Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

14/12/2017

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (165) - Se...



Excerto de «A impunidade de quem é do PS», Henrique Raposo, um dos poucos jornalistas do semanário de reverência que não faz favores ao PS (nem a outros, que se saiba)

13/12/2017

ACREDITE SE QUISER: Lá se vai a sopa de letras

«Foram descobertas duas variantes de genes que parecem ser mais comuns em homens homossexuais do que em homens heterossexuais, anunciou a Universidade de North Shore (Illinois, Estados Unidos) num artigo da Nature. É a primeira vez que uma equipa de cientistas anuncia ter identificado genes individuais que podem influenciar a forma como a orientação sexual se desenvolve em rapazes e homens ainda durante a gestação e ao longo da vida.» (Observador)

Lá por terem genes avariados não têm de ser exibicionistas
Se (um grande se) for assim, então a homossexualidade e all that jazz perde aquele brilho identitário do gay pride e é despromovida ao nível do síndrome de Down. Lá se vão a sopa de letras LGBTQQIAAP, a religião dos géneros, as paradas, etc. (um grande ETC.).

SERVIÇO PÚBLICO: Será o progresso tecnológico uma catástrofe para o emprego?

Eis aqui em O Insurgente uma análise séria, ainda que provocatória, da lengalenga da tecnologia ir acabar com os nossos empregos.

«Eu só consigo imaginar o desespero destas mesmas pessoas se em 1930 lhes dissessem que daí a 50 anos, 3% dos trabalhadores seria suficiente para produzir os bens alimentares de toda a população. Consigo imaginar o seu desespero ao tentar imaginar onde trabalhariam os outros 60% de trabalhadores que nessa altura se dedicavam à agricultura. A verdade é que hoje não temos 60% de pessoas desesperadas de enxada na mão de porta em porta à procura de trabalho.»

É claro que este tipo de argumentação não garante que os empregos actuais não desapareçam maciçamente sem ser substituídos por outros. Tal como a argumentação dos que defendem que o progresso tecnológico fará desaparecer os empregos actuais (em grande parte será assim, com toda a probabilidade) não prova que esses empregos não sejam substituídos por outros, como no passado.

É uma lógica do tipo reductio ad absurdum que mostra que se admitirmos certas premissas elas não explicam a história e conduzem-nos a conclusões que são absurdas ou inválidas e, portanto, essas premissas não são necessariamente válidas.

12/12/2017

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Pendurados no Estado, o Costismo como guterrismo perneta e um manobrista em Belém

«Entre a direita pendurada no Estado e a esquerda pendurada no Estado, a esmagadora maioria do eleitorado (cada vez mais dominado por pensionistas e funcionários públicos) prefere a versão socialista. Por isso, fechado o ciclo cavaquista em 1995, o PSD passou a ser o suplente do PS. Governou apenas quando o PS apodreceu. As duas vezes (2002-2005 e 2011-2015) foram experiências desastrosas. Em vez de reformismo, houve cortes orçamentais. Em vez de novas ideias, houve reciclagem de ideias velhas. Em vez de abertura à sociedade civil, optou-se cada vez mais pelo aparelho puro e duro.»

Excerto de «A crise do PSD (I): o sorpasso», Nuno Garoupa no DN

E não há solução? Haver há, mas não com nenhum dos Marretas saídos da naftalina.

«Ao escolher ficar exclusiva e permanentemente apoiado na bengala comunista-bloquista, Costa tornou o seu Governo ainda mais frágil e refém de interesses instalados do que o de Guterres já fora. O resultado da necessidade deste último de comprar a boa vontade de todos não foi só a sua fama de “indeciso”, mas também os 70 mil novos funcionários públicos que se juntaram à mesa do orçamento entre 1996 e 2000, o aumento da despesa pública, e o défice de 4,3% que deixou a quem veio depois. 
Mas, ao menos, podia dar-se ao luxo de ser “indeciso”, porque podia escolher o que e a quem ceder.

Já Costa sabe que tem de dar o que quer que os únicos que o podem sustentar dele pretenderem, sob pena de perder o poder, a única coisa que o seu “pragmatismo” não pode aceitar. O resultado da “capacidade negocial” de Costa será o fortalecimento dos sindicatos do PCP, o agravamento dos problemas estruturais do país, a continuação da degradação dos serviços públicos e uma desconfiança da população em relação aos políticos ainda maior que a que já hoje se faz sentir. Pior que o “guterrismo”, talvez só mesmo um “guterrismo” perneta.

É claro que este poderá ser suficiente para Costa renovar a sua estadia em São Bento em 2019, talvez até para obter uma maioria absoluta na Assembleia, se o que os eleitores desejam é um Governo que se limite a fazê-los sentir que as coisas já não estão tão complicadas como estavam há uns anos atrás, mesmo que nada tenha realmente mudado. Mas isso não será suficiente para evitar que, mais tarde ou mais cedo, as coisas se compliquem ainda mais, e deixe de ser possível fingir que não.»

Excerto de «Um “guterrismo” amputado», Bruno Alves no Económico

E não há solução? Não, não há. Há sempre um Costa à espera de vaga no PS.

«Desta feita, em jeito de presente de aniversário, Marcelo Rebelo de Sousa convidou o histórico e deveras competente assessor de imprensa do PSD, Zeca Mendonça, para a assessoria de imprensa da Presidência da República. Ora, o Presidente que diz ser o político mais independente de todos leva para a sua equipa a pessoa que melhor conhece e domina a máquina do PSD – em pleno processo eleitoral nesse partido! Ou seja: Marcelo quer estar por dentro da luta entre Pedro Santana Lopes e Rui Rio. Mais: Marcelo apoia Santana Lopes, mas já está a queimá-lo para 2019, lançando (de forma inaudita e só possível em Portugal) Carlos Moedas como o futuro do PSD. E resta esperar para perceber qual será a “facada final” que Marcelo dará (ou tentará dar) na candidatura de Rui Rio. Para nós, é a grande incógnita da política portuguesa nos próximos dias, em plena época natalícia.»

Excerto de «Os 69 de Marcelo», João Lemos Esteves no ionline

E não há solução? Não, não há. Elegeram-no, agora aguentem até 2026.

Dúvidas (212) - LGBTQQIAAP? FYAYWSFWU! (II)

Continuação desta dúvida.

Há algum tempo decifrei o acrónimo LGBTQQIAAP com a ajuda da BBC «We know what LGBT means but here's what LGBTQQIAAP stands for». Já sabia que L = lesbian, G = gay, B = bisexual, T = transgender e fiquei a saber que Q = queer, Q = questioning, I = intersex, A = allies, A = asexual, P = pansexual.

Esqueçam tudo o que a antiga musa canta porque o que vem a seguir é algo muito mais completo. O ano passado Steffen Königer, deputado pelo AfD ao parlamento de Brandenburgo, foi acusado de ter saudado o parlamento no início de uma intervenção com um «Meine Damen und Herren» (senhoras e senhores), sem mencionar os outros sexos, perdão géneros. Com uma ironia devastadora, na sua intervenção seguinte Königer dirigiu-se ao parlamento como se pode ver no vídeo seguinte (via Fiel Inimigo).


É lamentável que nem todas as mentes liberais se atrevam a questionar os delírios psicóticos do politicamente correcto nas suas manifestações de «gendermania» e deixem a despesa a cargo da extrema-direita.

11/12/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (113)

Outras avarias da geringonça.

Daniel Bessa revela na sua crónica no Expresso que o programa Compete, que faz parte do Portugal-2020 financiado pelo orçamento comunitário e destinado a financiar o investimento empresarial para aumentar a competitividade, está também a ser utilizado pelo governo no financiamento da administração pública para... «reduzir os custos de contexto». O título da crónica de Bessa é muito apropriado: «Desfaçatez».

Já sabíamos que banca está a reduzir o crédito às empresas ao mesmo tempo que aumenta o crédito à habitação o que levou o BdP, escaldado pela crise, a ameaçar afunilar as regras. Ficámos também a saber pelo BdP que, em particular, o crédito às empresas exportadoras desce há 7 meses consecutivos e atingiu o valor mais baixo desde 2010. É o que se chama matar à fome uma das duas galinhas dos ovos de ouro - a outra é o turismo que em 2016 aumentou 10% em relação a 2015 e representou 7% do valor acrescentado bruto tendo o consumo dos turistas atingido 12% do PIB.

