal económico, só foi afastado porque na semana passada se avançou a hipótese da CGD, “accionista e principal credor” da La Seda, poder “assegurar uma emissão de obrigações convertíveis em 150 milhões de euros como passo prévio ao refinanciamento da dívida”.
O jornal adianta que, em 18 meses, a companhia que detém agora as acções suspensas na praça espanhola nos 0,34 euros, já perdeu mais de 70% do seu valor, com a capitalização bolsista a descer para 213 milhões de euros.»


10-06-2009
«A Caixa Geral de Depósitos injectou 25 milhões de euros na espanhola La Seda, onde é um dos maiores accionistas, para assegurar a viabilidade financeira de curto prazo da companhia, que ontem alterou o presidente da empresa devido à pressão dos accionistas portugueses.»


27-07-2009
A La Seda chegou a um acordo de princpio com a Caixa Geral de Depósitos, accionista da empresa, para que esta adquira o capital da Artenius Sines por 40 milhões de euros, como forma de financiamento. Este valor faz parte de um financiamento total de 104 milhões de euros. Em paralelo, a fabricante de plásticos confirma que irá alienar activos não estratégicos, onde se inclui a fábrica de Portalegre, no Alentejo.
A La Seda espera obter do Caixa BI, banco de investimento da CGD, perto de 488 milhões de euros para viabilizar o projecto. A primeira pedra foi lançada há mais de um ano, mas a fábrica leva um atraso de seis meses.

29/07/2017

Lost in translation (295) - Em Pedrógão não houve "gross breach" porque não havia "relevant duty of care"

«The Scotland Yard investigation into the Grenfell fire disaster has said there are “reasonable grounds” to suspect the council and the organisation that managed the tower block of corporate manslaughter.

The two organisations under suspicion are Royal Borough of Kensington and Chelsea and the Kensington and Chelsea Tenant Management Organisation.

The law on corporate manslaughter would require any prosecution to prove that there was a gross breach of a relevant duty of care owed to those who died.»

The Guardian

Esta é uma das diferenças entre uma democracia onde existe separação de poderes e um poder judicial independente e uma democracia onde se elege o pessoal escolhido pelos partidos e pronto. E já foi pior nos tempos do socialismo socratista que além de ter capturado o quarto poder, como nos tempos actuais do socialismo costista, também manteve o terceiro poder em cativeiro.

DIÁRIO DE BORDO: John McCain, Senador



«That principled mindset, and the service of our predecessors who possessed it, come to mind when I hear the Senate referred to as the world's greatest deliberative body. I'm not sure we can claim that distinction with a straight face today.

I'm sure it wasn't always deserved in previous eras either. But I'm sure there have been times when it was, and I was privileged to witness some of those occasions.

Our deliberations today -- not just our debates, but the exercise of all our responsibilities -- authorizing government policies, appropriating the funds to implement them, exercising our advice and consent role -- are often lively and interesting. They can be sincere and principled. But they are more partisan, more tribal more of the time than any other time I remember. Our deliberations can still be important and useful, but I think we'd all agree they haven't been overburdened by greatness lately. And right now they aren't producing much for the American people

Excerto do discurso de John McCain, um homem de coragem e de princípios, ao Senado americano na terça-feira passada, poucos dias depois de uma intervenção cirúrgica e de ter sabido ter um cancro no cérebro.

28/07/2017

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (LXIV)

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Este é o 64.º post de uma longa série iniciada em Janeiro de 2015 que começava assim: E será um purgatório se o novo governo Syriza-Gregos Independentes retiver apenas a retórica e deixar cair o seu programa. Será um inferno se o não fizer.

Tem sido um purgatório. O governo deixou cair o seu programa e até Tsipras evoluiu para uma retórica diferente: a retórica do social-democrata.

Não surpreende assim que, finalmente pela primeira vez em três anos, a Grécia se tenha financiado no mercado, tendo conseguido colocar três mil milhões de euros a cinco anos com um yield de 4,625% e uma procura superior ao dobro da emissão. O FMI já anunciou um novo empréstimo de 1,6 mil milhões na condição de haver algum haircut (simbólico), a CE/BCE já adiantou parte de uma tranche de 8,5 mil milhões e a CE já recomendou a saída do Procedimento por Défice Excessivo.

O que mostra este caminho seguido pelo governo «revolucionário» Syriza-Anel? O falhanço das políticas esquerdistas que Costa tanto parecia admirar quando por essa altura dizia «Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha».

