Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

17/10/2017

ACREDITE SE QUISER: O pénis como construção social resultante da heteronormatividade patriarcal

«Em Maio do corrente ano, dois outros académicos, Peter Boghossian e James Lindsay, decidiram renovar a partida académica e submeteram um trabalho para a Cogent Social Sciences, revista indexada nos principais meios de divulgação científica. Defendem os autores que o órgão genital masculino, o pénis, é, em boa verdade, uma construção social. Fazem-no «através de um criticismo discursivo pós-estruturalista detalhado e do exemplo das alterações climáticas».

O artigo, referem ainda no resumo, «questiona a prevalente e prejudicial mistificação social de que os pénis são melhor entendidos como órgãos sexuais masculinos, e atribuir-lhe-á um papel mais adequado enquanto tipo de desempenho masculino». Dadaísta? Era esse um dos objectivos — testar a filtragem do nonsense na arbitragem por pares nas revistas do género. O artigo foi aceite e publicado, tendo sido removido apenas após os próprios autores fazerem a denúncia do caso.»

Relatado por Mário Amorim Lopes em «A Guerra dos Géneros e as falsificações científicas»

16/10/2017

ESTADO DE SÍTIO: Vaticangate

«A prosecutor called it “a case of surprising opaqueness, of silences and terrible mishandling of public money”. The conviction on Saturday of Giuseppe Profiti, ex-president of a Vatican-owned children’s hospital, for misusing his position to divert €422,000 ($499,000) from its funds, is a reminder of a dark side of the Catholic Church at odds with the ascetic modernising of Pope Francis. The money was to be used to refurbish the penthouse retirement apartment of the former Secretary of State, Cardinal Tarcisio Bertone, once the second-most-powerful man in the Church. Mr Bertone denied knowing of the hospital’s involvement and says he spent around €300,000 of his own, whereas the diverted cash went to the builder’s British-registered company. Yet the court heard that Mr Bertone had bypassed Vatican rules by hiring the builder, a friend, without seeking rival quotes. Curiously, the cardinal was not called to testify

The Economist Espresso

The cardinal was not called to testify. Why's that?

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (105)

Outras avarias da geringonça.

O que podemos concluir do relatório da comissão técnica independente dos incêndios de Pedrógão Grande? Resumindo o essencial: (1) incompetência de um primeiro-ministro de um governo incompetente na respostas aos incêndios; (2) grande competência do primeiro-ministro como ministro da propaganda ao divulgar o relatório entre as eleições autárquicas e a apresentação do orçamento, garantindo deste modo o seu desaparecimento mediático.

O que podemos concluir do orçamento apresentado? Que o governo empurrado pelas greves da ASAE. pelos avisos de greve da Fenprof, pelo endurecimento prometido pela CGTP, pela greve da função pública de 27 de Outubro, pelos protestos das forças de segurança e pela «grande manif nacional», capitulou em toda a linha às exigências dos seus parceiros da geringonça.

15/10/2017

Lost in translation (298) - Entraves ao pluralismo em socialês

«Entraves ao pluralismo levam serviços da ERC a propor chumbo ao negócio Altice-TVI»

«Relatório preliminar dos serviços do regulador dos media identifica possíveis entraves ao pluralismo e à diversidade no mercado se a compra da TVI pela Altice avançar nos moldes anunciados. Documento ainda está a ser finalizado e o Conselho Regulador da ERC pediu mais uma semana para anunciar a sua decisão

Tendo em vista que a ERC - Entidade Reguladora para a Comunicação Social foi criada em 2005 em pleno consolado socratês, um consolado que assistiu à mais vasta tentativa de controlo dos mídia por um governo desde dona Maria II, governo do qual foi Ministro de Estado e da Administração Interna António Costa, o actual primeiro-ministro que tem como ajudante na Defesa Azeredo Lopes, primeiro presidente da ERC, nomeado por coincidência por José Sócrates, a expressão «entraves ao pluralismo» no dialecto socialês pode ser traduzido como «há dúvidas que a TVI controlada pela Altice possa ser usada como uma câmara de eco do governo do nosso primeiro Costa».

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Distraído, mentiroso ou medroso? (2)

Republicando e actualizando.

Secção Musgo Viscoso

Para alguém que anda na política há mais de duas décadas, foi secretário de Estado de Guterres e ministro de Sócrates da Economia, primeiro, e das Finanças, depois, fazer um depoimento como o que fez na comissão de inquérito à Caixa só pode ser distraído, mentiroso ou está sob ameaça do animal feroz.

Respigo um entre muitos outros exemplos. Depois de há duas semanas o seu antecessor como ministro das Finanças de Sócrates ter admitido ser pressionado pelo animal feroz para nomear para a Caixa Santos Ferreira e o seu amigo Vara, Teixeira dos Santos diz que foi coincidência ter ele próprio nomeado a mesma dupla. Quanto a Vara explicou que «fez carreira na Caixa, era director, tinha conhecimento dos cargos de direção da Caixa e capacidade de liderança. Fazia a ligação entre a administração e a Caixa e sinalizava que os quadros da Caixa poderiam chegar à administração». Inexplicavelmente nenhum deputado presente na comissão de inquérito vomitou.

[Actualização:
Tudo isto que já era conhecido, soube-se agora que está documentalmente confirmado pela carta de demissão de Campos e Cunha, cujo original retido por Sócrates foi apreendido em sua casa. A carta justificava o pedido de demissão com a «pressão sistemática relativa à substituição da Administração da CGD» e explicitava que a nomeação de Vara para a administração «é contrária às reformas de que este Grupo necessita».
Há uma passagem dessa carta de Campos e Cunha em que escreve «recuso-me a alterar pessoas sem uma estratégia». Se Teixeira dos Santos tivesse dito isso a Sócrates, o animal feroz poderia ter respondido «eu tenho uma estratégia» - a estratégia que Teixeira dos Santos obedientemente se dispôs a aplicar e que deu o que sabemos que deu.]

Com esta audição, Teixeira dos Santos merece cinco urracas pela falta de tomates, cinco bourbons por continuar igual a si próprio, cinco pilatos por ter passado o tempo a lavar as mãos das responsabilidades, e só não lhe atribuo cinco ignóbeis por não ter conseguido perceber se é distraído, mentiroso ou medroso.