SERVIÇO PÚBLICO: Ideias heréticas sobre a Jerusalém, capital de Israel

Jerusalem Denial Complex

Bret Stephens

If nothing else, Donald Trump’s decision on Wednesday to recognize Jerusalem as Israel’s capital shows how disenthralled his administration is with traditional pieties about the Middle East. It’s about time.

One piety is that “Mideast peace” is all but synonymous with Arab-Israeli peace. Seven years of upheaval, repression, terrorism, refugee crises and mass murder in Libya, Egypt, Yemen, Iraq and Syria have put paid to that notion.

Another piety is that only an Israeli-Palestinian peace deal could reconcile the wider Arab world to the Jewish state. Yet relations between Jerusalem and Riyadh, Cairo, Abu Dhabi and Manama are flourishing as never before, even as the prospect of a Palestinian state is as remote as ever.

10/12/2017

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (48)

Outras preces.

Com efeito em 30 de Novembro, os comunistas cancelaram formalmente a assinatura do canal TV Marcelo ao publicarem no Pravda, perdão Avante!, um "artigo de opinião" de Manuel Gouveia, um apparatchik obscuro membro do Comité Central do PCP onde se lê a pretexto do presidente dos Afectos ter dito «trata-se de não desbaratar aquilo que deu tanto trabalho aos portugueses».:
«A síntese é brilhante e eficaz, mas é falsa, e expõe o papel de Marcelo como manipulador ao serviço  do grande capital. Os manipuladores da opinião pública fazem vingar as suas teses por força da sua sistemática repetição.»
Parece-me pouco rigoroso classificar MRS como «manipulador ao serviço do grande capital». Quanto ao manipulador está certo, mas quanto ao serviço é um exagero; no máximo poderia dizer-se que ele esteve ao serviço do DDT, mas seria mais exacto dizer que MRS tentou colocar o DDT ao seu serviço, sem sucesso.

Porém, o importante neste caso não é quem está ao serviço de quem, o importante é concluir que os comunistas, nunca tendo dado em privado para o peditório de MRS, deixaram publicamente de fingir. Em breve, com toda a probabilidade, os berloquistas imitarão os comunistas, ainda que com mais jogo de cintura porque lhes falta o abrigo dos sindicatos para enfrentarem o deserto afastados do poder.


Sabendo-se a influência que comunistas e sobretudo berloquistas têm nas redacções, é de supor que se inaugure o fim da benignidade consensual entre os opinion dealers e os spin doctors que até agora tem acompanhado os afectos presidenciais. Ainda estamos muito longe dos ódios que acompanharam a última parte do mandato de Cavaco, mas o certo é que MRS não esteve muito melhor no seu primeiro ano, e é de supor que, quando as castanhas começarem a queimar as mãos de Costa, MRS sentindo o cheiro do sangue aperte Costa açulando inadvertidamente o resto do jornalismo de causas.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: A opinião pública americana é diferente da opinião publicada não americana

Secção Res ipsa loquitur

Um pouco por todo o lado, a esquerdalhada parece pensar que o presidente americano deveria ser eleito pelos eleitores de esquerda do resto do mundo. Associada a esta fixação surge uma outra, a de acreditarem que a opinião pública americana adora os presidentes democratas e odeia os republicanos (ainda que tenha votado neles). Desta vez a esquerdalhada está a viver momentos de êxtase porque graças ao estilo e à substância de Trump, a sua taxa de aprovação, desde o início do mandato limitada aos seus indefectíveis, está a afundar-se. Porém, ao contrário do que a esquerdalhada quer fazer crer, não tem sido geralmente assim com outros presidentes.

Fonte
Como todas as muletas das vulgatas esquerdistas, os «factos alternativos» (que não foram uma criação da equipa de Trump, porque a técnica agitprop foi inventada pelos comunistas nos anos 20) , também não resistem aos factos. Veja-se no diagrama anterior como no primeiro ano de mandato os presidentes republicanos, com excepção de Trump, tiveram a maior parte do tempo taxas de aprovação superiores às dos presidentes democratas. Em particular, veja-se a popularidade de George W. Bush, a bête noire da esquerdalhada.

09/12/2017

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: O Terminator da Azambuja ataca de novo

O Terminator de emprego
Em Dezembro de 2006 foram 1.100

«Opel da Azambuja fecha amanhã ao fim de 43 anos

Amanhã, às 23.10, as máquinas param na fábrica da General Motors, na Azambuja, ao fim de 43 anos de laboração. A decisão da GM de deslocalizar a produção do Opel Combo para a fábrica de Saragoça atira para o desemprego os 1100 trabalhadores da fábrica, a que acrescem cerca de 400 postos de trabalho indirectos.»

Onze anos depois podem ser 5 mil

«VW já tem alternativa à Autoeuropa de Palmela

Meta de 280 mil veículos até ao final de 2018 pode estar comprometida sem acordo. Várias fábricas do grupo já estão disponíveis para receber parte da produção do novo VW.»

Poses no Semanário de Reverência

Passos Coelho em pose de fuga depois de ter destruído os Serviços Públicos em foto do Semanário de Reverência


Catarina Martins em Pose de Estado defendendo os Serviços Públicos em entrevista ao Semanário de Reverência

08/12/2017

Dúvidas (211) - Bist du wahnsinnig, Herr Schulz?

Aqui


«Those who are against it will simply leave the EU.»

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Entre os dois, venha o Costa e escolha

«Infelizmente, não há forma de garantir que um incompetente se tenha transformado num competente 15 anos depois. Pode acontecer? Teoricamente, pode. Eu acredito que as pessoas mudam, aprendem e melhoram. Só que ao nível de primeiro-ministro – tal como na guerra, ou no lançamento do space shuttle – não dá para arriscar. É tão simples quanto isto. Não dá para pagar para ver. Mais: seria tão pesada a mochila de 2004/2005 que Santana arrastaria às suas costas, que qualquer buraco no caminho ganharia a dimensão de uma cratera. Nunca haveria estado de graça – apenas recordações da gigantesca desgraça que foram os seus oito meses como primeiro-ministro. Tudo isto me parece tão evidente, tão escandalosamente óbvio, que ver Santana candidato apenas demonstra que o PSD pós-Passos é um partido em cacos. Está tão obcecado com as lutas internas que se tornou indiferente aos interesses do país e ao seu próprio futuro.»

Excerto de «O meu primeiro pontapé na incubadora», João Miguel Tavares no Observador

É difícil não concordar. Infelizmente a alternativa é Rui Rio, que, escrevi há dias, sabe fazer contas e não mente muito, o que o qualificaria para ser um bom líder socialista, no lugar de um Costa sofrendo de inumeracia crónica, atropelado pelas trapalhadas e mentirolas e com os elásticos à beira de se romperem. Acrescento agora que, com a ajuda de Santana Lopes ou Rui Rio, os elásticos podem durar até ao fim da legislatura e, se os ventos da economia internacional continuarem a soprar as velas da nau lusitana, podemos ter mais um mandato de Costa até ao quarto resgate, altura em que ele sairá queixando-se do capitalismo de casino, das agências de rating e do costume.

07/12/2017

Era uma vez um Centeno que foi para Bruxelas (2)

Continuação daqui

(Da versão internacional do jornal alemão financeiro Handelsblatt

Como se vê, as preocupações de comunistas e de berloquistas não são infundadas. Pelo contrário, as preocupações dos que receavam que a Zona Euro ficasse entregue a Costa por interposto Centeno mostram-se infundadas.

CASE STUDY: Trumpologia (26) - Até para o Donaldo é demasiado

Ozi

Dúvidas (210) – Irá o Brexit consumar-se? (VII)

Outras dúvidas sobre a consumação do Brexit.


Escrevi há dez meses que nessa altura a dúvida se o Brexit se consumaria era puramente retórica. Talvez fosse então, mas ainda pode sair do domínio da retórica. Ora veja-se o diagrama seguinte.


Os remainers e os leavers estão em desacordo em quase tudo, salvo quanto ao desastre da negociação conduzida por Theresa May. E à medida que emergem as falsificações de dados e as manipulações dos políticos leavers, a que a incompetência e falta de guts dos políticos remainers não conseguiram responder, uma parte dos eleitores leavers poderá mudar de opinião.

Desconfio que a UE faz falta ao Reino Unido, que terá a perder com a saída do mercado comum - já quanto aos instintos federalistas bruxelenses percebo perfeitamente os britânicos. Tenho a certeza que o Reino Unido faz falta à UE para injectar o que resta de visão liberal britânica e para conter o dirigismo francês - sim, dirigismo, mesmo com Macron.

