Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

22/06/2017

Por vezes o declínio é mesmo o declínio, dizem eles. E o que diremos nós?

Não é só a nossa classe política que se vem degradando. Leia-se aqui o que escreve o jornalismo inglês de referência (não, não é de reverência) sobre a classe política deles e em particular sobre os seus líderes:

«IT HAS been impossible to watch the general election without being haunted by a single question-cum-exclamation: surely Britain can do better than this? The best performer in the campaign, Jeremy Corbyn, the Labour leader, is a 68-year-old crypto-communist who has never run anything except his own mouth. Theresa May, the Tory leader, tried to make the election all about herself and then demonstrated that there wasn’t much of a self to make it about. As for Tim Farron, the Liberal Democrats’ leader, he looked more like a schoolboy playing the part of a politician in an end-of-term play than a potential prime minister.

(...)

Yet sometimes decline really is decline. Both Mrs May and Mr Corbyn want to extend the already considerable powers of the government, Mr Corbyn massively so. And both promise to lead Britain out of the European Union, a fiendishly complicated operation. Unfortunately, both candidates have demonstrated that they are the flawed captains of flawed teams. Mrs May broke the first rule of politics: don’t kick your most faithful voters in the teeth for no reason. Mr Corbyn has stood out in part because his team is so mediocre. Diane Abbott, his shadow home secretary, stepped down the day before the election citing ill health, after a succession of disastrous interviews.»

ARTIGO DEFUNTO: Se quisermos saber o que se passou no incêndio de Pedrógão Grande é melhor ler a imprensa espanhola (continuação)

Continuando a demonstração definitiva de como os mídia portugueses estão controlados pelos partidos da geringonça e a maioria dos jornalistas portugueses estão ao seu serviço e aproveitando os links deixados por um leitor neste comentário:


Enquanto omitem os factos que mostram a descoordenação total na resposta do governo ao incêndio, vão enchendo o vazio com as tretas de Marcelo que, à boa maneira de jurista, faz como aquele que, tendo como a única ferramenta um martelo, imagina todos os problemas como pregos, e exorta os órgãos legislativos a ejacularem com urgência resmas de leis para resolver os resultados das más políticas florestais que têm um século e os problemas de descoordenação do governo da geringonça na utilização dos meios, misturando tudo isso num caldo de afectos equívocos engrossado pelo nevoeiro informativo.

E o que dizer do parlamento que numa hora aprovou cinco propostas para reforma florestal que estavam na gaveta há dois meses? Com gente desta só é possível ter um simulacro de democracia, uma democracia asmática.

21/06/2017

Dúvidas (199) - Para que serve a política?

«Os oligarcas não querem que se “faça política” com a tragédia. Mas se não “fizermos política” com a morte evitável de 64 pessoas, para que serve a política? Só para festejar vitórias na Eurovisão?»

Rui Ramos no Observador

ARTIGO DEFUNTO: Se quisermos saber o que se passou no incêndio de Pedrógão Grande é melhor ler a imprensa espanhola

É a demonstração definitiva de como os mídia portugueses estão controlados pelos partidos da geringonça e a maioria dos jornalistas portugueses estão ao seu serviço. Enquanto isso Costa passeia a sua virgindade nos mídia e diz que o problema dos incêndios florestais levará uma década ou mais para resolver. Ninguém lhe pergunta o que ele fez há mais de uma década, enquanto foi entre 2005 e 2007 precisamente ministro de Estado e da Administração Interna de Sócrates, nem se teria sido preciso uma década para evitar a completa descoordenação dos meios existentes ao dispor do governo.

«Enquanto continua o trabalho de extinção, crescente indignação contra as autoridades para notícias que revelam falhas de coordenação graves  nas primeiras horas do fogo. Erros, que de acordo com sobreviventes, pode ter matado dezenas de pessoas.

Para a "rodovia da morte"

Maria de Fátima estava retornando de Coimbra no sábado quando soube que um incêndio afetou a área onde seu pai, um residente de Pedrógão Grande vive. "Quando liguei para me disse que era verdade que o fogo tinha cercado-los completamente e eles estavam em perigo , " ele diz Fátima disse à imprensa portuguesa. "Eu tenho que chegar à cidade e encontrar meu pai, mas quando nós tentamos para deixar a área e tomar o IC8 [a estrada que passa perto da área], a Guarda Nacional Republicana (GNR) ter cortado".

De acordo com Fátima, quando perguntou aos agentes da GNR, por onde deveriam sair da área, disseram-lhe que a Estrada Nacional 236 estava livre de perigo. Ao passar por esta via, no entanto, ela encontrou um cenário apocalíptico.

"A fumaça era tão densa que não se via absolutamente nada, tudo o que ficou para fora eram as chamas por entre as árvores", lembra Fátima. "Nós batemos em algo que estava no meio da estrada, e de repente um carro atrás colidiu com o nosso, e nosso pegou logo fogo. Queríamos sair do carro, mas também o calor era tão intenso que não sabíamos se seríamos capazes de sobreviver lá fora. "

(...)

"Eu não quero ver um político andando por aí, dando condolências. Eles deveriam ter estado aqui quando precisamos deles, eles e a GNR, eu deveria ter cortado as estradas e alertado sobre o que tinha de ser feito. Eles poderiam ter salvo muitas pessoas ...".

Por enquanto, a GNR não esclarece se os agentes espalhados pela na área no sábado cometeram o erro grave de que são acusados, mas o corpo policial prometeu abrir uma investigação para determinar o que falhou nos momentos cruciais.

Falta de informação

Entre os testemunhos de sobreviventes outra queixa frequente é a falta de informação por parte das autoridades, e o pânico que não viveu por não se saber se era necessário evacuar a área ou, caso contrário, esperar por ajuda.»

Excerto de «Los supervivientes del incendio acusan a las autoridades: “Nos arrastraron hacia la muerte”» de El Español

NÓS VISTOS POR ELES: A inoperância na luta contra os incêndios


Para contrariar a nossa tendência congénita para olhar para o umbigo e para a oscilação bipolar entre vermo-nos como o povo eleito e sentirmo-nos uns desgraçadinhos, deveríamos obrigar-nos a ler todos os dias ao pequeno-almoço uma avaliação das nossas obras feita pela estranja.

Para o pequeno-almoço de hoje aqui vai um excerto em portinhol do artigo de opinião com o elucidativo título «La inoperancia de Portugal en la lucha contra los incendios» que o jornal El Mundo publicou sobre os incêndios de Pedrógão Grande:

«Ontem, Portugal foi atingido por um terrível incêndio que causou mais de 60 mortes. É a tragédia com mais mortos em um único fogo em quase um quarto de século no mundo, um facto que revela as dimensões de um evento que revelou a ineficácia e a alarmante falta de recursos do Estado Português para lidar com incêndios florestais. Um flagelo que assola todos os anos com especial virulência o país vizinho, sem que as medidas proporcionadas sejam tomadas para combatê-lo.

A Polícia judiciária portuguesa acredita que uma tempestade eléctrica é a causa mais provável do incêndio, cuja rápida disseminação foi devida a "condições climáticas desfavoráveis", especialmente pela combinação de altas temperaturas e ventos fortes. Dezenas de moradores da região que circunda o município de Pedrógão Grande ficaram presos em um inferno de chamas e muitos deles pereceram queimados em veículos em que estavam tentando fugir. Outros morreram carbonizados em plena rua. As autoridades portuguesas, completamente ultrapassadas, mobilizam mais de 700 efectivos. Um dispositivo claramente insuficiente para controlar, conter e, finalmente, para apagar um incêndio de proporções tão devastadoras.

Não é aceitável que, no século XXI, num país da União Europeia um incêndio florestal possa causar um número tão elevado de mortes. Especialmente tendo em conta a história dos últimos anos. O que mostra este terrível episódio é que, hoje, Portugal não está preparado para lidar com o fogo. Nem tem realizado trabalho preventivo adequado, nem sequer dispõe de um dispositivo ideal para controlar, conter e extinguir incêndios, o que revela não só a ineficácia de suas equipes, mas uma preocupante ausência de meios. A crise e o resgate reduziram significativamente a capacidade de investimento do executivo Português. Mas isto não é razão para ignorar uma ameaça tão séria e preocupante como a do fogo, cujas consequências dramáticas excedem os danos ambientais.»