Que a criatura com a sua songamonguice tenha conseguido atingir um estatuto de intocável do regime, depois das suas enormes responsabilidades no desastre socrático, diz mais sobre as nossas elites do que sobre ele próprio.

14/10/2017

DIÁRIO DE BORDO: Limpando a folha do maior vigarista deste século

De como a convivência do diletantismo com o egocentrismo e a escassez de senso comum pode limpar a folha do político mais trapaceiro deste século e que mais danos infligiu a este Portugal dos Pequeninos.

CASE STUDY: Trumpologia (25) - Donaldo torna credível a grafologia

Mais trumpologia.

Conferência de imprensa onde Donaldo mostra a ordem executiva por ele ilustrada assinada que
elimina os subsídios previstos na Obamacare para as famílias pobres comprarem seguros de saúde

13/10/2017

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (164) - Sócrates? Quem?


«Em primeiro lugar, o silêncio incomodado do PS, que continua a fazer de conta que este assunto não lhe diz respeito. Só que não estamos a falar de um qualquer autarca acusado de corrupção. Estamos a falar de  José Sócrates, antigo líder do partido e ex-primeiro ministro, que é acusado pela Justiça de numerosos crimes alegadamente praticados durante o exercício de funções. Em Governos de que fizeram parte o primeiro-ministro António Costa e outros membros do atual Executivo.

Das duas uma, ou Sócrates é inocente e o PS o apoia incondicionalmente até à decisão final da Justiça, como sempre fez enquanto o “menino de ouro” venceu eleições; ou Sócrates é culpado e o PS tem de fazer um mea culpa e assumir responsabilidades.

O que não é aceitável é este limbo, este silêncio, este não querer atravessar-se por alguém que o partido apresentou aos portugueses como sendo o homem providencial que iria salvar o país. Nem tão pouco admitir que se possa ter errado nesse endosso.  (...)

Em segundo lugar, na Operação Marquês não estão em causa apenas questões criminais. Há também questões éticas de relevo. Vamos supor que o Ministério Público está errado e que Carlos Santos Silva se limitou a emprestar dinheiro a um amigo em necessidade. Já sem falar dos valores em causa – 500 mil euros? – o PS acha aceitável que um primeiro-ministro passe férias de luxo pagas por um amigo empresário que, por acaso, tem negócios milionários com entidades públicas? Mesmo que não tenha existido crime, não deixa de ser uma situação questionável do ponto de vista ético.

É admissível que o partido da ética republicana, que se considera o guardião do templo da III República, não se pronuncie sobre o elefante no meio da sala?»

«O PS e a Operação Marquês», Filipe Alves no Económico

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Um povo alheado e dependente, um poder corrupto, uma justiça amedrontada e um jornalismo manso

«Não se enganem: aquilo que ficámos a conhecer não foi a acusação de José Sócrates, mas a acusação de um regime inteiro. Um regime composto por um povo alheado e dependente, um poder corrupto, uma justiça amedrontada e um jornalismo manso. Sem esta triste conjugação de pobres qualidades, José Sócrates poderia sempre ter sido eleito em 2005, mas jamais seria reeleito em 2009. É evidente que existe gente indecorosa em qualquer parte do mundo, mas nos países bem frequentados as instituições não falecem todas ao mesmo tempo. Infelizmente, durante a era Sócrates, tudo faliu, até finalmente falir o país. Tirando duas ou três dúzias de teimosos que insistiram obsessivamente que o rei ia nu, demasiadas pessoas em lugares de responsabilidade ou não viram o que se estava a passar, por serem pouco espertas, ou não quiseram ver, por serem pouco honestas.

«Sócrates não merece cair sozinho», João Miguel Tavares no Público

12/10/2017

Pro memoria (358) - Razões para o PSD votar contra o orçamento

«Ora eu penso que este orçamento devia ser recusado por toda uma outra série de razões, o problema é que a oposição social-democrata não as assume como suas e por isso tem dificuldade em assumir uma alteridade que lhe permitisse estar à vontade na recusa do orçamento socialista. O adjectivo que escolhi ,“socialista”, não é meramente descritivo, é o socialismo em que vivemos impregnados, e que hoje se chama “estado-providência”, ou “modelo social europeu”, que nos condena à mediocridade e à gestão no fio da navalha da cada vez menos riqueza produzida.

O orçamento devia ser recusado porque precisamos vitalmente de outra coisa, precisamos de mais liberalismo, de mais liberdade económica, de mais espírito empresarial. Sem mais “crise” (das que falava Schumpeter) e sem mais “boa” insegurança, não somos capazes de mudar. O estado tudo faz para nos poupar a essa insegurança, e, como toda a Europa, afundamo-nos, pouco a pouco, na manutenção, geracionalmente egoísta, de um modelo social insustentável a prazo e que nos condena a definhar. É verdade que duvido que hoje alguém consiga ganhar uma eleição propondo o fim do conforto providencial, mas isso remete para a perda de margem de manobra democrática, face ao crescendo demagógico. E nem sequer vale a pena apelar á racionalidade, porque ela, a não ser para meia dúzia de iluminados normalmente sem fome e com emprego certo, aconselha a ter a pomba na mão a troca-la pelas duas que estão a voar. Estamos de facto, um pouco tramados, mas se calhar foi sempre assim na história.»

Os dois parágrafos anteriores (previamente publicados na Sábado, reproduzidos aqui e muito oportunamente recordados pelo Insurgente) datam de há 12 anos, referem-se ao orçamento do governo de José Sócrates e não foram escritos por um perigoso neoliberal. Foram escritos por um maoísta do PCP (m-l), várias vezes deputado pelo PSD, co-fundador do Clube da Esquerda Liberal, apoiante de Mário Soares e desde há 7 anos compagnon de route dos socialistas, ainda militante do PSD, e por último provável candidato a musa de Rui Rio.

A explicação mais óbvia para estas translações frequentes entre as luminárias do regime é de que as suas mudanças de fé política são menos mudança de cuecas por razões de tripas e mais mudança de casaca por razões de ego ou de conveniência.