06/12/2017

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (LXV)

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Alguém se lembra da excitação pueril do BE nos idos de 2015 quando o Syriza foi o partido mais votado e formou governo coligado com o Anel (um partido que não fora a coligação com o Syriza seria classificado pela esquerdalhada como neonazi) e das peregrinações que se seguiram de luminárias berloquistas a Atenas?

Em menos de 3 anos o Tsipras, o Syriza e o governo grego fizeram o percurso clássico dos doentes terminais nas suas 5 fases: negação, revolta, negociação, depressão e, finalmente, aceitação. Politicamente evoluíram do esquerdismo infantil para a social-democracia colorida e, para responder ao estado comatoso em que os socialistas do Pasok deixaram a Grécia, aplicaram a mesma receita que o governo PSD-CDS teve de aplicar para responder ao estado comatoso em que os socialistas do PS deixaram Portugal.

Compreensivelmente, desde finais de 2015, a Grécia, o Syriza e Tsipras desapareceram do radar do berloquismo. Afinal eles estavam a aceitar e pôr em prática a mesma receita de "austeridade" que as luminárias do BE vilipendiavam em Portugal.

Há poucos dias, Tsipras esteve em Portugal e foi recebido por Costa que acabaria por ter parcialmente razão quando disse em Janeiro de 2015 "Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha" e um ano depois negou tudo aquilo que tinha defendido até então e começou a aplicar uma receita seguindo, se não a mesma, uma linha semelhante, não à do Syriza de 2015, mas à do Syriza de 2016 e 2017.

Quem ainda finge seguir a mesma linha do Syriza de 2015 é o Bloco de Esquerda e, por isso, ignorou quase completamente o Tsipras de 2017 que nos visitou e é em vão que se procurará uma referência, por mínima que seja, à visita de Tsipras no esquerda.net. A única referência a um encontro de Tsipras com as luminárias do BE é na entrevista ao DN onde o jornalista escreve que Tsipras «esteve à conversa com Pierre Moscovici, comissário europeu para os Assuntos Económicos e Financeiros, e Catarina Martins, coordenadora do Bloco de Esquerda» - olha que dois. Parece um encontro clandestino.

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (2)

MÁRIO CENTENO É UM DOS PORTUGUESES QUE DOMINAM O MUNDO!

Marcelo Rebelo de Sousa: “Hemos pasado de ser el patito feo al cisne resplandenciente”

El presidente de Portugal: “Somos los nórdicos del siglo XXI”


Vinda do Presidente da República dos nórdicos do século XXI e dita a um jornal de um país vizinho dos nórdicos do século XXI que olha com sobranceria histórica os que agora pensam ser os nórdicos do século XXI, esta afirmação é de um ridículo que só não é mortal porque o ridículo não mata - apenas desvaloriza quem assim se mostra impregnado de um profundo sentimento de inferioridade.

05/12/2017

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (1)

A série Deixar de dar graxa... tem sido dedicada a questionar a mitologia que sustenta a auto-imagem dos portugueses que julgam estar a humanidade inteira a olhar para eles, por contraponto à imagem que deles têm os estrangeiros, geralmente indiferentes à existência dos patrícios.

Uma das consequências decorrentes dessa patologia, como notou Ricardo Araújo Pereira, no artigo «Disseram bem de Portugal em Badajoz» na Visão (link indisponível), que aqui citei, é a procura obsessiva de portugueses bem-sucedidos na estranja, exemplificada pelos vários milhares de resultados no Google da expressão «português no topo do mundo» (45.500 resultados hoje).

Os jornalistas de causas sucumbem muito frequentemente a essa obsessão. Hoje mesmo tivemos várias sucumbências, entre as quais destaco:

MÁRIO CENTENO

Centeno junta-se a outros sete portugueses no topo da Europa (e do mundo)

PÚBLICO


Médico português entre os mais influentes do mundo
Jornal i

Posso estar enganado, mas o padrão na imprensa estrangeira é que os nacionais bem-sucedidos são, desde logo, reconhecidos no seu próprio país e por isso são identificados pelo seu nome e poucos se preocupam se essas pessoas são ou não reconhecidas no estrangeiro e muito menos a salientar esse facto.

Chávez & Chávez, Sucessores (61) - Outra obra do socialismo bolivariano

Outras obras do chávismo.

Aeroportos da Venezuela sem combustível para aeronaves privadas


Os aeroportos venezuelanos estão sem combustível para aviões privados. O problema está relacionado com problemas no abastecimento e produção das fábricas em Cátia La Mar.

Isto passa-se no país que tem as maiores reservas de petróleo do mundo.

04/12/2017

Era uma vez um Centeno que foi para Bruxelas

Há o Mário Centeno economista académico, considerado competente, com uma formação sólida e um currículo digno de nota.

Há o Mário Centeno ministro das Finanças que tem sido um executor fiel das políticas indispensáveis para apaziguar comunistas e bloquistas e manter o seu apoio ao governo. Políticas que não são as do Centeno economista, nem mesmo são as previstas no programa do governo e ainda menos no documento dos 12 sábios, e consistem essencialmente em medidas one-off, no aumento dos impostos indirectos, no expediente das cativações para conter as despesas com bens e serviços e o investimento, comprometendo a eficácia da máquina administrativa. Com o aumento da despesa estrutural em reposições e restituições para satisfazer a clientela eleitoral de funcionários públicos, só o crescimento económico induzido pelas exportações e o turismo, que não devem nada nem a Centeno nem ao governo, permitiu reduzir o défice. Até agora não houve o que se possa chamar de consolidação orçamental.

Talvez o Centeno economista, percebendo ao fim de dois anos onde conduz esse caminho, sem a coragem de Campos e Cunha que saltou do barco de Sócrates dois meses depois de tomar posse, tenha procurado afastar-se gradualmente do pântano em que se transformará a gestão das finanças públicas e refugiar-se nas suas responsabilidade no Eurogrupo.

Com a nomeação surge uma terceira persona, o Centeno presidente do Eurogrupo, o que empresta algum brilho à imagem internacional tradicionalmente embaciada de um Portugal dos Pequeninos e alimenta a fome de reconhecimento de um povo com complexos de inferioridade que vê assim mais um «português no topo do mundo». Mais ou menos o mesmo brilho que emprestaram os comissários Cardoso e Cunha 1985-8), Deus Pinheiro (1993-4, a maior parte do tempo nos greens de golfe) e António Vitorino (1999-2004, a maior parte do tempo a fazer conferências) - alguém se lembra destes três? - ou do que o comissário Moedas (2014-2020, uma parte significativa do tempo a preparar o seu futuro em Lisboa). Menos do que a eleição de Barroso para presidente da CE, longe da eleição de Guterres para secretário-geral das Nações Unidas e a uma distância galáctica das cinco Bolas de Ouro de Cristiano Ronaldo.

Que daí resulte munição para Costa continuar a seguir este caminho contando com bloquistas e comunistas é bastante duvidoso (mais duvidoso os segundos do que os primeiros). Inevitavelmente, o Centeno presidente do Eurogrupo será um mero porta-voz e moderador das reuniões dos 19 ministros das Finanças cujas decisões serão ditadas, ou pelo menos grandemente influenciadas, pelos pesos-pesados Alemanha e França. Pelo contrário, é mais provável que o Centeno na encarnação de ministro das Finanças de Costa fique mais condicionado do que actualmente. Seja como for não creio que faça sentido dramatizar.

Como seria de esperar, quase todas as múltiplas reacções a esta nomeação são encomiásticas, algumas imbecis e entre estas destaco as duas mais notáveis. A de Pacheco Pereira (a caminhar velozmente para o esquerdismo senil e a irrelevância) - «é a mesma coisa que a gente nomear um general para o exército inimigo» - e a de João Galamba (igual a si próprio, começou por apresentar reservas à sua nomeação e acabou com uma declaração hiperbólica) - «não é o Eurogrupo que vem para Portugal, é Portugal que vai para o Eurogrupo com as políticas seguidas por Mário Centeno nos últimos dois anos».

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (112)

Outras avarias da geringonça.

A semana que passou foi marcada pelos episódios grotescos da aprovação do orçamento e da capitulação em toda a linha de Costa com uma reviravolta na taxa da energia que, afinal, foi também uma capitulação a outra gente. O capítulo mais recente da comédia Infarmed esteve ao nível dos anteriores: a presidente a contar que o ministro lhe dissera que a transferência era apenas uma intenção e o ministro a fazer um ridículo mea culpa mea maxima culpa para limpar a folha de Costa.