20/06/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (88)

Outras avarias da geringonça.

O título desta crónica pode induzir o leitor a pensar que aqui em casa se prevê a avaria iminente da geringonça. O que prevejo não é a iminência, é a irreparabilidade que pode levar ainda algum tempo, dependendo de várias circunstâncias. Contra-intuitivamente, uma das circunstâncias é o aumento das intenções de voto no PS que se arrisca a pôr nervosos os comunistas, fazendo-os sentir-se supérfluos, e demasiado excitados os berloquistas. Um bom indicador do nervoso comunista é o aumento de 36% até Abril do número de greves em relação à paz nupcial do mesmo período do ano passado.

Seja como for, como ainda há dias aqui referi, os 44% de intenções de voto nas últimas sondagens devem fazer-nos lembrar os 41% do PS de José Sócrates em Março de 2010 a um ano do resgate.

DIÁRIO DE BORDO: já dei que chegue para o peditório dos incêndios (mas não resisto a dar mais uns trocos)

Ao contrário do que dizem alguns maledicentes, a calamidade resultante do incêndio de Pedrógão Grande não se deve ao governo, nem aos Kamov parados comprados com a ajuda do amigo Lacerda Machado, nem ao engavetamento do Plano Nacional contra Incêndios, nem à ineficácia da protecção civil. Deve-se à trovoada seca e ao aquecimento global. O que devemos ao governo é a prosperidade que atravessamos, prosperidade que os mesmos malecidentes atribuem ao turismo e à conjuntura internacional (para já não falar ao governo anterior).

A sério: é claro que este governo tem culpas no cartório e tem uma enorme falta de vergonha, ajudada pela falta de discernimento dos eleitores, quando procura ter créditos do que não fez e foge com o rabo à seringa do que tem responsabilidades. Contudo, o ponto a que chegámos é o resultado de mais de um século de políticas erradas e incúria. Desde pelo menos 04/09/2005 que venho escrevendo sobre este tema - para não maçar os leitores remeto apenas para o último desses posts - e não vou repetir-me.

Tal como uma dívida de 130% do PIB demoraria décadas a atingir a sustentabilidade e não se paga com afectos, beijinhos, abraços e selfies de Marcelo, nem com as manobras e prestidigitação de Costa, também os incêndios florestais não se resolverão com as mesmas tretas - aliás, parte dos incêndios florestais nunca terá solução e, não, não apenas pelas mudanças climáticas.

Correndo o risco de ser amaldiçoado pelo politicamente correcto e a hipocrisia dominante, faço um prognóstico com elevada probabilidade de se concretizar: a uns dias ou semanas de luto, a donativos de gente generosa e bem intencionada e outra nem por isso, a concertos de solidariedade, seguir-se-ão uns meses ou anos de masturbação teorética, serão produzidas mais ejaculações legislativas, serão criados mais organismos onde poderão ser alojados mais ASPON (assessores de porra nenhuma, como dizem os brasileiros) da família César ou de outras, serão adjudicados mais uns contratos com a assessoria de lacerdas e uns anos e vários milhões de euros depois estaremos mais ou menos no mesmo sítio.

19/06/2017

Mitos (257) - Macron não tem aparelho partidário (actualização)

Neste post de 30 de Abril escrevi:

Depois da esperada vitória de Emmanuel Macron na primeira volta das eleições presidenciais francesas, e da menos esperada completa derrota do candidato socialista Benoît Hamon (que entretanto teria tentado montar uma estratégia «brinquebalante», inspirada no zingarelho de Costa), começou a circular entre a comentadoria doméstica a ideia de que Macron não teria um aparelho partidário e ficaria dependente dos partidos estabelecidos, nomeadamente do PS.

Macron não tem um partido? Ça dépend de ce qu'on entend par parti. O En Marche!, a organização que suporta Macron, tem 250 mil membros, o dobro do Partido Socialista francês. E não esqueçamos a história dos partidos em França, nomeadamente a criação do RPF (Rassemblement du peuple français) a partir do nada, por Charles de Gaulle em 1946, e a refundação por François Miterrand do PS francês no congresso de Épinay em 1971, a partir dos cacos dos grupúsculos de inspiração socialista.

Resultados da 2.ª volta:

L'Express
Os franceses têm uma espécie de novo RPF. Irão agora procurar um novo François Miterrand para refundar o PS francês que em 5 anos que caiu de 280 para 29 deputados?

O politicamente correcto é inimigo da ciência

Há já alguns anos escrevi aqui: as ideologias, em particular os fascismos, como o comunismo, o nazismo, o fundamentalismo islâmico, sem esquecer o politicamente correcto, são inimigas da ciência. Todos os dias temos exemplos disso e ao ler a peça «Onde se meteu a “correcção política”» de Vasco Pulido Valente encontrei mais um.

Como escreve Pulido Valente, tal como a maioria dos portugueses, não li a Bíblia nem senti a necessidade de lê-la e não sei se faço parte da pequena parte dos indígenas que ainda conservam alguma coisa dentro da cabeça pelo que a tradução da Bíblia de Frederico Lourenço talvez não venha a dar-me uma grande ajuda.

Por tudo isso, só confiando na erudição e no discernimento (há boas razões para tal) e na imparcialidade (as razões são menos boas) de Pulido Valente, posso acompanhá-lo na sua conclusão de que a tradução de Frederico Lourenço está irremediavelmente contaminada pelo politicamente correcto ao ponto de traduzir  “Filho do Homem” por “Filho da Humanidade”«por causa da “sensibilidade de género”, que de resto se manifesta pela tradução inteira: onde aparece “homem”, se possível Lourenço escreve “ser humano”, enquanto as mulheres são sempre mulheres. Esta conformidade estúpida ao “politicamente correcto” data e deforma a tradução, além de a tornar inútil para qualquer construção teológica. (...) Falta dizer que na sombra pesa o movimento a favor do sacerdócio das mulheres.»

Sendo assim, Frederico Lourenço é mais um dos que em nome das «boas causas» perverte insidiosamente o seu trabalho. Dirão, no domínio inofensivo da “sensibilidade de género”, destes expedientes não vem mal ao mundo. Mas vem, porque é o reflexo da mesma atitude que legitima a pós-verdade e os factos alternativos que, com outros nomes, é tão velha quanto a humanidade. Com essa atitude e em nome de variadas causas já se exilou, prendeu, queimou, torturou e assassinou.

18/06/2017

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (158) - Zangam-se as comadres...


Tudo começou com Manuel dos Santos, um eurodeputado socialista, a chamar cigana a uma deputada socialista concitando ondas de indignação entre os correligionários, os berloquistas e em geral as hostes do politicamente correcto.

Tal indignação é difícil de entender por um agnóstico como eu, visto que os indignados parecem acreditar não haver razões para considerar a etnia «cigana» inferior ao «homem branco», como se sabe o responsável pelas desgraças de que padece a humanidade. No entanto, não consideram ser ofensivo chamar homem branco a qualquer pessoa, por exemplo a um «cigano».

À frente dos indignados socialistas surgiu o chefe Costa que prontamente insultou Manuel dos Santos apodando-o de «uma vergonha para o PS». Que isto seja uma ofensa é discutível por um agnóstico como eu que tem do PS a ideia que tem.

No dia seguinte, por uma extraordinária coincidência, tornou-se público que Manuel dos Santos há vários meses «tem dois genros a trabalhar para si com verbas do Parlamento Europeu. Ambos residem em Portugal e prestam serviços ao eurodeputado com as verbas disponibilizadas pelo Parlamento Europeu para esse efeito». Menos de 24 horas depois, a notícia propaga-se mais depressa do que a contratação de meia dúzia de criaturas da parentela de César.

Moral da estória, se a estória tivesse moral: zangam-se as comadres descobrem-se as verdades.

Chávez & Chávez, Sucessores (57) - Ponto de situação

Outras obras do chávismo.

Vamos na 11.ª semana consecutiva de manifestações contra o governo socialista do herdeiro de Chávez, durante as quais 70 pessoas foram mortas e vários milhares foram feridas. Além da eliminação das liberdades, Maduro está a destruir o que resta da economia venezuelana que enfrenta uma inflação de três dígitos, a maior recessão do mundo e a falta absoluta de bens essenciais. Entretanto, Maduro pretende acabar com o que resta das instituições legítimas e montar uma assembleia constituinte que aprove uma nova constituição que garanta a perenidade do regime chávista.