Costa e Tsipras têm assim em comum terem conseguido sobreviver fazendo o contrário do que prometeram e de diferente o facto de se poder ter dúvidas da sinceridade de Tsipras ao dizer ao Guardian «nobody will say we are corrupt or dishonourable or have had our hand in the honey pot» e não se ter dúvidas sobre a falta de sinceridade se a mesma coisa tivesse sido dita por Costa.

Pro memoria (351) - A obra feita de Costa nos incêndios florestais (2)

[Continuação de (1)]

«António Costa, que defendeu abertamente esta “lei da rolha”, tem de facto razões para estar preocupado, pois deixou rasto em muitas das decisões que estão a condicionar negativamente o que se está a passar com as nossas florestas. Recordemos algumas delas:
  • Foi de António Costa, como ministro da Administração Interna, a decisão de apostar tudo num sistema de combate aos incêndios focado em extinguir rapidamente as ignições e que desvalorizou a reforma da floresta. É essa opção que, neste ano quente e de imensa acumulação de combustível nas matas, mostra não ser capaz de evitar tragédia atrás de tragédia.
  • Foi também de António Costa a decisão de manter o contrato com o SIRESP, o sistema de comunicações que está sempre a falhar, tendo-se limitado a renegociá-lo para lhe retirar valências que hoje fazem imensa falta.
  • Foi ainda de António Costa a decisão política, como primeiro-ministro, de promover a aprovação de um pacote legislativo para a floresta que é duramente criticado tanto pelos especialistas em florestas e em fogos florestais, como pelos agentes económicos do sector. Costa, como já referi, preferiu fazer umas flores à esquerda, com o Bloco, para enganar o pagode, perdendo-se mais uma oportunidade de tomar as medidas que têm de ser tomadas.
  • Foi com António Costa que ascendeu a Presidente da Autoridade Nacional de Protecção Civil um coronel (antes esse lugar fora sempre ocupado por um oficial general) que tem como currículo ter quase sempre seguido Costa de perto: Joaquim Leitão foi em 2005 adjunto do gabinete do secretário de Estado da Administração Interna quando António Costa era ministro, em 2008 foi nomeado comandante do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa pelo presidente da Câmara António Costa, em Janeiro de 2016, com o novel governo Costa, regressou ao Ministério da Administração Interna, de novo como adjunto. É esse mesmo Joaquim Leitão que hoje preside ao caos notado no combate a tantos e tantos incêndios, tal como preside à “lei da rolha”.
  • Foi com este governo de António Costa que o MAI nomeou 30 chefias da Protecção Civil 74 dias antes da tragédia de Pedrógão, sendo que um dos novos nomeados, o 2.º comandante de Leiria, foi quem dirigiu as operações no terreno durante o fogo de Pedrógão Grande das 19h55 às 22h do dia 17 de Junho, isto é, no período em que ocorreu a maioria das mortes. Trata-se de Mário Cerol, um advogado, comandante dos bombeiros de Alcobaça e, vejam lá, antigo mandatário de uma candidatura do PS a esse município.
  • António Costa estava ao lado de Rui Esteves, o comandante operacional da ANPC nomeado pelo seu governo, quando, na noite de sábado para domingo no incêndio de Pedrógão Grande, este declarou que os meios envolvidos no combate àquele fogo eram “claramente” os adequados e que a sua determinação era extinguir o incêndio nessa mesma noite ou no domingo – o incêndio levaria cinco dias a ser extinto. Agora, foi esse mesmo Rui Esteves que, a partir de Proença-a-Nova (que fica no seu distrito de origem, Castelo Branco), dirigiu no terreno o combate ao incêndio de Mação, tendo de responder às queixas já verbalizadas pelos autarcas deste município sobre as opções que tomou.»
Se isto é um primeiro-ministro, José Manuel Fernandes no Observador

«Face a uma catástrofe, tudo aquilo de que Costa é capaz é de recorrer a toda a espécie de malabarismos que lhe granjearam a dúbia fama de político excepcionalmente habilidoso. Só que, confrontado com uma realidade não moldável aos exercícios circenses a que nos habituou e que tanta admiração provocam nos aficionados da política, a tal habilidade revelou-se aquilo que na sua essência radicalmente é: um puro jogo destinado a preservar o poder sem qualquer princípio que respeite verdadeiramente ao bem público. Quer dizer: uma coisa oca produzida pelo vazio.

António Costa minguou aos olhos de todos – e minguou também aos seus próprios olhos, por mais que tente disfarçar este aspecto das coisas. A sua percepção da realidade tenta adaptar-se em vão àquilo para o qual se encontra radicalmente impreparado, já que a situação exige uma concepção da política muito diferente daquela que é a sua, restrita à sabedoria mundana de todos os truques e truquezinhos conducentes à ascensão ao poder e à sua manutenção.
(...)
Não tenho a mínima dúvida que Costa tem plena consciência que a sua reacção a toda a catástrofe dos fogos provou a sua incapacidade como homem de Estado para defender o bem público.»