ARTIGO DEFUNTO: O melhor líder para o PS(D) segundo o semanário de reverência (2) - Ecce homo

Continuação daqui.


Ecce homo Rio, segundo o panegírico que o semanário de reverência dedicou no seu diário ao «menino querido de um vasto conjunto da imprensa sediada em Lisboa, muito pelo modo como decidira afrontar o FC Porto». Melhor nem de encomenda.

11/10/2017

COMO VÃO DESCALÇAR A BOTA? (13) - É longa a lista

Outras botas para descalçar.

«É acusado de 31 crimes e teria 24 milhões na Suíça
Acabou a espera. Sócrates acaba de ser acusado de corrupção passiva, branqueamento de capitais, falsificação de documento e fraude fiscal qualificada. Salgado, Bava e Granadeiro também acusados


É longa lista dos que vão ter de descalçar a bota de Sócrates: Miguel Sousa Tavares, Clara Ferreira Alves, de entre uma lista imensa de jornalistas de causas, e sobretudo, entre eles, a "namorada" Fernanda Câncio. Entre os políticos a lista também é gigantesca. Destaquem-se os peões de brega como o Galamba, os que foram ministros do animal feroz, tais como o Santos «Gosto de Malhar na Direita» Silva e nomeadamente:

Saíste-me cá um merdas sem tomates...
Disclaimer:
Por escrever que há uma série de gente que deve começar a descalçar a bota José Sócrates, isso não significa que eu esteja a afirmar que o senhor engenheiro com esse nome é corrupto. Pelo contrário, temos de admitir que o senhor engenheiro com esse nome é um cidadão impoluto, embora não pareça, até que justiça o condene, se condenar e, ainda assim, só depois de terem sido julgados todos os recursos que inevitavelmente irão se apresentados com os quais nos entreterão durante uma década, pelo menos. Até lá, o senhor engenheiro com esse nome é alegadamente inocente.

Títulos inspirados (71) - Conforme a causa, para o jornalismo de causas a Constituição pode ser uma arma

«Rajoy usará a Constituição como uma arma contra a independência?»


O Público no seu melhor.

CASE STUDY: Afro-matemática, a affirmative action tropical

«Em mais um exemplo do nível de loucura e descompromisso com a qualidade acadêmica das universidades federais, a Universidade Federal do ABC (UFABC), a única realmente criada pelo ex-presidente Lula (PT-SP), criou duas novas disciplinas em seu Curso de Licenciatura em Matemática: Estudos Étnicos-raciais e Afro-matemática como Transformadora Social.

A proposta foi criada pelo “Coletivo Negro Vozes” para “combater o racismo na matemática”. De acordo com o coordenador do coletivo, Jorge Costa, “a disciplina de matemática é uma das responsáveis pela exclusão de negros e negras das escolas e consequentemente dos cursos superiores nas áreas tecnológicas”
»

(Fonte ILISP, via O Insurgente)

Megalomania

«O porta-voz do CDS-PP, João Almeida, defendeu hoje que os resultados das eleições autárquicas elevaram a fasquia ao partido, que se deve assumir como alternativa ao Governo do PS»

É bastante arrojado dito pelo porta-voz de um partido que teve nas últimas eleições autárquicas 2,59% dos votos nas suas listas e uma percentagem, que dificilmente ultrapassará um quarto, dos menos de 18% de eleitores que votaram em listas em que esse partido participou, ou seja, tudo por junto menos de 7% dos votos.

10/10/2017

ACREDITE SE QUISER: Animais de companhia



«PAN, Bloco e Os Verdes querem que animais possam entrar em restaurantes»

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (54) Unintended consequences (XV)

Outras marteladas.

Multiplicam-se as advertências sobre os efeitos das políticas não convencionais dos bancos centrais poderem desencadear a próxima crise financeira, algo para o qual temos vindo à chamar a atenção há uns cinco anos, pelo menos desde este post de 2012 (duas semanas antes do «whatever it takes» de Draghi): «ainda não saímos de uma e já estamos a trabalhar para criar a próxima. Vai acabar mal.»

O menos surpreendente dos avisos foi o de Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças de Merkel agora a caminho do Bundestag, cujas opiniões sobre disciplina fiscal são conhecidas, bem como as suas reservas quanto ao alívio quantitativo e às taxas baixas ou nulas adoptadas pelo BCE sob a batuta de Draghi. Em entrevista ao FT, Schäuble adverte para «o aumento dos riscos decorrentes da acumulação de mais e mais liquidez e o crescimento da dívida pública e privada» e o perigo de «encorajar novas bolhas».

John Mauldin conhecido analista financeiro, comentador do NYT e autor da newsletter Thoughts from the Frontline, esteve em Lisboa num encontro promovido pela Sociedade Francisco Manuel dos Santos e disse em entrevista ao negócios não ter dúvidas que uma nova crise chegará o que segundo ele não é necessariamente uma má notícia: porque «os políticos apenas fazem algo quando temos uma crise».

No mesmo encontro esteve Jean-Claude Trichet, antecessor de Draghi no BCE que deixou claro que o quantitative easing «não pode durar para sempre» nem substituir as reformas indispensáveis. No não pode durar para sempre está precisamente boa parte do problema como a próxima advertência mostra.

Por último, também a Economist, tendencialmente adepta do quantitative easing e do militantismo dos bancos centrais, publicou a semana passada um post no blogue Buttonwood cujo título diz tudo: «The next financial crisis may be triggered by central banks». Esse post cita um estudo do Deutsche Bank sobre o retorno de activos de longo prazo que mostra uma frequência crescente das crises nas últimas décadas e conclui que isso se deve ao abandono primeiro do padrão-ouro e mais tarde do sistema de câmbios fixos, permitindo aos governos desde meados dos anos 70 lidar com as crises económicas usando a política cambial, aumentando os desequilíbrios, com o crescimento constante da dívida pública e a consequente expansão do crédito e o subsequente colapso. Daí que uma nova crise possa estar prestes a surgir, apenas à espera de um trigger que pode ser um crash na dívida chinesa, o aumento do populismo ou a falta de liquidez nos mercados de obrigações ou, mais provavelmente, o fim das políticas intervencionistas dos bancos centrais.