Se por um lado se avolumam os sinais do desconjuntamento da geringonça - o discurso da mana Mortágua a cobrar a "traição" foi disso uma manifestação colorida - por outro, surgem os sinais de que Costa está a procurar para os lados da oposição outras bóias para se manter a flutuar. Escute-se como a ministra da Presidência «deseja que com o futuro líder do PSD seja possível um entendimento» e repare-se como o braço direito de Costa - aquele rapaz que fazia tremer as perninhas dos banqueiros -  no mesmo ano consegue dizer que «o PS nunca vai precisar da direita para governar» e nove meses depois promete «em matérias estruturantes vamos procurar o PSD e o CDS» (fonte). Esta segunda declaração é tanto mais extraordinária quanto dita por um rapaz tido como inteligente e presuntivo futuro líder socialista que não percebe que os acordos em matérias estruturantes se fazem com os aliados, que ele acha serem o BE e o PCP, e não com o PSD e CDS com os quais, sendo adversários ou inimigos, só se fazem acordos em matérias circunstanciais.

03/12/2017

Costa pode ser um habilidoso mas nunca será um líder e ainda menos um estadista

«O percurso político fez de Costa um candidato natural à liderança do PS há muitos anos. Mas é aqui que começam as dúvidas sobre as capacidades de liderança de Costa. Em 2004, Costa gozava de um currículo político superior ao de Sócrates. Deveria ter sido ele a disputar a liderança contra Manuel Alegre. Mas não, foi Sócrates que avançou. É nestes momentos que se revela a liderança política. Os líderes, normalmente, apanham o comboio do poder à primeira; não esperam. Costa hesitou e esperou. Foi o primeiro fracasso da sua carreira política. E o argumento de que Costa não queria ser líder socialista não me convence. Como se viu mais tarde, queria mesmo ocupar a liderança socialista e chegar a PM.

BELIEVE IT OR NOT: Poop art

Poop art: the beauty of the microbiome

Instead of flushing, Billy Apple annotated his soiled sheets of pink toilet paper with their dates of issue: July 8th, 9th and 11th 1970. “Excretory wipings” was intended for the Serpentine Gallery in London, but then put into storage. For scientists studying the microbiome—the unique combination of 30trn-50trn bacteria in each human body—such troves are gold dust. Comparing them with samples taken from Mr Apple last July, scientists at Auckland University gained a unique insight into the long-term development of a single subject’s internal ecosystem. Despite significant changes in diet, habits and habitat (Mr Apple moved from New York to New Zealand) 45% of the bacteria were unchanged. This suggests that a person’s genes actively select and maintain “core members” of the microbiome throughout a lifetime. Unfortunately there are unlikely to be any comparable studies for a while. As Mr Apple said: “Who the hell keeps their tissues for 46 years unless it’s an artwork?”

The Economist Espresso

02/12/2017

DIÁRIO DE BORDO: Exercício de geometria política não-euclidiana

A primeira manifestação de megalomania foi do porta-voz João Almeida. Fascinado com os menos de 7% dos votos que o seu partido teve nas eleições autárquicas (estimativa do Pertinente), achou que isso bastaria para o CDS se assumir como alternativa ao governo socialista.

A segunda foi da própria líder que em entrevista ao Observador garantiu: «estou preparada, hei de preparar-me para dizer aos portugueses que sou capaz de ser primeira-ministra». À primeira vez estranha-se, à segunda vez começa a entranhar-se.

Ora não estão em causa os méritos inegáveis de inteligência e liderança de Assunção Cristas, tais que, na minha humilde e distante opinião, a qualificariam melhor para liderar o PSD do que qualquer dos candidatos que disputam o lugar, saídos de uma ruga do contínuo espaço-tempo, como aqui no (Im)pertinências costumamos ironizar.

Está em causa o CDS como alfobre de luminárias que na terceira idade fazem o coming out socialista. Os exemplos clássicos são o professor Adriano Moreira, o professor Freitas do Amaral e os drs. Basílio Horta e Bagão Félix. E está em causa a própria Assunção Cristas e os seus tiques socialistas que não se sabe serem autênticos ou apenas uma tentativa potencialmente bem sucedida para subir no ranking aos olhos de eleitores amantes do Estado Sucial.

Em todo o caso, se admitirmos que, como parece, esses amantes do Estado Sucial representam uma parte significativa do eleitorado do PSD, Assunção Cristas seria uma potencial líder jovem, carismática e moderna para o PSD, em alternativa ao velho contabilista Rui Rio e ao playboy reformado Santana Lopes.

E o que fazer com esses dois? Rui Rio, que sabe fazer contas e não mente muito, daria um bom líder socialista, no lugar de um Costa sofrendo de inumeracia crónica, atropelado pelas trapalhadas e mentirolas e com os elásticos à beira de se romperem. Santana Lopes poderia voltar para a Santa Casa e a movida alfacinha. Ficaria vago o lugar de líder do CDS, mas Portas estará sempre disponível.

01/12/2017

Mitos (268) - Diferenças salariais entre homens e mulheres (6)

Outros mitos: (1), (2), (3), (4) e (5)

A última indignação a pretexto do gender pay gap na Easyjet é igual às anteriores e fundamenta-se - se é que as indignações politicamente correctas precisam de fundamento - na mesma confusão metodológica.

Segundo os dados publicados pela própria Easyjet (ver por exemplo no Independent), no pessoal residente no Reino Unido a média de salários das mulheres é 50% mais baixa do que a dos homens o que motivou logo adjectivos - o politicamente correcto não gosta de substantivos, porque os factos interessam-lhe pouco.

Porquê essa diferença entre salários médios de homens e mulheres no caso da Easyjet? Porque o salário médio dos pilotos é £94.200 e para os 1.407 pilotos homens há apenas 86 mulheres. O salário médio do pessoal de cabina é de £24.800 e para as 2.002 mulheres há apenas 898 homens.

Repare-se não se mediram as eventuais diferenças salariais para as mesmas funções e níveis, por exemplo entre homens pilotos e mulheres pilotos ou, mais rigorosamente, entre pilotos com o mesmo nível, ou entre homens e mulheres do pessoal de cabina ou, melhor ainda, entre assistentes de bordo homens e mulheres e entre chefes de cabine homens e mulheres.

Em conclusão, uma vez mais, nenhum destes estudos permite concluir que existam grandes diferenças salariais por sexo para a mesma função e nível. Pelo contrário, sugerem que essas diferenças sejam pouco significativas como em outros países europeus nos estudos que referi aqui citados. Ou, dito de outro modo, não há suporte estatístico para pôr em causa a adopção nas economias modernas do princípio para trabalho igual, salário igual.

30/11/2017

Costa, o homem elástico

O Homem-Elásticos após o 4.º resgate
«Suspeito que o grande público, composto por gente que doseia sabiamente o seu interesse pela política, não viva estas coisas com tanta trepidação. Em todo o caso, os limites da habilidade do Homem-Elástico começam a ser difíceis de disfarçar. Nota-se o esforço. O suor corre pelo rosto. Ele próprio admite estar “momentaneamente cansado”. Perdeu-se aquela graça dos movimentos que antes o celebrizava. De vez em quando precisa de se retirar para, longe dos olhares, voltar à sua condição normal. E alguns pensam até que há algo de estranho em termos de estar constantemente assim, à espera do momento em que o hábil máximo sucumba à perigosidade do seu exercício. Pensam que isso põe desnecessariamente em risco o funcionamento da sociedade. E sonham com o momento em que o alter-ego primo-ministerial do cidadão António Costa desapareça de cena. Não por inveja, cobiça ou outras pouco recomendáveis paixões, antes pelo contrário. Por um genuíno sentimento de humanidade. O público não aprecia o espectáculo de um equilibrista que se estatela no chão, quanto mais de um Homem-Elástico que, sem o saber, ultrapassou os seus limites. Anseia por um António Costa deixado finalmente a si mesmo, à vontade com a sua barriga, liberto da penosa tortura imposta pelo insensato demónio do seu alter-ego.