Registo que uma das manas Mortágua se distanciou das obras do chávismo escrevendo um artigo com o título ternurento «Venezuela meu amor», talvez inspirado no "Hiroshima Meu Amor" de Marguerite Duras e na devastação que o Little Boy lançada do B-29  Enola Gay infligiu a Hiroshima, devastação que o chávismo está a levar a cabo à escala de um país.

Escreveu Joana Mortágua, dando uma bicada aos comunistas que continuam a incensar o chávismo; «A esquerda de que faço parte nunca foi ambígua sobre a condenação de regimes que oprimem o povo e sufocam a democracia. Isso vale para Angola e para o regime venezuelano. Não sei exactamente qual a esquerda de que faz parte Joana Mortágua, mas não recordo ter o Bloco de Esquerda condenado o regime chávista.

17/06/2017

ARTIGO DEFUNTO: A pobreza das crianças dos países ricos é a riqueza das crianças dos países pobres

Se há coisas que na melhor hipótese se prestam a mal-entendidos, e frequentemente a demagogia, é a pobreza e a riqueza. Como quando se confunde pobreza absoluta com pobreza relativa e se esquece que  o índice de pobreza relativa é muito mais uma medida da desigualdade de distribuição do rendimento do que uma medida da pobreza.

Inevitavelmente, o nevoeiro conceptual presta-se a simplificações demagógicas nos mídia, por vezes até inesperadamente em jornais como o Observador que para noticiar o relatório da UNICEF «The State of the World’s Children 2016: A fair chance for every child« recentemente publicado escolheu o título «20% das crianças em países ricos vivem em pobreza».

Fonte: Rankings by Country of Average Monthly Net Salary (After Tax) (Salaries And Financing)

Sendo considerada em situação de pobreza relativa uma família cujos rendimentos são 60% inferiores ao salário médio nacional, qual é o sentido de comparar uma família pobre nas ilhas Bermudas com um rendimento mensal de 2.700 euros com o de uma família pobre na Venezuela com um rendimento mensal de 17 euros. En passant, note-se que o rendimento médio num território capitalista como as Bermudas (4.638 euros) é 162 vezes maior do que num país socialista como a Venezuela (28,65 euros). Se não quisermos exemplos tão extremos, consideremos dois países europeus como a Suíça (4.420 euros) e a Albânia (260 euros). Se ainda assim for demasiado, compare-se o salário médio da Alemanha (2.158 euros) com o de Portugal (818 euros).

Para citar um livro recente sobre o mau uso das estatísticas, diria que comparar uma criança pobre em Portugal, para não ir mais longe, com uma criança pobre no Uganda, é assim como dizer que os seres humanos têm em média um testículo.

Pro memoria (346) - Estúpido não será. Talvez ignaro

Helena Garrido é uma das jornalistas apreciada aqui no (Im)pertinências e com quem concordamos frequentemente. Também gostaríamos de concordar com o que escreveu aqui e principalmente com a conclusão, mas temos muitas dúvidas:
«O regime está muito mais doente do que parece. Casos como a TAP, Carlos César ou EDP são apenas a ponta do iceberg. Os políticos e a justiça andam a brincar com o fogo. O povo não é estúpido.»
Estúpido não será. Estúpidos são indivíduos, mas não se pode dizer o mesmo dos povos. Mas não teria (e tem ainda) razão Alçada Baptista quando na sua «Peregrinação interior» escreveu «Este povo ignaro e atrasado»?

Como explicar de outro modo, os resultados das últimas sondagens que quase 70% dos portugueses a terem mais confiança em Costa como primeiro-ministro, o PS com quase 44% de intenções de voto e quase 90% dos portugueses a considerem que Marcelo tem actuado bem?

Talvez nos devamos lembrar de Março de 2010, a um ano do resgate e depois dos casos TVI e "Face Oculta" em que Sócrates e o PS estavam mergulhados até ao pescoço, quando no DN se escreveu (a página original desapareceu misteriosamente, mas ainda é possível encontrar a citação no blogue O Jumento);

«Nem os mediáticos casos TVI e "Face Oculta", nem a avaliação negativa dos inquiridos ao desempenho do Governo parecem dados suficientemente fortes para abalar o Partido Socialista. Se hoje se realizassem eleições legislativas, José Sócrates seria reeleito com 41% dos votos. Uma percentagem quase cinco pontos superior ao resultado eleitoral do seu partido em Setembro último.

O PSD, em disputa acesa há meses pela liderança do partido, com Manuela Ferreira de Leite em breve a abandonar o cargo, aparece como a segunda força mais votada (33%), mas a uma distância significativa dos socialistas. Estes são alguns dos resultados de uma sondagem da Universidade Católica para DN, JN, RTP e Antena 1.»

Talvez estas sondagens sejam mais do mesmo e se possam comparar às de 2010.

16/06/2017

Qual destas notícias é falsa?


«Trump oferece asilo político a Alexei Navalny»

Putin himselfie
O do Kremlin, como o de Belém, também gosta de selfies
(com tropa em vez de criancinhas e velhinhas)

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (157) - A César o que é de César


Em comentário ao primeiro post sobre o amigo do Costa, nomeado para a administração da TAP, de quem Fernando Pinto, CEO da TAP há uma eternidade, desde os tempos do estradista Jorge Coelho, diz que «conhece a TAP talvez mais do que eu» (para quem duvida que conheça melhor, recordem-se os tempos de Lacerda na Gebalis que levou a TAP para o Brasil onde perdeu centenas de milhões), um leitor pergunta «E a sobrinha do César?».

Tem o leitor razão, mas não tem toda a razão. A sobrinha é apenas uma das pessoas da parentela de César a quem ele arranjou tenças públicas, como aqui recorda João Miguel Tavares: «Quase todos os familiares directos do líder parlamentar do PS estão em cargos de nomeação ou eleição política. A mulher. O filho. A nora. O irmão. E, agora, a sobrinha, contratada pela Gebalis (empresa municipal de Lisboa) depois de sair da Junta de Freguesia de Alcântara (do PS, claro).»

Esclarecimento a este comentário de um outro leitor sobre «uma interpretação "sui generis" daquilo do "a césar o que é de césar"»:
Os funcionários públicos são empregados do Estado Sucial que dispõe dos empregos. A esquerda em geral e o PS em particular são os donos do Estado Sucial; César é o presidente do PS ergo César é um dos donos do Estado Sucial ergo isso dá a César o direito de dispor do que é de César, em particular dar empregos à família de César. Quod erat demonstrandum.

15/06/2017

Ainda falta muito para a poligamia ser uma unidade familiar poliamorosa?

Unidade familiar poliamorosa
Sábado passado, em Medellín (outrora a capital da cocaína na América do Sul), três criaturas do outrora chamado sexo masculino, sobreviventes de um grupo de quatro (o quarto não viveu o suficiente para partilhar de tamanha felicidade), «consumaram o matrimónio através de um notário, que validou a união estabelecendo-os como uma unidade familiar poliamorosa» (Público), outrora chamada unión de maricones.

Não se percebe porque continua a ser estigmatizada a poligamia (e a poliandria). Afinal são unidades familiares poliamorosas.

CASE STUDY: Trumpologia (20) - Quem é que ele nos faz lembrar?

Mais trumpologia.

Segunda-feira, Donald Trump fez uma espécie de edição especial de The Apprentice numa reunião do governo, convocando os mídia para assistir ao show onde exaltou as suas realizações e se comparou a Roosevelt com esta tirada magnífica de bazófia:
«Never has there been a president, with few exceptions — case of FDR, he had a major depression to handle — who has passed more legislation and who has done more things than what we’ve done.» 
Alguns secretários de Estado produziram homéricas lambidelas no ego do Donaldo, como o secretário da saúde Tom Price que disse sem se rir «"what an incredible honor it is” to lead his department “at this pivotal time under your leadership.”»