09/10/2017

ESTADO DE SÍTIO: O Estado está novamente a inchar

Escrevi um dia que o CDS é um viveiro de socialistas eméritos que ao aproximar-se a terceira idade fazem o coming out. Dei como exemplos o professor Adriano Moreira, o professor Freitas do Amaral e o dr. Basílio Horta. Mas também poderia ter dado como exemplo o dr. Bagão Félix que recentemente emergiu nas páginas do Público partilhando com o professor Louçã em amável convivência a coluna «Tudo Menos Economia».

Esta introdução foi apenas para avalizar a conclusão insuspeita vinda do dr. Bagão Félix, expressa numa entrevista à Lusa aqui citada, sobre uma das consequências da governação dos seus correlegionários do PS: «o Estado está novamente a inchar»

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (104)

Outras avarias da geringonça.

Já está em marcha a retaliação dos comunistas pela derrota nas autárquicas. Jerónimo ameaça mais luta nas ruas, diz que não está amarrado a nenhum acordo, acusa o PS e o BE de hostilização e de mentiras. A Fenprof anuncia uma greve parcial dos professores a partir de 2 de Novembro se não forem atendidas as suas exigências. Professores aproveitam o 5 de Outubro e entoam cânticos ao «Marcelo amigo». Os polícias dizem que estão fartos. Depois de não se ter entendido com o ministério das Finanças sobre o descongelamento de carreiras na reunião da passada 6.ª Feira, a CGTP convocou uma greve da função pública para o dia 27.

08/10/2017

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (163) - O amigo do Costa (III)

Continuação de (I) e (II)

Em retrospectiva:

Diogo Lacerda Machado, o amigo do Costa, esteve envolvido no SIRESP, na compra dos helicópteros Kamov, na reversão da privatização da TAP, na resolução do caso dos lesados do BES, no acordo do CaixaBank com Isabel dos Santos, no caso dos lesados do Banif e na tentativa de solução do crédito malparado da banca.

Na parte que agora interessa, Lacerda Machado foi administrador da Geocapital que foi parceira da TAP na compra da Varig Engenharia e Manutenção, em 2005, saindo dois anos mais tarde. A Varig Engenharia e Manutenção é hoje parte integrante da TAP com o nome TAP Manutenção e Engenharia.

Rebobinando rapidamente:

As contas do 1.º semestre de 2017 da TAP evidenciaram um aumento de 3% dos prejuízos para 52 milhões apesar da facturação ter aumentado 11% para 1.254 milhões. Pronto, concluirá qualquer socialista encartado, estão a ver?, apesar de gerida pelos "privados" a TAP continua a perder dinheiro.

A sério? Tomemos o ano passado em que a TAP perdeu 27,7 milhões. Qual a origem dos prejuízos? Por coincidência na TAP Manutenção e Engenharia que perdeu 47,5 milhões em parte compensados pelos lucros na operação da TAP, prejuízos a somar às muitas centenas de milhões desde que por lá andaram as mãozinhas de Lacerda Machado e de outros socialistas (Almeida Santos, por exemplo).

07/10/2017

Dúvidas (207) - E se desta vez ele estiver certo?

Já inúmeras vezes aqui no (Im)pertinências o escrevemos: Nicolau Santos, o ideólogo do keynesianismo no semanário de reverência, o jornalista de causas socialistas várias, é o nosso pastorinho favorito da economia dos amanhãs que cantam. Também inúmeras vezes mostrámos que a fé que coloca nas suas causas é incomensuravelmente maior do que a sua capacidade de discernimento o que o conduz a inúmeros dislates, desde as vulgares promoções de empresas do regime que acabam falindo, até ao seu clímax (até agora) que foi o monumental barrete que lhe enfiou o vigarista Artur Baptista da Silva. Para mais exemplos podeis usar a etiqueta pastorinhos da economia que contém um bom número de posts que lhe são dedicados.

Se pensais que escrevo este post para malhar mais uma vez na criatura, estais enganados. Escrevo desta vez para louvar o seu discernimento por ter escrito um post no seu blogue «Keynesiano, graças a Deus» cuja leitura se recomenda, apesar de o seu título dizer quase tudo: «No seu próprio interesse, o PS não devia ter ganho as autárquicas».

E fê-lo logo no dia seguinte às eleições, ainda antes do camarada Jerónimo começar a fulminar o PS pelo descalabro dos comunistas, considerando pírrica a vitória dos socialistas - «verdadeiro hara-kiri do PS (...) não se percebe de todo porque apareceu o secretário-geral do PS todo ufano, ao final da noite de ontem, a afirmar que o PS tinha tido a maior vitória de sempre em eleições autárquicas. Se pensasse um pouco melhor, o dr. Costa devia era estar preocupadíssimo».

E se desta vez ele estiver certo? E se ele estiver outra vez errado, como indicia a sua fraca taxa de sucesso? Sim, porque pode muito bem acontecer não estar o dr. Costa preocupado e até pode estar aliviado pela perspectiva de trocar o camarada Jerónimo pelo dr. Rio.

ARTIGO DEFUNTO: O melhor líder para o PS(D) segundo o semanário de reverência



Não tenho a certeza se Rui Rio avança, mas não há a menor dúvida que se avançar tentará ser um peão de Costa com ambição de ser sucessor da muleta PCP (e da muleta BE se este se divorciar da geringonça), devidamente acarinhado pelos socialistas do PSD e pelo baronato (em parte confundem-se).

06/10/2017

Proposta de petição para demolição de vários símbolos do fascismo

Tomo nota da odiosa acção perpetrada por «um grupo de nacionalistas da extrema-direita» que tentou impedir uma manif pacífica de protesto com 43 anos de atraso contra o colonialismo simbolizado pela estátua do «esclavagista selectivo» padre António Vieira no largo Trindade Coelho em Lisboa. O funesto acontecimento foi aqui descrito no DN, esse lócus de jornalismo de causas, anteontem umas, ontem outras, hoje ainda outras, que já foi dirigido por José Saramago, um símbolo da imprensa livre.