Por estes dias, esta visão das coisas, tudo o indica, tem-se tornado mais comum. Houve os fogos, houve Tancos, houve a legionella, houve a trapalhada com o Panteão, houve a justiça salomónica do caso do Infarmed (Lisboa, Porto – e finalmente Lisboa/Porto), houve a história com os professores, houve as perguntas pagas de Aveiro, com os ministros a dormirem e gracinhas ao ministro das Finanças (“Senhor ministro das Finanças, olhe que investir hoje na saúde é poupar amanhã no sistema de saúde”) e houve a querela da contribuição sobre as energias renováveis. (...). Mas a história aos quadradinhos já não entusiasma ninguém. Tudo conhece um limite de elasticidade e as estradas têm sempre fim. Em política, quando o limite de elasticidade foi ultrapassado e não se deu por isso, começa o delírio. O delírio, salta à vista, já começou.»

Excerto de «O Homem-Elástico», Paulo Tunhas no Observador

No final do seu artigo Paulo Tunhas evoca Belmiro de Azevedo, não certamente porque encontrasse algo de comum com o Homem-Elástico que desgoverna o país. Para mim, e provavelmente para Tunhas, Belmiro de Azevedo foi em toda a sua vida o exemplo do anti-Homem-Elástico.

Bons exemplos (120) - Um empresário fora do baralho

«Tanto eu como a Sonae comportamo-nos sempre não tanto como contrapoder, mas como não próximos do poder. É bom para a democracia e para o funcionamento do governo que os empresários sejam independentes e discordem.»

Belmiro de Azevedo, em entrevista ao Público em 2005

«A maior parte dos competentes não tem currículo partidário»

O que a imprensa livre deve a Belmiro de Azevedo e que João Miguel Tavares quer assumir como sua dívida pessoal.

29/11/2017

DIÁRIO DE BORDO: R.I.P.

Belmiro de Azevedo, um empresário português independente
 do complexo político-empresarial socialista

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (57) Unintended consequences (XVII)

Outras marteladas.

Continuando os exemplos recentes de consequências indesejadas do alívio quantitativo e das taxas de juro nulas ou negativas, acrescentemos a evolução do mercado imobiliário, em particular para habitação:
  • Nos Estados Unidos, as vendas de casas novss aumentaram inesperadamente em Outubro e em especial as vendas de moradias corrigidas da sazonalidade cresceram 18,6% em relação ao mesmo mês do ano passado, atingindo o máximo numa década, isto é voltaram ao seu nível pré-crise financeira que, como se sabe, começou pelo colapso das hipotecas subprime;
  • No Canadá, o banco central emitiu um aviso sobre a falta de rigor na concessão de crédito para compra de habitação que considera uma ameaça à estabilidade; 
  • Em Portugal, o crédito novo para comprar de habitação está a atingir máximos históricos e valor por m2 da avaliação bancária das casas continuou a crescer e em Outubro atingiu o máximo do ano.
Os sinais oriundos dos mercados de capitais também não são tranquilizadores. Nos Estados Unidos, o Fed, prestes a mudar de presidente, muito provavelmente aumentará de novo as taxas em Dezembro. A diferença de taxas para as maturidades de dez anos e dois anos atingiu o mínimo desde Novembro de 2007 (outra vez o ano fatídico) uma situação que geralmente precede uma recessão, embora tal seja muito pouco provável nesta conjuntura.

28/11/2017

Um governo à deriva (37) - Costa não é um mentiroso excepcionalmente bom (II)

«(...) o primeiro-ministro disse que a mudança já estava prevista, até para trazer a Agência Europeia do Medicamento. Mas isso não estava na candidatura portuguesa, que refere que a sede do Infarmed permanece em Lisboa. O primeiro-ministro não disse a verdade.
(...) o primeiro-ministro disse que aí (na saúde) não existiam cativações. Mas essa afirmação foi desmentida pela Conta Geral do Estado, que evidenciou cativações na saúde à volta dos 80 milhões de euros. O primeiro-ministro não disse a verdade.
(...) o primeiro-ministro acusou o governo anterior de ter deixado, com as suas políticas, que o Metro e a Carris tivessem perdido 100 milhões de passageiros entre 2011 e 2015. Mas esses números não têm qualquer sustentação, uma vez que o número de passageiros perdido foi menos de metade desse. O primeiro-ministro não disse a verdade.
(...) o primeiro-ministro disse que a revisão trimestral (do IPP) era só uma medida transitória até à introdução do combustível profissional. Mas essa tese nunca tinha sido anunciada. O primeiro-ministro não disse a verdade.
(...) o primeiro-ministro disse que o anterior primeiro-ministro todos os dias criticava os bombeiros. Mas essa acusação não encontra qualquer sustentação ou demonstração, uma vez que nenhuma declaração de Passos Coelho se encontra crítica aos bombeiros. O primeiro-ministro não disse a verdade.
(...)  o primeiro-ministro, (...) disse que (...) o secretário de Estado do Desenvolvimento Regional chegou a ser substituído. Mas o secretário de Estado (...) foi sempre o mesmo. O primeiro-ministro não disse a verdade.
(...) o primeiro-ministro negou tal acordo (com António Domingues), (...) Mas essa refutação veio a provar-se infundada, já que várias foram as manifestações do Governo nesse sentido. O primeiro-ministro não disse a verdade.
(...) o primeiro-ministro (...) acusando o governo anterior de a ter privatizado (a PT) de forma irresponsável (...)  Mas a PT não foi privatizada pelo anterior governo, que se limitou a cumprir a medida que estava no memorando de entendimento, assinado por José Sócrates, (...) O primeiro-ministro não disse a verdade.

É impossível não ver aqui um padrão.»

«Há aqui um padrão», Adolfo Mesquita Nunes no Negócios

It is always good policy to tell the truth, unless of course you are an exceptionally good liar.
Jerome K. Jerome, escritor e humorista inglês, autor de «Three Men in a Boat»

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (56) Unintended consequences (XVI)

Outras marteladas.

Em retrospectiva: têm-se multiplicado as advertências sobre os efeitos das políticas não convencionais dos bancos centrais poderem desencadear a próxima crise financeira, algo para o qual temos vindo à chamar a atenção há uns cinco anos, pelo menos desde este post de 2012 (duas semanas antes do «whatever it takes» de Draghi): «ainda não saímos de uma e já estamos a trabalhar para criar a próxima. Vai acabar mal.»

Devido às dificuldades dos seres humanos lidarem com a realidade, sobretudo com as más notícias, e com os futuros possíveis, sobretudo com os futuros indesejáveis, a tendência para o desta vez vai ser diferente é universal e praticamente inevitável. Por isso, é de supor que só depois das castanhas nos queimarem as mãos perceberemos que isso resulta de terem estado demasiado tempo ao lume.

E, no entanto, há evidências que uma das consequências indesejadas do alívio quantitativo e das taxas de juro nulas ou negativas é maior apetência dos investidores por aplicações de maior yield e necessariamente maior risco, aplicações insustentáveis a longo prazo que não seriam feitas se as taxas de juros fossem próximas do normal histórico.

Um exemplo próximo de nós: alguém acredita que, sem as poções mágicas dos bancos centrais, a Altice conseguiria financiamento para se endividar em 50 mil milhões de euros (o equivalente a 20% da dívida pantagruélica do Estado português), que lhe permitiu comprar em três anos empresas por 43 mil milhões de euros para multiplicar o volume de negócios de mil milhões para 20 mil milhões? (fonte)

É claro que não espanta que logo se começou a perceber que as taxas irão subir, surgiram as dúvidas se o passivo da Altice seria sustentável e, de seguida, a capitalização bolsista da holding Next caiu de 13 mil milhões para 8 mil milhões. O que acontecerá à Altice? Na melhor hipótese terá de se desfazer de várias das suas participações. Na pior iniciará uma espiral descendente que terminará com a sua liquidação aos pedaços.

27/11/2017

A mentira como política oficial (39) - Desservindo inequivocamente uma causa equívoca (II)

Que Puigdemont, o ex-líder do governo regional catalão, era mentiroso ficámos a saber quando lemos o manifesto (This is not just about Catalonia. This is about democracy itself) publicado no Guardian e totalmente desmentido pelo jornal El Español («Las diez mentiras de Puigdemont en 'The Guardian'»).

Entretanto, foram conhecidos os resultados das sondagens que mostram estar o Junts per Catalunya de Puigdemont em quarto lugar com apenas 13,6% de intenções de votos, claramente atrás do Ciudadanos com 25,3%, que foi o que mais cresceu. Em conclusão, os eleitores parecem não ter sido seduzidos pelo verbo do demagogo.