Trump está longe de ser o único egomaníaco de serviço nas presidências, embora seja provavelmente o mais descarado. Até nós, habitualmente deprimidos, tristes e lamurientos, atravessamos um período de euforia (que acabará na depressão, como a história mostra), estimulados pelo inquilino de Belém. Inquilino com certos aspectos comparáveis, com as diferenças inevitáveis que vão entre um presidente dos Estados Unidos e um presidente de Portugal - aos olhos do outro uma espécie de mayor de uma cidade do interior. Ora vejamos algumas equivalências:

14/06/2017

ARTIGO DEFUNTO: PIB e consumo per capita segundo o jornalismo de causas económicas

O Eurostat publicou há poucos dias os «GDP per capita, consumption per capita and price level indices» de onde extraí o diagrama seguinte que mostra o PIB e o consumo per capita portugueses abaixo da média EU28 sendo o primeiro mais abaixo, confirmando o que sabemos: vivemos em termos relativos (e absolutos) acima das nossas posses ou, para sermos precisos, acima do que produzimos.

Se consultarmos o quadro «Volume indices per capita, 2013-2016» no mesmo documento, verificamos ainda que entre 2013 e 2016 o PIB per capita português permaneceu invariável em 77% da média EU28, ao passo que o consumo per capita aumentou ligeiramente de 81% para 82%, confirmando que consumimos mais do que produzimos em termos relativos e desmentindo as teses miserabilistas alimentadas pelos delírios da esquerdalhada sobre os efeitos da austeridade. Dito de outro modo, em termos relativos produzimos o mesmo mas consumimos ligeiramente mais.


Chegados aqui, vejamos o que nos diz o jornalismo de causas económicas que, omitindo a relação entre consumo e PIB, como se pudesse consumir sem produzir, parece ter subjacente a doutrina da Mouse School of Economics postulando que do aumento dos salários e do consumo decorre necessariamente o aumento da produtividade e o produto. Dois exemplos:

Consumo per capita em Portugal fica abaixo da média europeia
A diferença entre os países da UE vai de 53% a 132%, sendo Portugal o sétimo país com a média mais baixa. (Económico)

Consumo “per capita” em Portugal está entre os mais baixos da Zona Euro
O consumo “per capita” em Portugal continua 18% abaixo da média da União Europeia. E é um dos mais baixos entre os membros que partilham o euro (Negócios)

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (156) - O amigo do Costa (II)

Continuação daqui.

«O problema é outro, é o passado, o longínquo, há mais de dez anos, quando esteve do lado da Geocapital no negócio da TAP no Brasil. A Geocapital entrou com a TAP, saiu e a TAP ficou, o resto é história. E muitos prejuízos. Bem se pode dizer que, provavelmente, a TAP não teria as rotas para o Brasil se não tivesse comprado a VEM. Não temos o contra-factual, sabemos que a TAP perdeu centenas de milhões ao longo dos anos nesse negócio de manutenção. Lacerda Machado fez o seu papel, defendendo outros interesses, legítimos, à data. Deveria, por isso, manter uma distância saudável da TAP e de funções, mesmo não executivas. Mas também é o passado recente, a forma como esteve a trabalhar, sem qualquer contrato para o Estado, ou antes para António Costa. Em vários dossiês, sem qualquer tipo de ‘accountability’ pública de nenhum dos órgãos de soberania, nem sequer da sociedade, porque não se sabia a sua função nem o seu papel. Foi corrigido? Foi, mas tarde.»

«Marcelo não é o presidente do Conselho», António Costa (o jornalista, claro) no jornal Eco

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (155) - O amigo do Costa

«Diogo Lacerda Machado, melhor amigo de António Costa, já esteve envolvido no negócio do SIRESP (segundo o socialista António Galamba, Lacerda Machado era advogado da Motorola, que integrou o consórcio vencedor) e na compra dos helicópteros Kamov (terá sido júri no concurso). Esteve, já com Costa como primeiro-ministro, envolvido na reversão da privatização da TAP, na resolução do caso dos lesados do BES, e ainda no acordo do CaixaBank com Isabel dos Santos para reduzir a exposição do BPI a Angola. Parece que ainda deu uma perninha no dossiê dos lesados do Banif e na tentativa de constituição de um “banco mau” para o sistema financeiro português.

Há mais. Revista Sábado, Abril de 2016: “Lacerda Machado é também administrador da Geocapital, uma sociedade de investimento sedeada em Macau e presidida pelo multimilionário Stanley Ho. O socialista Almeida Santos era presidente da mesa da assembleia geral. A Geocapital foi parceira da TAP na compra da Varig Engenharia e Manutenção, em 2005, mas dois anos depois saiu do negócio. A entretanto apelidada TAP Manutenção e Engenharia é o activo do grupo com mais prejuízos.” Eu admito que Lacerda Machado seja o Mourinho da negociação em Portugal, mas pergunto-me se tal currículo seria possível sem as amizades no PS e a confiança pessoal do primeiro-ministro.»

«Uma cultura política lastimável», João Miguel Tavares no Público

É claro que o PS não tem o exclusivo da ocupação do Estado pelos amigos e correlegionários. Para só citar os partidos do que se costumava chamar «arco de governação» - arco que hoje inclui a ménage à trois da geringonça -, o PSD e o CDS têm uma longa história de distribuição de lugares. Ainda assim, desde o fim do cavaquismo em 1995, o PS ocupou o poder em 16 desses 22 anos e, com a legitimidade que a esquerda se atribui a si mesma para controlar o Estado por «boas causas», não se poupou a nomeações de boys e bateu irremediavelmente a concorrência.

13/06/2017

ARTIGO DEFUNTO: Os espectros que pairam sobre o jornalismo de causas (ACTUALIZAÇÃO)

Resultados da 1.ª volta das eleições legislativas francesas (L'Express)

Decorridos cinco anos, faz sentido revisitar outra vez um artigo de opinião não assinado do Público, de 23-05-2012, a propósito das eleições presidenciais francesas que deram então a vitória a François Hollande e que o jornalista de causas de serviço na ocasião viu como uma reencarnação do espectro de 1848 do tio Karl e do tio Friedrich.

«Há um espectro que paira sobre a Europa. Um espectro que aponta para o fim de um ciclo de austeridade punitiva nos países vulneráveis à dívida, ao défice público e aos ataques dos mercados financeiros. Não chegou através de uma revolução, nem teve como arauto um revolucionário obediente a ideologias radicais. Bastou uma eleição democrática na França e a subida ao poder de um político centrista para que, num ápice, a Europa reflectisse a fundo sobre a sua caminhada para o caos.»

Títulos inspirados (70) - Talvez infectado pelos afectos e a boa disposição, o semanário de reverência está cada vez mais delirante

Expresso Diário de 12-06

Digamos que, com benevolência, a TAP e a SATA são, respectivamente, a 37.ª e a 13.ª piores companhias das 87 melhores entre as cerca de 250 existentes, a maioria delas inqualificáveis sob qualquer ponto de vista.

12/06/2017

O presidente do Brasil pediu para ser recebido? Outra vez a vichyssoise?

«"Houve um pedido do senhor Presidente da República Federativa do Brasil, supondo que podia estar em São Paulo amanhã [domingo] de manhã, e pediu para ser recebido", informou o Presidente, acrescentando que depois "surgiu um problema no programa do senhor Presidente da República Federativa e, pedindo muita desculpa, disse que não estava com disponibilidade de horário para poder aparecer"». (o jornal i titulou «Marcelo e Costa levaram ‘tampa’ de Temer»)

«O cancelamento do encontro "não foi recente", afirmou ainda. "Já sabíamos que não era possível, com muita pena nossa". "Os portugueses estão mal habituados", a "um Presidente da República e a um primeiro-ministro que, por virtude da situação estável (...) do país, têm uma disponibilidade constante que não é habitual noutros Estados"». (acrescentou o Negócios)

Porque será que este episódio me evocou uma visita ao Brasil em 2010 do engenheiro Pinóquio, cujos assessores inventaram ter Chico Buarque pedido ao presidente Lula para interceder junto dele Sócrates para lhe conceder a honra de o convidar a ele Chico?