Tomo nota e em conformidade completo a proposta de petição que apresentei em Agosto:


Quarenta e três anos depois da queda do fascismo ainda existem em Portugal monumentos glorificando o Estado Novo e o esclavagismo selectivo, insultando o Povo português e a memória de gerações de luta contra a ditadura e afrontando o espírito da democracia implantada pela Revolução do 25 Abril, obra do glorioso MFA em aliança com as Forças Democráticas e o Povo Português.

Comício na Fonte Luminosa no dia 19 de Julho de 1975 das forças da reacção em aliança com a Igreja
onde os líderes da Forças Progressistas foram chamados «paranóicos» e «dementados»

«Cerca de 15 manifestantes do grupo Descolonizando ameaçados 
por um grupo de nacionalistas da extrema-direita»

Nós os abaixo assinados, inspirados e identificados com a dinâmica progressista de remoção de símbolos do colonialismo, do supremacismo, da discriminação de géneros e de minorias, exigimos a demolição da Fonte Luminosa, símbolo do Estado Novo fascista, utilizado pelas forças anti-progressistas e reaccionárias para combater as conquistas do 25 de Abril e exigimos igualmente o desmantelamento da estátua do «esclavagista selectivo» padre António Vieira em Lisboa.

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: Here we go again (16)

«"O aumento dos gastos com pessoal sinaliza que as reformas para o emprego do setor público já não se destinam à redução de custos” — a frase é da Comissão Europeia e consta do sexto relatório de avaliação pós-programa de ajustamento português. Os peritos notam que os custos com pessoal e o número de funcionários públicos continuam a subir e avisam que são precisas medidas para manter o atual bom momento de recuperação.» (Fonte)

É tão notório que a CE não pode deixar de registar.

05/10/2017

A mentira como política oficial (36) - É possível enganar muitos durante muito tempo (mas não sempre)

«Há muito tempo que não se assistia a uma distância tão grande entre aquilo que se diz e aquilo que se faz. Ao ponto de todos nós estarmos concentrados na recuperação de rendimentos dos que ganham menos e nos esquecermos que, ao mesmo tempo, foi este Governo que acabou com as contribuições que recaíam sobre as pensões mais altas. Embora as contas sejam diferentes, o certo é que se repôs mais depressa esses rendimentos mais elevados do que os salários do sector privado que só agora poderão aspirar a um alívio fiscal.

(...)

É aliás irónico e ilustrativo, da fase de grande ilusão em que vivemos, que se diga que o PSD de Pedro Passos Coelho não tem políticas para o país quando na realidade tem sido o único a falar desses problemas. Podemos não gostar das soluções, mas não podemos dizer que não identifica os problemas e não apresenta uma via para os resolver. O mesmo não se pode dizer deste Governo que governa junto à costa, decidindo em função do que vai sendo a agenda mediática – agora é a habitação – e os segmentos de mercado eleitoral.»

«O adeus de Passos Coelho», Helena Garrido no Observador

04/10/2017

Saída limpa

Para dizer a coisa em poucas palavras, Passos Coelho estava politicamente moribundo desde que não foi capaz de encontrar ideias e um discurso alternativo à geringonça. Com os resultados das eleições autárquicas recebeu a certidão de óbito político. E a quem está morto, tratando-se morte física, o que há a fazer é enterrar o cadáver rapidamente. Nos outros casos há que encontrar um substituto, o que não é urgente, é importante. Embora para a maior parte dos portugueses tal distinção seja um pormenor, na realidade é um pormaior.

Quer nos casos de morte física, quer nos outros, é de bom tom dizer umas palavras de circunstância. No caso da morte física, geralmente ninguém tem coragem de dizer mal do morto. No caso de morte política, geralmente é o contrário.

Tratando-se de Passos Coelho, porventura o político mais odiado na última década, não precisamos de nos esforçar para dizer mal. Os seus inimigos, isto é o baronato e os socialistas ressabiados dentro do seu partido, por um lado, e os seus adversários, isto é os socialistas fora do seu partido, os comunistas e bloquistas, por outro, sem esquecer as legiões de jornalistas de causas ao serviço de uns e outros, já o fizeram bastamente.

Resta dizer que a falta de qualidade dos seus detractores em geral e os argumentos para a detracção durante os sete anos em que foi líder do PSD são a maior homenagem que lhe prestaram, agora que irá sair da cena política. Salientamos uma coragem pouco habitual nos nossos políticos e acrescentamos que teve uma saída limpa, o que não é dizer pouco.

Pertinente                            Impertinente

03/10/2017

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Não precisamos de dois partidos socialistas

«O problema do PSD não é Passos Coelho, mas este: o PS, desde o fim do governo de Cavaco Silva, transformou-se no partido do Estado e das clientelas do Estado, que são, neste como em anteriores regimes, a base do poder político em Portugal. Domina quem, a partir do Estado, tem meios para multiplicar e alimentar bocas. Nos últimos vinte anos, o PSD nunca teve esses meios. Apanhou sempre o lado mau do ciclo da governação, quando, após uma temporada de despesismo socialista, foi preciso congelar e cortar — em 2002 e em 2011. O PS pôde governar sozinho, em maioria ou em minoria, em ambiente geralmente de optimismo e consenso; o PSD teve de governar em coligação, no meio de toda a espécie de crispações. Previsivelmente, o PS emergiu como o “partido natural do governo”, o guardião do “sistema”, o abrigo dos interesses. A aliança de Ricardo Salgado com José Sócrates é a prova mais clara de como os poderes fácticos da sociedade portuguesa reconheceram os socialistas como interlocutores privilegiados.

A questão é saber se a sociedade portuguesa tem força para desejar outra coisa que não privilégios e benesses do Estado. Durante o ajustamento de 2011-2014, julgou-se que sim. Já se percebeu entretanto que não. Basta recordar a última campanha autárquica, e os subsídios, as casas, os benefícios fiscais prometidos em troca de votos.»

Excerto de «Passos Coelho, Ulisses e os porcos», Rui Ramos no Observador

Dito por outras palavras, o partido mais adequado para executar as políticas do PS é o PS e o país não precisa de dois partidos socialistas - um é suficiente. Ah, já me esquecia: o socialismo faz quase toda a gente feliz e, como disse a Thatcher, o único problema é que no final acaba o dinheiro dos outros. no nosso caso o dos "ricos" e/ou o dos credores. É por isso que só a realidade derrotará o PS. São séculos de história, senhores. É claro que para a realidade derrotar o socialismo é preciso que alguém ajude e é aí que surge a dúvida se Passos Coelho ajuda ou complica.