Um homem muito perigoso, Paulo Tunhas no Observador

Discordando de Paulo Tunhas, tenho as maiores dúvidas que Costa tenha essa plena consciência. Porque o Estado para Costa é apenas um trampolim, porque o bem público para Costa consiste no bem da sua tribo socialista e porque Costa pertence àquele género de pessoas com as quais se poderia fazer um excelentíssimo negócio: comprá-lo pelo preço do que ele vale e vendê-lo pelo preço do que pensa valer.

27/07/2017

Pro memoria (350) - O poder corrompe e a aparência dele amolece e desvenda a hipocrisia

«No Verão de 2015, ainda com Passos Coelho no Governo, o Bloco convocou uma conferência de imprensa para dizer que "a incompetência do Governo não pode encontrar justificação na meteorologia” e que “compete a um Estado competente colocar um dispositivo no terreno que permita contrariar os efeitos, tanto ao nível do ataque direto como da prevenção”. E agora?

Creio que o que dissemos na altura tem estado a par do que dizemos na actualidade. Agora, creio que nenhum de nós pode negar que estamos a assistir a algo que manifestamente não tem apanhado o país preparado. As alterações climáticas deixaram de ser matéria de disputa científica, o país está numa seca severa e claramente não temos um país devidamente estruturado para responder a estas circunstâncias. Se há responsabilidades de governos, há, de muitos governos. Infelizmente tínhamos alertado para a necessidade de preparar o país para as alterações climáticas, quer no que toca ao ordenamento quer à limitação de espécies, e de ter uma forma de pensar a Protecção Civil garantindo que isso representasse um aumento da capacidade no terreno. Mas percebemos que, anos depois, estes alertas não tiveram consequência. E que agora estamos a ser confrontados com uma realidade difícil.»

(Entrevista do Público a Pedro Filipe Soares, o líder parlamentar do BE) 

Com a proximidade ao poder e a ilusão do poder, o berloquismo perdeu a frescura, manteve a falta de maturidade e sucumbiu à hipocrisia e à língua de trapos do politiquês. Pior é difícil.

CASE STUDY: Há incêndios e incêndios, há florestas e florestas e há respostas e respostas

Isotérmicas em Julho (fonte)
No sudeste da França em dois dias arderam 7 mil hectares, os incêndios foram combatidos por 4 mil homens, foram deslocadas 10 mil pessoas e não houve vítimas. Em Pedrógão Grande arderam 30 mil hectares num incêndio combatido por 1.600 homens, foi deslocado um pequeno número de pessoas e houve um número não inferior a 65 mortos.

Nas duas regiões as temperaturas médias em Julho são semelhantes (ver mapa à direita) e a composição da floresta é diferente: em Pedrógão Grande predomina o pinheiro e eucalipto e nas zonas do sudeste da França predomina o carvalho e o mato (maquis) muito combustível. O que é verdadeiramente diferente é a capacidade de resposta dos Estados português e francês.

26/07/2017

Dúvidas (202) – Quem é realmente Alexis Tsipras? (3)

[Continuação de (1) e (2)]

Há dois anos perguntava-se José Manuel Fernandes a respeito das cambalhotas de Alexis Tsipras, o tribuno esquerdista do Syriza arvorado em primeiro-ministro da Grécia, «Um génio ou um desastrado? Um reformista radical ou um revolucionário dissimulado? Um estadista ou um populista?» 

Nessa altura, respondeu JMF às suas próprias interrogações: «o meu instinto inclina-se mais para que é um radical a caminho da social-democracia».

Também por essa altura, Alexis Papachelas admitia ironicamente no ekathimerini.com que Tsipras parecia um neoliberal ao justificar no parlamento a aprovação das medidas do 3.º resgate. Hugo Dixon admitia no Politico: «Alexis Tsipras is either a liar or a resident of Lalaland», Alexis Tsipras ou é um mentiroso ou um lunático e eu mantinha a questão em aberto.