A verdadeira obra de arte de Costa


«Mas a verdadeira obra de arte do primeiro-ministro é outra! Foi ter conseguido desvincular-se, ele e os seus ministros, do governo de Sócrates. Foi ter desligado este Partido Socialista salvador daquele outro Partido Socialista cangalheiro. Foi ter conseguido refazer a sua virgindade, suavemente, sem ruptura aparente, sem obrigar ninguém a desdizer-se ou a pedir desculpa, sem criar incómodos a ministros e sem dar argumentos a quem disser que o Partido tem duas caras. Foi ainda ter conseguido associar o Bloco e o PCP a este branqueamento inédito

«A obra-prima de António Costa», António Barreto no DN

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (87)

Outras avarias da geringonça.

Como seria de esperar numa economia cada vez mais descapitalizada (ver por exemplo «As 10 Questões do Colapso. Portugal: a provável derrocada financeira de 2016-2017» de João César das Neves), a produtividade não só não cresce, o que já seria um problema quando temos uma produtividade PPS inferior a 70% da média UE28, mas ainda se degrada.

Uma economia descapitalizada e, pior do que isso, que não investe o suficiente para compensar a depreciação do capital, e muito do que investe é em sectores de bens não transaccionáveis. Segundo o INE, sendo certo que no 1.º trimestre o investimento em máquinas e ferramentas cresceu 15%, o investimento em construção cresceu 8,5%, o maior aumento desde 2002 e o segundo maior desde 2000, e o crescimento em cadeia caiu de 5,9% para 2,1%. (Económico)

11/06/2017

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (154) - Os amigos socialistas são para as ocasiões socialistas

Um patologista no 10 de Junho é diferente de um patologista no 29 de Maio

«Alguém que dedicou toda a vida a estudar doenças e as suas origens a discursar num Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas só podia dar numa intervenção do 10 de junho fora do comum. Manuel Sobrinho Simões é médico e investigador e também presidente da comissão organizadora das comemorações e aproveitou o momento para falar de genética e até da responsabilidade de portugueses pela propagação de doenças raras. Isto tudo para concluir que os portugueses têm “uma mistura notável de genes com as mais variadas origens (...) somos de uma extraordinária diversidade genética“.» (Observador)

Sete anos e uns dias antes, o mesmo patologista, numa entrevista ao Expresso de 29 de Maio de 2010, disse a Clara Ferreira Alves, aka a Pluma Caprichosa, o seguinte, de que tomámos a devida nota neste post:

«Viemos (todos de África). E nós temos uma diversidade menor, nós e os galegos, do que qualquer outra pessoa na Europa. Somos iguais aos galegos. Mais longe de Adis Abeba. Éramos muito poucos. Se vinham seis pessoas, elas tinham características diferentes umas das outras, mas das seis só uma ou duas chegam ao ponto seguinte. Há uma espécie de efeito de gargalo.
(...)
Um geneticista dirá que é péssimo (termo-nos cruzado pouco).»

De onde temos de concluir: (1) ou bem o conhecimento sobre a genética dos portugueses evoluiu; (2) ou bem os portugueses são seres mutantes, (3) ou bem o presidente dos Afectos que organizou o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas achou que o país estava carecido de afecto e encomendou um discurso mais afectuoso ao Dr. Sobrinho Simões que não hesitou em contribuir para aumentar a auto-estima dos portugueses em vez de citar outra vez um ditado galego para nos descrever: quando se vê um galego numa escada nunca se sabe se vai a subir ou a descer.

10/06/2017

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (37) - Não desisti mas também tenho a mesma dúvida

Outras preces.

«Há pessoas de quem não se espera nada. E há aquelas de quem se espera tudo. O prof. Marcelo pertence às duas categorias. Em passeio nos Açores, o homem resolveu explicar o segredo da nossa felicidade, ele próprio: “Quando iniciei o meu mandato, achava que o país estava carecido de afecto e que era uma prioridade esse afecto. As pessoas estavam pessimistas, estavam cépticas, estavam crispadas. (…) o país estava perdido, corria tudo mal”. Então, como um anjo, surgiu o Salvador, ainda mais reluzente que o Sobral.

Com franqueza, já desisti de tentar perceber se o prof. Marcelo diz estas coisas a sério ou se se diverte a gozar com pategos.»

Excerto de «Cinco dias inúteis», Alberto Gonçalves no Observador

Brexit - Unintended consequences (3) - Um vencedor, um destroçado e vários vencidos num reino desunido

Fonte: The Economist

09/06/2017

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: Here we go again (14)

«Importações disparam 10,8% em abril. Défice comercial agrava»


«No 1º trimestre o comércio internacional de bens reforçou-se. Em abril, as exportações ficaram praticamente iguais e as importações dispararam. Défice comercial agrava-se 500 milhões de euros.»

Brexit - Unintended consequences (2)

Há um mês meio, escrevi aqui que a convocação de eleições intercalares proporcionaria a Theresa May legitimidade acrescida e estaria a revelar-se uma boa jogada. Muito por culpa dos seus erros políticos (para só citar um, a pirueta com o «dementia tax» do manifesto eleitoral foi um desastre), ajudados pela discrepância entre a pose de estadista e o discurso de firmeza, por um lado, e as tergiversações e as piruetas, por outro, revelou-se uma péssima jogada.

May perdeu a maioria e perdeu a autoridade de que se queria investir para uma negociação dura com a Comissão Europeia. Pela segunda vez em pouco tempo, o Partido Conservador deu outro tiro no pé: o primeiro de Cameron ao prometer o referendo com receio de perder as eleições criou um problema que o eleitorado não sentia como tal e o segundo de May ao querer ganhar força e legitimidade a perdeu.

May não foi a única a perder com estas eleições. Depois de ter ganho o referendo, o UKIP desapareceu do parlamento, Nicola Sturgeon e o SNP afundaram-se literalmente, perdendo quase 40% dos lugares no parlamento, e a facção pró-Europa do Partido Trabalhista irá ser engolida pelos lunáticos de Corbyn que, tendo aumentado 36 lugares e apesar de estarem a 60 da maioria, cantam vitória e dizem-se prontos para governar.

Suspeito que o Brexit vai espoletar uma recomposição das forças políticas do Reino Unido comparável à da Holanda e da França.

DIÁRIO DE BORDO: Somos todos Cannes? E se Oscar Wilde não tivesse razão?

Um dos filmes mais aplaudidos, com o prémio da melhor actriz, no festival de Cannes, uma reunião da cinefilia decadente bem-pensante, foi «Aus dem nichts» (Fora de nada).

O tema central - um atentado terrorista - não podia ser mais actual num festival de cinema em França, palco recente de vários atentados do terrorismo islâmico, e num filme produzido e localizado na Alemanha onde o mesmo terrorismo constitui uma séria ameaça. Se estavam à espera de um ataque bombista por terroristas islâmicos a pacíficos cristãos, esqueçam. Deveriam esperar um ataque bombista por terroristas nazis a pacíficos muçulmanos. Passo a palavra ao crítico do Público in loco:

«Uma alemã (Diane Kruger) perde o marido, de origem turca, e o filho num ataque bombista perpetrado por um grupo de extrema-direita. Mas a decisão do julgamento não lhe permite fechar o trabalho de luto e ela decide fazer justiça pelas próprias mãos. O cineasta Fatih Akim, alemão de origem turca, não esconde que a sua empatia está com a personagem de Katja, porque ela é o corpo daquilo que pode estar adormecido em cada um de nós – o justiceiro – e, segundo o próprio realizador, “deve continuar adormecido”».

E assim se vê que Oscar Wilde, de quem dizem ter dito «a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida», pode muito bem ter-se enganado.

08/06/2017

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (153) - A aldrabice na Praça do Município, como em S. Bento

«Comissão sobre obras na Segunda Circular começou e acabou em vinte minutos. A maioria socialista bloqueou a audição de técnicos e o PSD saiu da sala em protesto. Fernando Medina despachou a questão em poucas linhas.( ...) E assim se concluiu a comissão de inquérito às obras de requalificação da Segunda Circular.» Foram as palavras insuspeitas do Público, um dos diários oficiais da geringonça.