DIÁRIO DE BORDO: A superioridade do Estado Sucial face ao Estado Novo

O Estado Sucial que substituiu há 43 anos o Estado Novo criou uma dívida de 250 mil milhões de euros and counting ou mais de 130% do PIB. O Estado Novo em 48 anos, depois de uma guerra colonial de 13 anos, criou uma dívida de 13,6% do PIB isto é 10 vezes menor em termos relativos.

Lembrei-me de tudo isto ao fazer de manhã cedo o meu jogging e ver a fila de carros na Marginal em direcção a Lisboa a atingir a praia da Torre. Tomando como referência a situação antes da bancarrota socrático-socialista em 2011, estimo que quando a fila chegar a Carcavelos já estará visível no horizonte o próximo resgate, dependendo da maré – quando a maré desce é que se vê quem não tem calções, segundo Warren Buffett.

02/10/2017

DIÁRIO DE BORDO: Estórias do outro mundo (5) - As autárquicas vistas de Melmac

[Outras estórias do outro mundo: (1), (2), (3) e (4)]

Conheci Alf, aka Gordon Shumway, em pessoa, por assim dizer, no Verão de 2002, quando ele passava férias com os Tanners na Quinta da Balaia. A primeira vez que o vi teria uns 245 anos e corria atrás de um gato, um dos muitos que lhe atribuíram ter comido nas redondezas. A estadia em Portugal foi curta mas muita intensa - Alf apreciava e papava gatos algarvios com a mesma voracidade com que os Tanners degustavam feijoada de lingueirão. Tão intensa que Alf desde essa altura passou a interessar-se por tudo quanto respeitava a Portugal. 

A penúltima vez que Alf telefonou foi em 2011 a propósito do manifesto de um grupo de lunáticos (ele chamou-lhe outra coisa) a exigir «saber quem são os credores» (da dívida pública). Três anos mais tarde voltou a ligar, através do Skype que em Melmac se chama Skalpe, depois de ter lido um artigo do Dr. Mário Soares, então ainda não falecido, que Alf acreditava ter sido raptado por alienígenas do planeta Kepler-186f e devolvido à terra com alterações de hardware para escrever o celebrado artigo «A crise e Portugal» no DN (já então um paradigma da imprensa independente).

Desta vez Alf ligou-me através do WhatsApp que em Melmac se chama WhatheFack. Aliás, foi com o nome desta aplicação que Alf disparou ... se passou com as vossas eleições? O DN escreve na 1.ª página «PSD esmagado», o Público «Derrocada», o ionline «Costa o Conquistador», o CM «Costa arrasa Passos Coelho» e por aí fora. Foi isso mesmo, respondi, tentando explicar a hecatombe.

Hecatombe? questionou Alf. Sim, vê por exemplo a 1.ª página do DN que mostra o PS com 37,82% e o PSD 16,07%, expliquei. Homem, isso é o resultado do PSD sozinho. Com coligações tem 28,1% e em conjunto com o CDS têm 31,8% e só perdeu 0,7% relativamente a 2013. E o PS só teve mais 1,5%.

OK, disse para mudar de assunto, mas isto eram eleições locais e o que interessa são os resultados das câmaras e aí foi mesmo uma hecatombe. Em Lisboa o PSD perdeu 11,2%... E o PS perdeu 8,9% e a direita ganhou 4%, interrompeu Alf.  OK, disse tentando outra vez, mas o PSD de 106 câmaras perdeu 10. E o PCP que Costa disse que não tinha tido uma derrota perdeu o mesmo número que no caso dos komunas (é assim que ele fala, com k) é um terço?

Ganhando embalagem Alf debita: das 20 capitais de distrito, o PSD tinha 8… e ficou com 8. Em 20, subiu a votação em 9 e desceu em 11. Nas 20 câmaras, a média simples de votos era de 31,89%. Nestas eleições até agora foi de 31,82%. Uma queda de 0,07%. Achei estranha tanta erudição autárquica e confirmei mais tarde que ele também lê o Insurgente. Ah e há mais, acrescentou, o PS perdeu 10 câmaras, 7 para o PSD e 3 para PSD-CDS.

Foi nesta altura que chutei para o lado e comecei a perguntar aos gritos ainda estás aí Alf? Estás-me a ouvir. Não ouço nada. Deve ser uma aurora boreal que está a interferir. Vou ter de desligar.

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (103)

Outras avarias da geringonça.

Depois de um desmentido do MAI, o mesmo que ainda hoje não sabe o que se passou em Pedrógão Grande, sobre a alegada falta de diplomas dos dirigentes da Protecção Civil, o jornal SOL revelou que houve resmas de dirigentes sem licenciatura, apesar desta ser obrigatória desde 2004, e outros com licenciaturas pelo método Relvas - um deles obteve equivalências em 31 das 34 disciplinas.

Falando de equivalências, a CRESAP (desde Abril com uma nova direcção nomeada pelo governo de Costa) aprovou 167 candidatos a cargos dirigentes na administração pública sem quaisquer reservas ou, como escreveu o semanário de reverência, «com zero chumbos» devido à excelência dos candidatos, evidentemente. Os mal-intencionados dirão que a coisa foi ajeitada para acomodar os boys aos jobs.

01/10/2017

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (53) Unintended consequences (XIV)

Outras marteladas.

Hesitei entre incluir este post nesta série, sem dúvida a mais apropriada, ou incluí-lo na série Acredite se quiser. Depois de vários anos de injecções de alívio quantitativo e juros tendencialmente nulos, cujo efeito foi evanescente no crescimento da economia, que só começou a animar-se quando precisamente as medidas do BCE começaram a atenuar-se, Mario Draghi parece querer substituir essas medidas não convencionais - a chamada bazuca de Draghi - por... aumentos de salário bem acima da inflação.