O tempo parece mostrar que o instinto de JMF estava certo. Leia-se esta entrevista de Tsipras ao Guardian e registe-se a humildade, realismo e flexibilidade que um social-democrata não renegaria:

Humildade
«When I came into this office, I had no experience, or sense, of how big the day-to-day difficulties would be,”  I have made mistakes … big mistakes»

Realismo
A respeito dos planos de Varoufakis para adoptar uma moeda própria: «when we got to the point of reading what he presented as his plan B it was so vague, it wasn’t worth the trouble of even talking about. It was simply weak and ineffective.»
A respeito da saída da UE: «Leave Europe and go where … to another galaxy?” he quips. “Greece is an integral part of Europe. Without it, what would Europe look like? It would lose an important part of its history and its heritage.»
If you go out into the street and ask about this government, many might say ‘liars’, but nobody will say we are corrupt or dishonourable or have had our hand in the honey pot.»

Flexibilidade negocial
«All this time we have been in continual negotiation and continual quest for compromise between our programme and the memorandum [of bailout conditions]»

25/07/2017

Curtas e grossas (48) - Não são de direita (parecem mais de esquerda). São betinhos

Os betinhos de Loures anunciando a derrota antecipada (*)
«Quando, na semana passada, Assunção Cristas reuniu a Comissão Política do CDS para retirar o apoio a André Ventura e, desta forma, por termo à coligação com o PSD naquela autarquia, Pedro Pestana Bastos aplaudiu e ofereceu-se para ser candidato, caso fosse preciso. (...) E põe a fasquia alta: “Ter menos votos do que o PSD será uma derrota. O que aqui está em causa é o modelo de direita que queremos para o país”, diz ao Expresso»

O modelo de direita? Qual modelo? Qual direita? A direita que mete a cabeça na areia, nega a realidade e se borra de medo de contrariar a vulgata do pensamento único?

(*) Inspirado no analista Vasco Pulido Valente que há uns anos, depois de ter falhado estrondosamente uma previsão, despromoveu-se a comentador, garanto que se a minha profecia não se confirmar farei o mesmo. (Não sou analista nem quero ser comentador, mas a intenção é que conta.)

CASE STUDY: «A única função das previsões económicas é tornar respeitável a astrologia» (2)

Continuação de (1)

The Econonist
O FMI tem falhado por excesso as previsões de crescimento do PIB mundial, revendo-as quase sempre em baixa. Sublinho: a nível mundial, onde os erros das previsões nacionais se compensam parcialmente. A nível nacional as previsões têm sido um desastre. Estamos agora numa fase singular em que as previsões estão a ser revistas em alta devido à sincronia das economias americana, chinesa e europeia.

24/07/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (93)

Outras avarias da geringonça.

Mostrando o seu apreço pelo direito dos eleitores à informação, o governo de Costa proibiu comandantes dos bombeiros de dar informações sobre os fogos. Porquê? Porque os incêndios que mais preocupam o governo não são os das florestas são os dos mídia, como o número de mortos de Pedrógão Grande.

Mostrando o seu apreço pela verdade, o governo de Costa colocou em segredo de justiça a lista dos nomes dos falecidos no incêndio de Pedrógão Grande. A arbitrariedade e propósito absurdo de tal segredo, os hábitos de Costa e vários indícios (entre eles o respeitador semanário de reverência Expresso que dá uma no cravo dos factos e outra na ferradura do governo) tornam provável ser o número de mortos superior ao anunciado pelo governo, como indicia esta investigação privada. A ser assim, é muito provável que a mistificação do governo se venha a refugiar na exclusão das mortes indirectas, o que escreve Poiares Maduro seria como «se o governo britânico dissesse que as pessoas que morreram ao saltar da torre em chamas no recente incêndio em Londres não eram vítimas do mesmo pois não morreram vítimas de inalação ou queimaduras...»

Exemplos do costume (52) - Os caciques

Passos Coelho será tudo menos um santo, mas pelo menos desta vez está inocente das manobras de «mobilização artificial de militantes nas eleições internas partidárias» para o PSD Lisboa, em benefício do beato Nuno Morais Sarmento devidamente patrocinado por santa Manuela Ferreira Leite, manobras que o Observador documentou.

Tão revelador como a reportagem do Observador é o facto de apenas o Expresso (citando a SIC) lhe ter feito referência. Guess why. Adivinhe não porquê o Expresso (deve ter sido acidente), mas porquê nenhum dos outros jornais. Imagine-se o clamor indignado dos pandeiretas do jornalismo de causas se essa mobilização tivesse sido em benefício da facção de Passos Coelho...

Os ingénuos que imaginam que este tipo de manobras se circunscreve a facções do PSD, desiludam-se. Recomenda-se vivamente a leitura de «Os predadores», já aqui citado a propósito de «A rede da agência de empregos no município» montada por Costa em Lisboa, da autoria de Vítor Matos, não por acaso um dos jornalistas que subscreve a peça do Observador.