Se já sabíamos que era demagogo e mentiroso (numa dose substancialmente mais elevada do que a média dos políticos), ficámos agora também a saber que Puigdemont, um vibrante europeísta, é um palhaço que, após tentar vender em Bruxelas sem sucesso uma adesão separada da Catalunha, vem agora classificar a União Europeia como um «clube de países decadentes, obsolescentes, no qual poucos ordenam, ainda por cima com ligações a interesses económicos cada vez mais discutíveis». (fonte)

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (111)

Outras avarias da geringonça.

Agora que os comunistas, castigados com a perda de um terço das câmaras, começaram visivelmente a descolar do governo e a apresentar facturas mais pesadas a acrescer às facturas que a realidade também começa a cobrar, a anunciada avaria vai ficando menos anunciada e mais avaria. Que seja irreparável ainda é cedo para concluir, mas o certo é que o zingarelho a que chamamos geringonça já não é o mesmo zingarelho de há dois anos.

A semana foi marcada pela indescritível negociação das famigeradas progressões dos professores que irão inevitavelmente propagar-se a todas as corporações que capturam o Estado Sucial. O que ficou acordado entre o governo e a Fenprof receio que ninguém saiba (veja-se aqui o ponto de situação em 19 de Novembro, já completamente desactualizado).

26/11/2017

ESTADO DE SÍTIO: A Altice já percebeu como funciona...

«Foi secretário e deputado do PS e esteve sempre com José Sócrates. Aparece 173 vezes na acusação da Operação Marquês, mas não é arguido. Agora, tornou-se assessor do novo presidente executivo da PT.»  (Observador)

 A Altice já percebeu como funciona... o complexo político-empresarial socialista.

LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: Hedy Lamarr, femme fatale e precursora da comunicação sem fios

Já aqui homenageei Hedy Lamarr, nascida Hedwig Eva Maria Kiesler em Viena, na sua encarnação de inventor, participando com o compositor George Antheil em 1941 no desenvolvimento da tecnologia de espectro de difusão em frequência variável, patenteada em 1942, utilizada então para impedir a interferência nazi nas comunicações militares dos aliados e hoje base tecnológica essencial no campo militar e nos telemóveis.

A pretexto do novo documentário «Bombshell: the Hedy Lamarr Story» evoco agora a diva, com seis casamentos no activo, que nos deu um dos primeiros nus e o primeiro orgasmo feminino do cinema em «Êxtase», um filme que teve honras de ser condenado pelo papa Pio XI.

25/11/2017

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (78) – 25 de Novembro de 1975. A troika era outra

Um governo à deriva (36) - Costa não é um mentiroso excepcionalmente bom

«António Costa não podia justificar a ida do Infarmed para o Porto por a “proximidade entre a agência europeia e as agências nacionais” ser “um dos critérios importantes” no concurso europeu para escolha da localização da EMA. Isto, pelo simples facto de a candidatura portuguesa nunca ter apresentado esse argumento como fator concorrencial perante as outras cidades em apreciação. Mais: na proposta que é pública, o Infarmed aparece com sede em Lisboa, para onde seria preciso os funcionários da EMA viajarem em caso de necessidade. Se havia quem tivesse a mudança do Infarmed para o Porto na cabeça — como alegam fontes do Governo — isso não permite ao primeiro-ministro dizer que a decisão foi tomada há muito tempo Primeiro, porque o Plano Estratégico da agência foi homologado há dois meses sem essa referência “estratégica”; segundo, porque a proposta entregue às instituições europeias não o previa; e terceiro porque até julho a candidata à EMA seria Lisboa, pelo que não faria sentido, nesse cenário, mandar o Infarmed para 300 quilómetros de distância.» 
Fact check do Observador

It is always good policy to tell the truth, unless of course you are an exceptionally good liar.
Jerome K. Jerome, escritor e humorista inglês, autor de «Three Men in a Boat»

Fake news: An abusive producer assaulted by Hollywood stars

Harvey Weinstein with Heidi Klum and Uma Thurman at a 2014
Golden Globes afterparty (Telegraph)
The truth is rarely pure and never simple.
Oscar Wilde

24/11/2017

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (55) O clube dos incréus reforçou-se (XVIII)

Outras marteladas e O clube dos incréus reforçou-se.

Recapitulando:

O intervencionismo do BCE, que copiou com atraso a Fed e o BoE, adoptando o alívio quantitativo e as taxas de juro negativas ou nulas, desde o «whatever it takes» do Super Mario há 5 anos, é parecido como terapêutica com a sangria dos pacientes praticada pela medicina medieval para tratar qualquer doença, incluindo a anemia.

Por razões fáceis de entender, estas políticas continuam a merecer a reverência, sobretudo em países como o nosso em que o Estado vive directa e sobretudo indirectamente, pela indução de confiança nos mercados, a expensas do BCE. Proliferam assim as luminárias que vêem a União Europeia e as miríficas políticas de mutualização da dívida como o alfa e ómega da salvação sem esforço das finanças arruinadas da pátria.

As raras vozes dissonantes (temos citado algumas delas) não têm chegado para perturbar e muito menos abafar os salmos cantados pelo coro imenso dos prosélitos louvando a bondade das políticas de injecção de dinheiro e de juros artificialmente baixos dos bancos centrais.

Recentemente juntou-se aos incréus uma das vozes mais potentes do mundo das finanças, o JPMorgan que, pela pena de Marko Kolanovic, um dos seus chief strategists, aqui citado no Business Insider, até já baptizou a próxima crise financeira gerada pelos bancos centrais no ventre do combate à crise de 2008.

A «Great Liquidity Crisis» segundo Kolanovic, pode começar a acontecer já em 2018, dependendo da dinâmica da economia americana, dos desenvolvimentos específicos dos mercados de capitais, nomeadamente dos cinco que cita, e do ritmo a que a Fed emagrecer o seu descomunal balanço de 4 biliões de doláres, o equivalente a mais de 14 vezes a dívida portuguesa.

Fonte: ECB

É como se o oceano de dinheiro injectado pela Fed na economia americana desde 2008 e a uma escala menor (ver quadro anterior) pelo BCE nas economias da Zona Euro, desde Junho de 2012, começasse a ser aspirado. Se a isso adicionarmos o aumento das taxas de juro e os seus efeitos em investimentos com TIR que pode nem chegar para pagar os juros às novas taxas, as consequências provavelmente não serão agradáveis.

Títulos inspirados (73) - Que outra coisa se poderia esperar dessa gente?

Público

No (Im)pertinências todos os dias são sexta-feiras e todas as sextas-feiras são negras


Hoje, como todos os outros dias, encontra aqui pensamentos pertinentes e impertinentes sem preço (e com valor, esperamos).

23/11/2017

Mitos (267) - Diferenças salariais entre homens e mulheres (5)

Outros mitos: (1), (2), (3) e (4)

Como por acaso, multiplicam-se os estudos de causas pretendendo demonstrar a profunda discriminação salarial entre homens e mulheres. Na verdade, como já tive oportunidade de referir nos posts anteriores, a única coisa que esses estudos demonstram é que as mulheres ganham menos do que os homens, o é que totalmente diferente de concluir que existe discriminação salarial e muito menos profunda.

Entre a multidão de estudos cito dois recentes. O primeiro, da Eurostat (que não li) é assim apresentado pela Lusa citada pelo Negócios: «A disparidade salarial é definida como a diferença entre os vencimentos anuais entre homens e mulheres, mas quando se tem em conta as três desvantagens que estas têm que enfrentar - menor salário por hora, menos horas de trabalho em empregos pagos e taxas de emprego mais baixas - a disparidade de género chegava, em 2014, aos 26,1% em Portugal (UE 39,6%).»

Repare-se como se dá como demonstrado o que falta demonstrar. Menor salário por hora? Em relação a quê? Ao mesmo nível na mesma função? Menos horas de trabalho? Mas não é verdade que para se ganhar o mesmo com menos horas seria necessário ganhar mais por hora e aí, sim, teríamos discriminação salarial? Taxas de emprego mais baixas? O que tem isto a ver com desigualdade salarial?

O segundo estudo, de Carlos Guimarães Pinto, é baseado nos dados do outro estudo citado por Luís Aguiar-Conraria, no Observador, a que fiz referência no post anterior. As conclusões, apresentadas no jornal Eco, vão aproximadamente no mesmo sentido, confirmando significativas disparidades salariais entre sexos.

Contudo, quando se comparam os salários de homem e mulheres licenciados essas diferenças atenuam-se bastante, embora variem consideravelmente segundo a região, como se pode ver no diagrama seguinte.