Em breve substituída por aumentos de salário
Pelo menos foi assim que o Financial Times interpretou o seu lobbying e se propôs explicar aos leitores «Why the ECB wants unions to increase wage demands». Daí que há quem considere ser uma boa notícia para o BCE se o IG Metall, o sindicato alemão para a indústria eléctrica e metalúrgica, colocar a fasquia das negociações em 3 ou 4%. Whatever it takes, acrescentará o Mario. Por exemplo, it takes perda de competitividade. como as taxas de juro zeradas takes biliões de investimento em projectos com TIR inferior às taxas de juro históricas.

30/09/2017

Tende cuidado com o que desejais

Em consequência da queda histórica da coligação CDU/CSU-SPD nas eleições de domingo passado, várias alterações se irão verificar na política alemã. A primeira é o fim da coligação que governou a Alemanha nos últimos dezasseis anos, dos quais os últimos doze liderada por Merkel. A segunda é que Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças nos últimos oito anos, não é reconduzido e será o líder do CDU no Bundestag.

Com o facelift a que a esquerdalhada submeteu Angela Merkel pela sua decisão de acolher mais de um milhão de migrantes, transmutando-a de hitler de saias em senhora respeitável, Schäuble passou a ter de carregar sozinho a cruz da austeridade. Não espanta por isso que esquerdalhada doméstica se regozijasse pela saída de Schäuble, de pouco lhe servindo o petit nom de Ronaldo das Finanças que ele prantou no nosso alquimista Centeno.

Mais devagar, porque o mais provável sucessor de Schäuble é Christian Lindner, um jovem político com 38 anos líder dos liberais do FDP, que faz parecer Schäuble um ministro das Finanças do Sul da Europa. Isso e o facto de Merkel ficar com pouca margem de manobra numa putativa coligação «jamaica» (com FDP e Verdes) não são boas notícias para Costa-Centeno e Tsipras-Tsakalotos.

29/09/2017

Culture wars. The left is not right and the right is not left


«Que os americanos de esquerda e direita lêem livros diferentes não é novidade nenhuma no que respeita à edição e uma análise das vendas de livros na Amazon confirma-o. Valdis Krebs, um cientista especializado em network analysis e visualisation, tratou dados para a Economist a partir da rubrica «Customers who bought…also bought…» e criou o diagrama de rede acima. Leitores de livros esquerdistas como «What happened» de Hillary Clinton e de «Al Franken, Giant of the Senate» levaram ambos os livros para o topo da lista de Best Sellers da Amazon, mas esses leitores raramente compram livros do outro lado do corredor. E os compradores de livros conservadores como «Understanding Trump» e «Making of the President 2016»  são ainda mais facciosos.» (Books aiming to span America’s political divide rarely succeed)

Como muitas outras, esta é uma tendência que está a espirrar dos Estados Unidos para a Europa, com uma diferença: enquanto a direita americana é mais agressiva e muito facciosa, a direita europeia com os seus complexos históricos (além de estúpida) deixa-se intimidar pela esquerda europeia que é ainda mais facciosa (além de estúpida) do que a direita americana. Nesta equação de colectivismos de esquerda e de direita não entram os liberais, uma espécie que nunca foi abundante e hoje é quase tão rara como o lince da serra da Malcata.

Mitos (264) - O racismo branco como "facto alternativo" do agitprop da esquerdalhada p.c.

«Foi criada a ideia de que Trump foi eleito por uma América branca e racista, uma América empenhada em destruir o legado do primeiro presidente negro, empenhada em destruir a coligação politicamente correta das minorias raciais e sexuais. O maniqueísmo da narrativa é total: o império branco, racista e cristão "versus" a multidão das minorias oprimidas. Problema? O lero-lero não bate certo com a realidade. Em primeiro lugar, a participação eleitoral dos brancos não aumentou em relação ao passado; não houve uma intifada branca nas urnas; Trump não despertou da abstenção hordas de racistas adormecidos. Em segundo lugar, Trump subiu a votação do Partido Republicano junto de negros, hispânicos e outras minorias e, nesse sentido, a sua percentagem de voto branco é inferior à de Romney. Estes factos tornaram-se tabus, porque no reino do politicamente correto são equivalentes à suspensão das leis da Física.

28/09/2017

ACREDITE SE QUISER: Agarrem-se que eu vou-me a ele

Pesquisa «"rui rio avança" site:pt»: Cerca de 6 720 resultados (0,39 segundos)


«Põe-se a hipótese de Rio avançar. Além do que ele próprio já disse sobre os tempos próprios para qualquer ação, remeto para o 'Canto de Ossanhá', de Vinicius, que Elis Regina tão bem interpretou: "O homem que diz "dou" / Não dá! / Porque quem dá mesmo/ Não diz! / O homem que diz "vou" / Não vai! / Porque quando foi / Já não quis!". Parece dedicada a Ruí Rio, mas não é.»

Henrique Monteiro no Expresso Diário

Por mim remeto para o terceiro verso do Fado Toninho.

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (162) - A difícil convivência de Costa com a liberdade de imprensa


«No final da conferência, os jornalistas questionaram o primeiro-ministro sobre o facto de não apenas o PSD e o CDS-PP, mas também agora o PCP e o Bloco de Esquerda, contestarem os nomes indicados pelo Governo para a administração da TAP, sobretudo a escolha do antigo secretário de Estado socialista e advogado Diogo Lacerda Machado.

"Já disse no domingo que as polémicas de Lisboa são em Lisboa. Cá por mim não há polémica nenhuma, a decisão está tomada", declarou António Costa, sem fazer mais comentários sobre esse tema



«Segundo a Renascença, questionado sobre se os socialistas aceitariam dialogar com Rui Moreira caso nenhuma candidatura ganhe a maioria absoluta, António Costa remeteu a resposta para a concelhia do Porto. E, na sequência da insistência dos jornalistas, deu a entrevista por concluída. "Esta entrevista é melhor fazer ao Manuel Pizarro. Está concluída", disse António Costa

27/09/2017

ACREDITE SE QUISER: Ti Celito, himselfie


«A passagem do Presidente da República de Portugal por Angola continua a dar que falar, já não por causa do mergulho na Ilha de Luanda, mas pela ruidosa reacção do público à sua presença na cerimónia de investidura de João Lourenço como Chefe de Estado. Para o canal português SIC Notícias, Marcelo Rebelo de Sousa foi vaiado, entendimento que não tardou a ser rebatido pelos internautas angolanos, e pelo próprio. (...)