«Todos os dirigentes intermédios da Câmara Municipal de Lisboa — são 135 — estão em funções há anos sem que alguma vez tenha sido aberto um concurso para os lugares que ocupam, como manda a lei. O problema arrasta-se desde a gestão camarária de António Costa e Fernando Medina não o resolveu.» (Observador)

Coloquemos os 135 dirigentes em funções sem concurso no contexto de Parkinson na câmara de Lisboa e consideremos que quando Costa tomou posse já andavam pela câmara uns dez mil apparatchiks, hoje, passados 9 anos, com o herdeiro Medina, a capacidade de manutenção de tenças mantém-se (ver quadro seguinte extraído do Mapa de Pessoal 2016). É uma tença por cada 55 residentes - o dobro de Madrid ou Barcelona.

DIÁRIO DE BORDO: De volta a servir a nossa freguesia...

... depois do acidente na cozinha. Agradecemos a preferência, as preocupações e os cuidados de alguns leitores.


Na verdade, cozinha foi uma metonímia. O acidente foi na oficina onde cozinhamos, quer dizer fabricamos, os pratos, quer dizer os posts, que aqui servimos à freguesia, quer dizer publicamos para os leitores. E deveu-se a vários fenómenos que, por acaso, até exemplificam porque o nosso PIB per capita ppp (ppp!) é apenas 60% do alemão.

Sim, qualquer triste e seco operário alemão, privado de afectos, desligaria o disjuntor antes de mexer numa instalação eléctrica, não juntaria condutores fase e neutro num circuito, faria o trabalho de acordo com um plano e, no final, não levaria quinze dias para completar um trabalho que tinha dito seria feito em cinco.

Enfim, este é o ponto de vista de um perigoso liberal. Um socialista prenhe de afectos acharia que tudo isso aconteceu porque o operário português ganha menos do que o alemão e se, além do afecto do presidente e da boa disposição do primeiro-ministro, pagássemos mais uns 70% ao operário português ele desligaria o disjuntor, não juntaria condutores fase e neutro e faria o trabalho em 1/3 do tempo. Dies zeigt deutlich, dass wir die Löhne erhöhen müssen!

07/06/2017

Títulos inspirados (69) - Dizer muito com poucas palavras

«Índice ISEG regista maior subida desde o tempo de Sócrates»

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (86)

Outras avarias da geringonça.

Devido ao incêndio na cozinha do (Im)pertinências, esta crónica atrasou dois dias e era para ficar um pouco mais comprida do que é habitual e o habitual já é comprido - pelo menos quando comparado com o os tweets do Donaldo. Para evitar indigestões dos fregueses cortou-se na dose.

Começo por mais um escândalo do regime, típico da promiscuidade do que se poderia chamar o bloco central informal dos negócios, um zingarelho com algumas semelhanças com a geringonça, a quem devemos uma parte substancial do apodrecimento do regime. Trata-se do caso dos CMEC da EDP que no mesmo pote mete pelo lado dos peões Mexia, Pinho e Sócrates, entre outros figurões, e pelo lado dos bispos corporativos o GES com o omnipresente DDT Ricardo Salgado. Muito provavelmente a operação em curso que já tem como arguidos Mexia e Manso Neto - aquela criatura com ar de sem abrigo de quem dizem ser muito competente - vai ficar em águas de bacalhau. Se não ficar, abro uma garrafa da viúva Cliquot para comemorar com a patroa.

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (152) - O passivo do PS é um bocadinho mais do que isso


Expresso, o semanário de reverência


06/06/2017

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (77) - É mais fácil encontrar um lince na serra da Malcata do que um liberal no Chiado

«Tendo a esquerda três partidos com representação parlamentar (já não estou a contar com o PEV e o PAN), parece normal que a mudança do xadrez partidário, se e quando acontecer, venha do centro ou da direita (por alguma coisa, projetos como o Livre e o Agir não encontraram eleitores). Mas tenho muitas dúvidas de que a mudança no xadrez político se possa fazer pelo lado liberal como alguns desejam. Não só o pensamento liberal sempre foi absolutamente minoritário, como evidentemente prevalece um enorme consenso na sociedade portuguesa sobre o modelo do Estado dirigista. O "pombalismo" domina a cultura política portuguesa há 200 anos, usando mais uma vez um termo de Miguel Real. Naturalmente, não creio que vá desaparecer agora.»

Excerto de «Uma democracia suspensa no tempo», Nuno Garoupa no DN

Como recordamos num dos nossos lemas, António Alçada Baptista disse há mais de 50 anos o mesmo por outras palavras: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.»

CASE STUDY: Trumpologia (19) - Obrigado Donaldo por os entreteres

Mais trumpologia.

They are all covfefe!
Por muito que se considere a presidência de Donald Trump um desastre para os Estados Unidos e para o mundo em geral, como eu considero, ao ler, ver e ouvir o turbilhão de referências obsessivas ao Donald nos mídia e de opiniões definitivas vindas das mais ignaras criaturas, deve reconhecer-se o seu papel extremamente positivo como entertainer do jornalismo de causas, dos opinion dealers, do exército do politicamente correcto e, em geral, da legião de patetas que povoa a Via Láctea.

Obrigado Donaldo por os entreteres e assim nos poupares a pachorra para os aturar.

05/06/2017

Pro memoria (345) - Costa, a geringonça, as corporações e o jornalismo de causas

«É um país radioso esse que agora se desenha nas televisões: Catarina Martins transformada numa espécie de holograma surge de cinco em cinco minutos querendo sempre alguma coisa apresentada como indiscutivelmente piedosa: Catarina quer acabar com a fome e logo Catarina sorri compungida para umas crianças sentadas em bancos de escola; Catarina quer mais gastos em saúde e logo os olhos de Catarina surgem redondamente indignados enquanto uma voz off refere “os gastos com os privados” … Do lado do PCP a estratégia é outra: os líderes mantêm-se a recato e quando falam é para atacar a direita, as políticas de direita, os governos de direita e o que de direita este governo ainda não expurgou. Depois Jerónimo manda avançar ou entrar em letargia, Mário Nogueira, Arménio Carlos, Ana Avoila…

DIÁRIO DE BORDO: A lenda d'el Rei Dom Sebastião


A semana passada, João César das Neves na conferência "O mistério da Economia Portuguesa", durante a cerimónia de entrega do Prémio Carreira da Católica, enumerou não um mas vários mistérios e comparou a situação de Portugal nesta conjuntura plena de afectos e de boas notícias à de um doente com cancro (na circunstância, um processo de destruição de capital iniciado há décadas) que anda muito bem dispostinho.

A mim faz-me lembrar uma velha estória dos meus tempos da escola primária de uma criatura com um grave problema de diarreia persistente que o perseguia há anos, atormentando-lhe a psique e alimentando-lhe uma depressão crónica. Após inúmeras consultas sem sucesso a médicos especialistas, lamentou-se a um amigo que lhe recomendou um psicólogo conhecido.

Algum tempo depois, o amigo encontrou-o e, reparando no seu aspecto eufórico em contraste com o antigo semblante atormentado, perguntou-lhe se tinha resultado a consulta. Que sim, respondeu entusiasmado. Passou-te a diarreia? perguntou o amigo. Que não, respondeu a criatura. continuo com diarreia mas já não me importo.

03/06/2017

DIÁRIO DE BORDO: Reabrirá em breve com o menu habitual (com mais picante) e alguns novos pratos

Recuperando de um acidente que deu cabo da cozinha, estamos a fazer o nosso melhor para voltar a servir a estimada freguesia.

Obrigado pela sua visita.

02/06/2017

Mitos (256) - O terrorismo no país dos brandos costumes

Ainda a propósito do terrorismo, convirá recordar que as FP-25, uma organização clandestina da extrema-esquerda defensora da luta armada com pretextos políticos, fundada por militantes da Brigadas Revolucionárias (um braço armado do PRP de Carlos Antunes e Isabel do Carmo), da ARA (um braço armado do PCP) e da LUAR (um braço simplesmente armado) da qual Otelo Saraiva de Carvalho se prestou a ser uma espécie de relações públicas. Entre 1980 e 1987 as FP-25 executaram dezenas de atentados a tiro e com explosivos e assaltos a bancos, repartições de finanças e empresas para se financiarem. Foram responsáveis por 17 mortes, incluindo 4 dos seus militantes, num pequeno país com 10 milhões de habitantes.

Muitos desses actos podem caracterizar-se como terrorismo no sentido da definição proposta por Kofi Annan nas Nações Unidas:
«Any action constitutes terrorism if it is intended to cause death or serious bodily injury to civilians or non-combatants with the purpose of intimidating a population or compelling a government or an international organization to do or abstain from doing any act.» 