Sublinhe-se que estamos a falar das mesmas habilitações e em consequência estamos a estreitar o leque de funções e de níveis profissionais, mas não estamos a falar das mesmas funções e níveis que seriam a base para uma comparação relevante para se avaliar a suposta discriminação salarial. Quanto à discrepância entre regiões, o meu palpite é que as maiores diferenças, sobretudo na AM de Lisboa, resultam da predominância relativa de postos de trabalho com maior qualificação e, consequentemente, salários mais altos e, inevitavelmente, maior desigualdade salarial, até mesmo dentro do mesmo sexo.

Em conclusão, nenhum destes estudos permite concluir que existam grandes diferenças salariais por sexo para a mesma função e nível. Pelo contrário, sugerem que essas diferenças sejam pouco significativas como em outros países europeus nos estudos que referi aqui citados. Ou, dito de outro modo, não há suporte estatístico para pôr em causa a adopção nas economias modernas do princípio para trabalho igual, salário igual.

22/11/2017

Se fosse necessário demonstrar que a criatura é um provinciano ressabiado e enfatuado, estaria demonstrado


Comentário da criatura ao facto de a maioria esmagadora do pessoal do Infarmed estar contra a mudança para o Porto ejaculada por um governo que perdeu o norte e talvez também tenha perdido o Norte e pensa recuperá-lo polindo-lhe a vaidade.

ACREDITE SE QUISER: Se a "linha da frente no grupo dos campeões" é isto, o que será a linha da rectaguarda?

«Ministra coloca Portugal “no grupo dos campeões” da inovação na administração pública» titula triunfal o semanário de reverência e cita a ministra da Modernização Administrativa que se auto-felicita: «Estamos na linha da frente no grupo dos campeões. Fazemos parte, desde segunda-feira, do 'States of Change', que é uma equipa de diferentes países de todo o mundo, da Austrália, Estados Unidos, Canadá e Portugal, com mais três países europeus, que ajuda outros países neste desígnio de inovar nos sectores públicos».

Recordemos que o «State of Change» socialista português é o mesmo Estado onde aparecem ao Exército cinco toneladas de peças de um carro de combate que ninguém tinha dado como desaparecidas e desaparecem armas e munições que talvez não tenham desaparecido e são restituídas em excesso, onde arde uma área de floresta superior a 500 mil hectares, a maior este ano em todo o mundo, onde o Estado ocupado pela geringonça é incapaz de uma resposta eficaz e deixa morrer 110 pessoas, aldraba as listas de espera do SNS, degrada a manutenção dos equipamentos e deixa morrer 5 pessoas de legionella. O campeão da inovação na administração pública é o terceiro maior caloteiro da UE28, com prazos médios de pagamento de 95 dias, tem um governo que viola os compromissos com a CE de apenas admitir um funcionário por cada dois que saem e aumenta os efectivos em mais de 5 mil em nove meses e nomeia 1.439 boys como assessores ou adjuntos, aldraba os orçamentos com cativações e reduz o investimento público que prometera aumentar.

21/11/2017

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (3)

Uma sequelas de (1) e (2).

aqui abordei irónica e superficialmente a questão dos "intangíveis" da Web Summit na visão mirífica de Nicolau Santos. Para quem quiser olhar para esta questão com mais seriedade, recomendo este artigo de Nuno Garoupa. À laia de teaser aqui vai um excerto:

«Quando pressionados pelas tais externalidades positivas, os promotores privados e públicos da Web Summit rapidamente rejeitam o economicismo dos números e optam pela conversa dos imensos ganhos intangíveis. Curiosamente, os tangíveis não se medem quantitativamente, mas os intangíveis são uma realidade qualitativa inapelável que supostamente deveria calar o "bota-abaixismo". O problema dos intangíveis é que Portugal já não consegue viver com tanta fartura - os intangíveis da Expo98, do Euro 2004, das capitais da cultura, da economia do mar, das autoestradas, dos choques tecnológicos, da paixão pela educação são de tal forma avassaladores, que o Orçamento do Estado, coitado, tem dificuldade em lidar com eles.»

O amor da esquerda bem-pensante pelos utentes da vaca marsupial pública

Num artigo com o expressivo título «O amor da direita radical pelos trabalhadores do sector privado», Pacheco Pereira dá mais um pulo para o colo da geringonça, retribuindo as honras que lhe foram conferidas como compagnon de route do PS e porta-voz do costismo a quem disponibilizou tempo de antena, assistindo-o a fazer a cama a Seguro e a ascender à liderança do PS. E não, não estou a insinuar que Pacheco se vendeu pelo prato de lentilhas de uma tença na Fundação Serralves porque ele não aceitou ser pago em dinheiro. Pacheco Pereira não se vende por dinheiro. Pacheco Pereira move-se pelos seus ressabiamentos e deixa-se seduzir pela imensa vaidade do seu dilatado ego e, ao sabor dos ventos e dos protagonistas políticos, mostra uma notável volatilidade doutrinal que o tem levado do maoísmo, ao cavaquismo, ao soarismo, ao costismo e recentemente a apoiar Rui Rio na reconstrução do verdadeiro PS-D , com uma deriva liberal ocasional na passagem do século.

É mais um que substituiu a classe operária e o campesinato pelo funcionalismo público. Porém, não sendo de todo burro, ao contrário dos patetas convertidos, Pacheco deixa sempre as portas abertas para outras derivas, reservando-se o direito a «escrever um artigo usando uma argumentação ao contrário desta e com outros alvos».

20/11/2017

Presunção de inocência ou presunção de culpa? (30) - O julgamento de Sócrates por uma autoridade na matéria

«Estou convencido que José Sócrates não fez 90% das coisas que dizem que ele fez. É uma convicção pessoal. Agora, há forças, interesses, áreas de poder, pessoas, grupos que estão contra ele. E, difundida esta imagem, sendo esta imagem assumida publicamente, nunca mais se consegue libertar. José Sócrates está metido numa alhada de que não se consegue livrar. E das duas uma: ou é culpado, ou não é culpado. É muito difícil sobreviver nesta situação.»

Murteira Nabo, em entrevista ao Público

Murteira Nabo é uma das figuras de cera do regime: foi vereador da CM Lisboa pelo PS, secretário de Estado de Soares, secretário-adjunto e encarregado do governo em Macau, ministro de Guterres durante uns dias, até aproveitar um deslize na sisa e pular para presidente da PT onde ficou durante 8 anos, administrador do BES, administrador Seng Heng Bank de Macau, bastonário da Ordem dos Economistas, entre outras coisas

Com a autoridade que lhe proporciona esse longo currículo e certamente depois de ter estudado minuciosamente as 4.000-páginas-4.000 do processo de José Sócrates, Murteira Nabo dá o seu veredicto que diz tanto sobre Sócrates, como sobre o próprio Nabo e o regime em que ambos prosperaram.

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (110)

Outras avarias da geringonça.

Quando o governo se vangloria dos «maiores crescimentos deste século», para quem quisesse ver, já era claro: primeiro, a comparação é feita com um período em que o PIB desceu em 5 dos 17 anos e nos restantes as taxas de crescimento foram sempre inferiores a 2% com uma única excepção (2007); segundo, esses crescimentos são medíocres quando comparados com os actuais da EU28 e em particular com países níveis de desenvolvimento comparáveis, por exemplo com os países do leste que estão a crescer ao redor dos 4% ou mesmo acima dos 5% ; terceiro, os crescimentos actuais resultam de uma dinâmica externa (exportações e turismo) alheia às medidas do governo; quarto, se alguma coisa resultou as políticas de reversão das reformas do governo PSD-CDS foi o aumento dos salários dos funcionários públicos e o incentivo ao aumento da importações.

19/11/2017

CASE STUDY: Os "ricos" ou o futuro, a escolha socialista

O governo romeno do partido social-democrata (na verdade um partido socialista com a sigla PSD, integrando o Partido Socialista Europeu), para conseguir reduzir os impostos, aumentar os salários funcionários públicos e manter o investimento público sem violar o limite de 3% do défice, optou por reduzir de 5,1% para 3,75% a sua contribuição para os fundos de pensões privados do 2.º pilar, um pilar complementar da segurança social pública. Esta redução da contribuição do Estado estima-se que reduzirá em 20% as pensões futuras de 7 milhões de trabalhadores romenos.

Os fundos privados do 2.º pilar dispõem de activos de 10 mil milhões de euros e entre 2008 e 2016 tiveram rentabilidades anualizadas líquidas de 5,3%. Antes de reduzir a contribuição do Estado o governo tentou tornar opcional a contribuição individual para estes fundos o que levaria muitos dos contribuintes e o Estado a deixarem de descontar. (fonte FT)

Moral da história: para manterem as clientelas felizes, se podem aumentar a carga fiscal da classe média, a que chamam os "ricos", os partidos socialistas fazem-no sem hesitações, umas vezes recorrendo aos impostos directos (como tentou o PS francês de Hollande) outras aos indirectos (como o PS português); se não podem aumentar a carga fiscal, chutam para o futuro as facturas de felicidade presente das clientelas.

18/11/2017

Estado assistencialista falhado (17) - Uma espécie de vaca marsupial pública

João Abel Manta
Para se ter uma ideia do falhanço do Estado montado pelos colectivistas de todas as tendências, incluindo desde os comunistas durante o PREC e agora na geringonça em parceria com bloquistas, socialistas do PS e até aos do PS-D,  é suficiente ouvir este discurso de Centeno no parlamento sobre as «carreiras» e as «progressões» - onde o mérito não tem lugar - dos professores e dos restantes utentes da vaca marsupial pública para se perceber como a geringonça governa para a sua clientela eleitoral e que nessa clientela os funcionários públicos constituem a corporação principal que capturou o Estado extorsionário dos sujeitos passivos, no sentido fiscal e no sentido comum. É um Estado que representa a evolução natural do Estado Novo corporativista criado pelo salazarismo.

ACREDITE SE QUISER: Notícia seria matança de cozinheiro em congresso de cabritos

Expresso diário

17/11/2017

Nem só o Estado é amigo do empreendedor (10) - A maldição do jornalismo promocional, outra vez?

Como se poderá confirmar em outros posts desta série, o jornalismo promocional - uma variedade do jornalismo de causas - está frequentemente associado a uma maldição que leva as empresas promovidas a passar pelas maiores trapalhadas e no limite algumas delas a desaparecerem.

Espero que não seja o caso da Farfetch, uma plataforma de venda de artigos de luxo, o único unicórnio português - unicórnio segundo o jargão startápico é uma empresa tecnológica que foi avaliada em mais de mil milhões de dólares.

Mas receio que seja, porque desde 2007 até hoje, a Farfetch só perdeu dinheiro num total de quase 100 milhões de euros, dos quais 38 milhões só no ano passado, prejuízos que lhe comeram os capitais próprios negativos em quase 80 milhões de euros. É claro que existem a Amazon (desde a fundação), o Facebook (nos primeiros anos), a Tesla e várias outras empresas que perderam ou ainda perdem imenso dinheiro, crescem desalmadamente e estão cotadas em bolsa por dezenas ou centenas de vezes o seu valor contabilístico. Só que são todas elas empresas que criaram produtos ou serviços disruptivos o que não parece ser o caso da Farfetch. Pode ser que seja um unicórnio, mas até ver não apostaria neste cavalo.

Porém, a maior dúvida sobre o futuro radioso da Farfetch é a intensa paixão que está a provocar nos meios do jornalismo promocional, com destaque para o semanário de reverência que já tem um longo currículo de promoções falhadas.

DIÁRIO DE BORDO: E o Assange? E o Bill?

A lista de acusados de assédio sexual cresce todos dias. O último de que tenho conhecimento é o senador Al Franken que segundo o NYT foi acusado de beijar e apalpar uma apresentadora há 11 anos.

Desta vez é um senador democrata, haja Deus! O que me leva a completar a pergunta e o Assange? ainda falta muito? com e o Bill? Tudo porque Henrique Raposo, um rapaz sensível que também repudia a doutrina Somoza, se perguntava «já podemos destituir Bill Clinton?», recordando o vasto currículo do ex-presidente americano que culminou com o caso Monica Lewinsky, encerrado com a complacência das feministas democratas com um «I did not have sexual relations with that woman», dito com a argúcia de um advogado no distinguo entre coitus e fellatio e a linguagem corporal de um mentiroso consumado.

16/11/2017

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: O fingimento como forma de governar

«O segredo da actual solução de governo sempre consistiu num jogo de sombras políticas: o governo finge que dá mais do que efectivamente dá, e os partidos que o apoiam fingem que recebem mais do que efectivamente recebem. Este jogo infantil faz feliz a União Europeia, na medida em que o país lá vai cumprindo as metas sem chatear muito – e com o patrocínio, imagine-se, da extrema-esquerda –; faz feliz PS, Bloco e PCP, pois permite-lhes encherem a boca com o sucesso das reversões e com o esgarçado “virar da página de austeridade”; e faz felizes milhões de portugueses, estranhamente disponíveis para serem enganados. Contudo, há alturas em que o choque entre o simulacro de realidade e a própria realidade é inevitável, produzindo momentos absolutamente caricatos.

(...)

Neste jogo de sombras todos se mexem, todos dizem coisas, todos parecem desempenhar os seus papéis, mas ao fim do dia só sobra uma tremenda opacidade, porque ninguém fala claro. Não se percebe o que é que Mário Nogueira festejou, não se percebe o que é que o governo prometeu, e não se percebe o que é que os professores ganharam. O governo inventou ontem o descongelamento de carreiras sem impacto no Orçamento de Estado. O que é isso? Nenhuma ideia. Mas, por favor, palmas para os grandes artistas.»

Excerto de «Descongela e põe no frigorífico», João Miguel Tavares no Público

Mitos (266) - Diferenças salariais entre homens e mulheres (4)

Outros mitos: (1), (2) e (3)

Os pergaminhos académicos não impedem que se caia nas mesmas falácias de sempre, neste tema contaminado pela ideologia. É o caso do artigo «Coladas ao chão com um tecto de vidro» de Luís Aguiar-Conraria, no Observador, onde em substância se conclui, com base numa amostra de 640 mil trabalhadores, que «a desigualdade salarial média em Portugal anda na casa dos 20%. Por um lado, menos mulheres acedem a profissões bem pagas; por outro, mesmo dentro da mesma profissão, as mulheres têm salários menores.»

Ora, uma vez mais, a desigualdade de que trata Conraria não pode ser a desigualdade para trabalho igual, ou seja para a mesma função ou posto de trabalho. Se fosse, estaríamos perante situações ilegais em milhares de empresas. É uma desigualdade perante a "profissão" e o problema está no que é uma "profissão".

Usando uma pitada de reductio ad absurdum, se entendermos, por exemplo, que "funcionário público" é uma "profissão" teremos de concluir que as mulheres são melhor pagas nesta "profissão", como aqui já referi. A explicação é simples: as mulheres estão em larga maioria nos professores que têm salários mais altos do que a maioria dos funcionários públicos, o que explica ser o salário médio das mulheres funcionárias públicas mais elevado do que o dos homens.

Vejamos as conclusões mostradas no diagrama seguinte de um outro estudo, já citado aqui, baseado no que respeita à Grã-Bretanha numa amostra de 8,7 milhões de trabalhadores - uma dimensão 14 vezes superior à de Conraria.

Economist
Também nos 3 países citados existe uma desigualdade acentuada entre os salários de homens e mulheres quando se observa a totalidade da amostra, desigualdade que se reduz a quase nada quando se comparam os salários para o mesmo posto de trabalho, empresa e função.

Suspeito que se Conraria definisse com rigor os conceitos e se, um SE com maiúsculas, tivesse acesso a dados com o detalhe necessário e os trabalhasse com metodologias adequadas, chegaria a conclusões comparáveis. Ou seja a conclusão de que nas economias modernas se pratica o princípio de a trabalho igual, salário igual.

Repetindo-me, o que é desigual é o acesso a certas profissões ou funções, consequência de mais de uma centena de milhar de anos de divisão do trabalho por sexos. Divisão de trabalho que a evolução tecnológica está a tornar cada vez mais obsoleta e que acabará por desaparecer, mesmo sem a engenharia social baseada em ejaculações legislativas. Aliás, suspeito que essa engenharia social em duas ou três gerações terá de trocar a discriminação positiva das mulheres pela discriminação positiva dos homens que precisarão dela para compensar a confusão nas suas mentes resultante do conflito entre as suas hormonas e os comportamentos feminizantes induzidos e de uma escola cada vez mais formatada para ensinar o sexo feminino.

Sugestão de leitura para quem queira aprofundar o tema deste tipo de falácias: «Male-Female Facts and Fallacies», um capítulo de Economic Facts and Fallacies, de Thomas Sowell.