SERVIÇO PÚBLICO: Falta de memória (e de vergonha)

Interrompendo as obras só para chamar a atenção para o grave problema de falta de memória de Portugal segundo João Miguel Tavares, no Público.

01/06/2017

DIÁRIO DE BORDO: Encerrado temporariamente para obras

Abrirá dentro de dias com a mesma gerência. Obrigado por nos ter visitado.

31/05/2017

Um governo à deriva (32) - Não precisamos de um banco mau porque já temos vários


Lost in translation (292) - Costa revê o outlook das agências de rating e ameaça baixar-lhes a notação

Numa entrevista, conduzida presumivelmente em portinhol por uma correspondente espanhola do jornal alemão Handelsblatt, que também tem uma edição em língua inglesa, António Costa faz várias considerações sobre as agências de rating e a notação atribuída à dívida portuguesa e conclui: «Vão ter de mudar esses ratings se quiserem permanecer credíveis». (fonte)

O que quereria a criatura dizer com isso que disse? Apesar de não haver razões para ter as agências de rating em grande conta, não seria de esperar ser o governo a mudar as suas políticas e a sua gestão da coisa pública para se tornar credível e as agências de rating lhe alterarem a notação?

Sabe-se lá porquê, recordei a observação de Filomena Mónica citada aqui a respeito dos cábulas. «Comecei a ensinar em 1974 a alunos que, dizendo-se trotskistas, pretendiam ter boas notas sem estudar. Por julgar que o meu papel não consistia em ajudá-los a entoar disparates, mas em estimulá-los a pensar, não cedi».

30/05/2017

ACREDITE SE QUISER: Ceteris Paribus

Segundo as estimativas de Carlos Tavares e Carlos Alves em «A banca e a economia portuguesa», se a partir de 2000 o crédito concedido pela banca «tivesse sido investido com uma eficiência igual ao seu custo (depreciação e uma taxa de juro real de 2% ao ano), o PIB seria hoje de mais quase 40 mil milhões de euros (24% acima do existente). Pobre é, muitas vezes, não tanto quem não tem dinheiro mas quem gasta mal pouco dinheiro que tem.» (Daniel Bessa no Expresso de sábado passado)

De onde podemos concluir, uma vez mais, que o principal custo da corrupção não é o dinheiro apropriado pelos corruptos e corruptores (a legião dos Oliveiras Costas, Sócrates, Salgados, e tutti quanti), tudo por junto umas dezenas de milhões. O principal custo da corrupção são as consequências das decisões de investimento (real ou imaginário) tomadas sob influência da corrupção. Aqui, sim, aplica-se o multiplicador... da corrupção - um milhão de euros de luvas para fazer um elefante branco de dezenas ou centenas de milhões, por exemplo um aeroporto que só abria, abre ou abrirá aos domingos, ou a modernização das escolas secundárias pela Parque Escolar.

É claro que a corrupção floresce na atmosfera pútrida do Estado Clientelar a que em Portugal se chama Estado Social.

DIÁRIO DE BORDO: Consequências talvez indesejadas

Desapontada com o desapego de Trump pelo artigo 5.º do tratado da NATO (*) e a pressão para que todos os sócios do clube paguem a sua parte na festa, Angela Markel disse no domingo num comício em Munique que «estão a ficar para trás os tempos em que podíamos contar com outros».

Haverá quem tenha concluído dessas palavras que a Óropa iria tomar conta de si e disfarce mal o regozijo por pensar ver-se livre do abraço do urso do outro lado do Atlântico. Quem assim pensa, deverá pensar outra vez, por várias razões que a história ilustra, para além da óbvia (Trump é apenas o 45.º presidente americano e até pode vir a ser impugnado): (1) o abraço do urso do outro lado dos Urais é muito mais sufocante; (2) numa Europa amante da paz entregue a si própria e sofrendo das fantasias do softpower a «questão alemã» voltará à agenda e (3) last but not least para quem já está empenhado, a festa não é barata,

 Artigo 5
As Partes concordam em que um ataque armado contra uma ou várias delas na Europa ou na América do Norte será considerado um ataque a todas, e, consequentemente, concordam em que, se um tal ataque armado se verificar, cada uma, no exercício do direito de legítima defesa, individual ou colectiva, reconhecido pelo artigo 51.° da Carta dias Nações Unidas, prestará assistência à Parte ou Partes assim atacadas, praticando sem demora, individualmente e de acordo com as restantes Partes, a acção que considerar necessária, inclusive o emprego da força armada, para restaurar e garantir a segurança na região do Atlântico Norte.

29/05/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (85)

Outras avarias da geringonça.

«“Trata-se de uma grande vitória para Portugal”. Quem disse isto? Não, não foi este mês de Maio de 2017. A declaração é do ex-primeiro-ministro José Manuel Durão Barroso, a 28 de Abril de 2004, quando anunciou a saída de Portugal do Procedimento por Défices Excessivos (PDE) em que tinha entrado em 2002.» Recordou Helena Gameiro, a propósito do embandeiramento em arco que assaltou os prosélitos mais excitáveis da geringonça e que curiosamente, mas não estranhamente, deixou Costa a fazer exercícios de prudência.

Prosélitos que distraidamente se embeveceram com «o Ronaldo do ECOFIN» de Schaüble a propósito de Centeno, boutade que é a confirmação de que o governo socialista suportado pela geringonça está a adoptar as políticas que combateu, o que seria positivo se não fosse uma deriva absolutamente oportunista a deixar cair na primeira curva.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Há elogios que são enxovalhos para quem os ouve vindos de onde vêm

Quando se tornou conhecido que o execrável Schaüble apelidou Centeno de «o Ronaldo do ECOFIN», os tambores do jornalismo de causas socialistas rufaram exaltando o momento. Dias mais tarde reincidiram e foram mais longe. Desta vez, segundo a imprensa apologética, Schaüble teria dito ser Centeno «uma estrela no Ecofin». Não perceberem que se Schaüble estivesse a falar a sério isso seria pior para a reputação de um ministro das Finanças e de um governo de um partido que fez o seu caminho a defender políticas antagónicas às de Schaüble, do que se Schaüble estivesse a gozar com Centeno.

Mas nem toda a gente estava distraída. Por exemplo, o ex-embaixador socialista Seixas da Costa que escreveu este artigo no JN, reproduzido no seu blogue e amplificado pelo eterno pastorinho da economia dos amanhãs que cantam Nicolau Santos na câmara de eco do Expresso Curto. Leia-se o primeiro parágrafo que aqui no (Im)pertinências não teríamos dificuldade em subscrever:

«Só alguma saloiíce lusitana é que acha que a “teoria económica” da Geringonça é vista com admiração nos círculos preponderantes no Eurogrupo. É claro que eles podem achar curiosos os resultados obtidos, mas ninguém os convence minimamente de que tudo não decorre de um acaso pontual. Para eles, trata-se apenas de um "desenrascanço" conjuntural, fruto de alguma acalmia dos mercados, do efeito das políticas temporalmente limitadas do BCE, do salto das exportações (que entendem nada ter a ver com a ação do governo), do surto do turismo (por azares alheios e sorte nossa, como o “milagre do sol”), bem como do "pânico" de PCP e BE em poderem ver Passos & Cia de volta, desta forma “engolindo sapos” e permitindo ao PS surpreender Bruxelas com o seu seguidismo dos ditâmes dos tratado. Ah! Eles também constatam que a política de estímulo do consumo acabou por não ser o “driver” anunciado do crescimento. E que tudo o que foi feito está muito longe das imensas reformas que eles consideram indispensáveis, nomeadamente no regime laboral e nas políticas públicas mais onerosas para o OGE (Saúde, Educação, Segurança Social, Fiscalidade), por forma a promover uma redução, significativa e sustentada, da dívida. É assim uma grande e indesculpável ingenuidade estar a dar importância à "boca" do cavalheiro alemão!»

Nem mais!

Então, porque disse Schaüble o que disse, seja lá o que for que tenha dito? Conhecendo alguma coisa da cultura alemã (trabalhei com alemães uns 15 anos) arriscaria concluir que Schaüble estaria apenas a tentar incentivar o que lhe pareceu um comportamento menos irresponsável do que ele terá receado de um governo de socialistas apoiado por comunistas e bem-pensantes do radical chic.

28/05/2017

Mitos (255) - Os presidentes republicanos são melhores para a economia


Mitos (254) - O terrorismo está a aumentar (II)

Este post é um complemento deste outro a propósito de um comentário de um leitor via email, do qual extraio a seguinte passagem:

«(...) ninguém diz que o terrorismo na Europa está a aumentar, isso é uma distorção por parte dos meios de comunicação, um exemplo clássico da falácia do espantalho… o que nós dizemos é que o terrorismo islâmico na Europa está a aumentar, o que é totalmente diferente!

O próprio gráfico em si, concebido propositadamente para fazer passar uma determinada narrativa, é um exemplo acabado da velha máxima de que é possível mentir às pessoas recorrendo a estatísticas.»

Não creio que o gráfico tenha o propósito de passar uma narrativa, como se pode confirmar lendo o artigo de onde foi extraído e analisando um segundo gráfico que evidencia ser o terrorismo jihadista o mais mortífero desde 2001.


Seja como for, o meu post anterior faz parte de uma longa série, iniciada aqui há 7 anos com o propósito de desmontar narrativas ou, como agora se diz, factos alternativo e pós-verdade. Tem sido, com outro nome, uma espécie de fact check que só recentemente o Observador vulgarizou em Portugal. Neste caso e em concreto, o mito que pretendi desmitificar foi, como o título indica, «o terrorismo está a aumentar» - o terrorismo em geral, entenda-se - e a este respeito os factos não deixam dúvidas. Acrescento que também se pode concluir não ser até agora o terrorismo jihadista de inspiração religiosa mais mortífero do que foi o terrorismo de inspiração nacionalista do IRA ou do Euskadi.

27/05/2017

SERVIÇO PÚBLICO: A democracia liberal é uma criatura muito frágil



The Signs of Deconsolidation, Roberto Stefan Foa, Yascha Mounk

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: O socialismo costista acabou com a vida para além do défice

«O plano é claro: viabilizar o regime português, não através da iniciativa dos cidadãos em Portugal, mas das transferências europeias, confiando na velha complacência de Bruxelas. Daí, a obsessão com o défice, que é a grande contrapartida exigida pela Comissão. E daí, também, que tenha desaparecido aquela vida toda que antigamente havia para além do défice.»

Excerto de «Já não há vida para além do défice» um artigo de Rui Ramos no Observador cuja leitura integral se recomenda vivamente.

26/05/2017

Pro memoria (344) - Costa e a redução da dívida da câmara de Lisboa

A narrativa

«Num debate quinzenal pontuado pela troca de argumento em torno dos méritos herdados de anteriores executivos, o primeiro-ministro lembrou a líder centrista que "em 2009 estava a reduzir em 40% a dívida herdada na câmara de Lisboa" governada por Carmona Rodrigues, actual apoiante da candidatura de Assunção Cristas à autarquia da capital.» (Negócios)

Os factos

A dívida foi reduzida à custa de
  • 286 milhões pagos em 2012 pelo governo PSD-CDS pela compra há mais de 70 anos dos terrenos do aeroporto, 20 anos antes de Costa ter nascido, e pela «compra» dos terrenos da Expo, uns 20 anos antes de Costa ter aterrado na câmara;
  • venda de 500 milhões do património municipal;
  • transferência da dívida para as empresas municipais;
  • extorsão de taxas e taxinhas aos lisboetas e empresas com sede em Lisboa que por habitante é mais de 80% superior à do Porto.
Ainda assim a dívida por habitante em Lisboa é 1.338 € (2,7 vezes a do Porto).

Ver os vários posts que o (Im)pertinências dedicou ao milagre da dívida de Costa em Lisboa, nomeadamente:
O mandato de Costa na câmara de Lisboa foi uma espécie de ensaio de soluções miraculosas e um estágio de preparação para S. Bento.

ACREDITE SE QUISER: «Um incendiário nomeado bombeiro chefe»

O «nosso» Guterres não quis deixar de parabenizar os novos guardiões dos direitos da mulher

25/05/2017

Mitos (254) - O terrorismo está a aumentar

Economist

CONDIÇÃO MASCULINA: Precisamos de homens. Não precisamos de criaturas efeminadas com pénis (3)

Este post pode ser considerado uma sequela deste e deste.

«De acordo com as palavras do Chefe do Estado-Maior do Exército, são os fins-de-semana em casa, e não as exigências físicas e psicológicas do treino, que estão a provocar o grande número de desistências do curso deste ano, fazendo com que dos 57 militares iniciais restem neste momento apenas 17. Estamos por isso a falar de homens de barba rija, capazes de sobreviver uma semana no mato apenas com uma fita na cabeça e um corta-unhas, mas que não conseguem superar a prova da mamã aos Domingos à noite. (...)

A expressão (“MAMA SUME!”), adoptada pela unidade a partir do grito de uma tribo africana, significa qualquer coisa como “aqui estamos, prontos para o sacrifício”. Acredito profundamente no poder motivacional deste lema, e desconfio até que seja depois de o ouvirem que muitos mancebos se sentem com vontade de ingressar no quartel da Carregueira. E não é por alguns o interpretarem erradamente como “MAMÃ, SUMO!” que vou mudar de opinião.»

Lido no Blasfémias

24/05/2017

Centeno foi «além da troika». Volta Schäuble, estás perdoado

Schaüble chama a Centeno "o Ronaldo do ECOFIN"

(Fonte: o diário da manhã DN)

«O Ronaldo do ECOFIN» é como quem diz o Centeno a ir além da troika é o Cristiano a marcar golos? Alguém se lembra dos tempos em que Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças alemão, era diabolizado como um neoliberal empedernido? Alguém se lembra dos tempos em que a obsessão do défice era uma infâmia antipatriótica?

Criminosos a quem emprestaram um pretexto

Manchester suicide bomber moved from gangs to radical Islam

Salman Abedi, a student at University of Salford, was born in UK to Libyan parents

(Financial Times)

Muitos dos soldados do Islão fundamentalista são meros criminosos, potenciais ou de facto, alguns deles recrutados nas prisões, reciclados por ideólogos fanáticos que lhes emprestaram uma causa, isto é um pretexto para exercerem a violência arbitrária sob a forma de terrorismo.

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (151) - Ética republicana


Nomeações recentes de apparatchiks socialistas com currículos notáveis:
  • Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais - Ricardo Rodrigues, advogado e ex-vice presidente do grupo parlamentar socialista, que há 7 anos "tomou posse" por "acção directa" de dois gravadores de jornalistas da revista Sábado e com eles abandonou a entrevista por o estarem a questionar sobre o "caso de pedofilia" (CM e Expresso); 
  • Conselho de Fiscalização do Sistema Integrado de Informação Criminal - António Gameiro, deputado e presidente da distrital de Santarém do PS, condenado pelo tribunal (decisão confirmado pela Relação) a restituir 45.000 euros que reteve de uma venda em que foi procurador de uma cliente. (O Ribatejo)
(Lido aqui)

23/05/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (84)

Outras avarias da geringonça.

Até um dos mais contumazes adeptos da geringonça concedeu que o tão celebrado crescimento da economia de 2,8% no 1.º trimestre ficou a dever-se às exportações e ao investimento e não à receita da Mouse School of Economics que faria o crescimento brotar do consumo resultante do aumento do rendimento pelas políticas de reversão. Também é prudente lembrar que a última vez que a economia cresceu num trimestre 2,8% foi em 2007, era governo o animal feroz, e nos trimestre seguintes a coisa foi minguando, voltou a crescer quase a esse nível em 2010 um pouco antes da bancarrota no 2.º trimestre de 2011.

Ainda que o investimento tenha tipo um papel no crescimento do 1.º trimestre devemos saber que, segundo dados do Eurostat (citados aqui), o investimento total em 2016 em Portugal foi o mais baixo da UE com excepção da Grécia e em 20 anos caiu mais de 10% em percentagem do PIB, tendo sido o quarto com maior descida. Não deveria surpreender ninguém que o mais elevado índice de investimento em 2016 seja o da Irlanda onde o investimento nos últimos 20 anos foi o segundo que mais cresceu.