Mencionado na etapa inicial do evento, quando se procedia à apresentação das figuras de Estado e de Governo que assistiam à tomada de posse, o Presidente luso foi aquele que suscitou a reacção mais audível da plateia, momento que inclui alguns assobios, noticiados pela imprensa lusa como vaias.

À boleia do canal televisivo SIC Notícias - que deixou de ser transmitido em Angola e tem sido acusado pela empresária Isabel dos Santos de mover uma campanha contra o poder angolano -, vários órgãos de comunicação portuguesa deram como certo que Marcelo Rebelo de Sousa foi apupado pelos angolanos.

A má leitura não demorou a "incendiar" as redes sociais, onde se têm multiplicado os apelos contra as "fake news".

"Em Angola o assobio é sinónimo de satisfação, agrado, ovação", lê-se num dos inúmeros comentários publicados do Facebook, em resposta às notícias, entretanto rectificadas para incluir essa explicação.

A rede social transformou-se, aliás, no barómetro mais visível da popularidade de Rebelo de Sousa em terras angolanas

Os angolanos, habituados a verem o ZéDu protegido por dezenas de seguranças, ficaram deslumbrados por ver o Ti Celito dos Afectos himselfie a tomar banho na ilha de Luanda e assobiaram-no, o que para eles é um aplauso. Por mim, quando terminar o mandato (esperemos que seja só um) podemos nomeá-lo embaixador honorário vitalício itinerante para as ex-colónias, perdão para a Lusofonia.

CASE STUDY: Porque haveria de ser diferente nas universidades?


Um «estudo da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência vem confirmar a existência de endogamia académica nas universidades portuguesas» escreveu o Público num artigo com o sugestivo título «No ensino superior não é o mérito que comanda as contratações». No ensino superior e no resto, poderiam ter acrescentado. Um dos exemplos extremos onde 99% dos docentes são doutorados pela própria faculdade é... a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Parece que a coisa surpreendeu muita gente. Não se percebe porquê. Pois se estamos num país em que o clientelismo e o nepotismo são endémicos e o inbreeding foi e é o sistema por excelência de reprodução das elites, porque haveria de ser diferente nas universidades?

26/09/2017

Vivemos num estado policial? (13) - Sim, vivemos. E talvez por isso os polícias nunca são suficientes

Outros casos de polícia: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11) e (12).

Recapitulando:

Segundo o relatório da OCDE divulgado em Fevereiro, Portugal «tem 432 polícias por 100 mil habitantes, um valor que torna a polícia portuguesa 36% mais bem equipada do que as polícias na média dos países europeus» (jornal Eco). Acrescente-se que na Europa só somos ultrapassados por Malta e a Irlanda do Norte.

Segundo os números divulgados pelo SOL há três anos, 10% dos então 21 mil polícias eram sindicalistas de 13 sindicatos diferentes e faltaram em 2013 23 mil dias por actividades sindicais. 600 dos 2.100 sindicalistas são dirigentes e cada um tem direito a 4 dias de folga por mês, os restantes 1.500 são delegados sindicais e podem ter 12 horas de folga por mês. As folgas não usadas acumulam-se como «créditos» para o mês seguinte. Dirigentes e delegados sindicais não podem ser transferidos de local de «trabalho» sem acordo expresso.

Não obstante,

Esta abundância de meios não impediu o MAI, o mesmo ministério que sempre se queixa de falta de meios e que falhou rotundamente no combate aos incêndios deste Verão, liderado pela ministra que chora, vai promover três concursos para a PSP e a GNR num total de 950 novos polícias em cima de 400 novos guardas prisionais que foram recrutados em Maio e começam a trabalhar em Novembro.

BREIQUINGUE NIUZ: System-Rücksetzung

Fonte: The Economist Espresso
Más notícias para imensa gente, incluindo a geringonça cujos componentes tanto diabolizaram Frau Merkel. Porquê más notícias? Porque Frau, na sua procura incessante do centro de gravidade, com as forças centrípetas da AfD e da Esquerda convergindo no seu anti-europeísmo, não vai poder facilitar a vida a quem estava a contar com ovos na cloaca da galinha: mutualização da dívida, um orçamento europeu com transferências para os pobrezinhos do sul and all that jazz. Enquanto isso, Macron muito provavelmente ficará atolado no lamaçal social francês avesso a quaisquer reformas e o Jean-Claude e os seus projectos federalistas grandiosos irão para o caixote de lixo da história.

25/09/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (102)

Outras avarias da geringonça.

Como na crónica anterior, comecemos pela celebração da saída do lixo que para Costa representa «a viragem da página da austeridade» e acrescentemos um pormenor convenientemente omitido: Passos Coelho cancelou em 2014 o contrato com a Standard & Poor's pelo que esta agência deixou desde então de poder facturar ao governo português as notações que vem atribuindo à dívida portuguesa; não obstante, a S&P antecipou-se apressadamente à Fitcht e à Moody's no upgrade da notação.

Confirmando a reclamação do PS de que as suas políticas criam mais emprego, ficámos a saber pelo jornal SOL que, até agora, o governo socialista nomeou 1.439 boys como assessores ou adjuntos, batendo irremediavelmente o governo neoliberal que por esta altura tinha pouco mais de um terço. A procura tem sido tão intensa que está a ser difícil encontrarboys com canudo. Só na Protecção Civil, além do seu presidente que obteve uma licenciatura pelo método Relvas e se demitiu recentemente, há mais dois comandantes com licenciaturas suspeitas de irregularidades.

Um governo à deriva (35) - O relatório secreto que não se sabe se existe sobre um assalto que não se sabe se houve

Por um lado, pode ter havido um assalto a Tancos que o ministro da Defesa não sabe se houve e, caso tenha havido, se terá devido a falta de formação. Por outro lado, um dos jornais do regime cita «um documento secreto elaborado pelos serviços de informações militares», documento que, sendo secreto, oficialmente não se sabe se existe, sobre o assalto que não se sabe que houve. Ainda por outro lado, segundo esse jornal, o documento secreto descreve «os 10 cenários sobre o que aconteceu (OU NÃO) em Tancos». Esses (DEZ) cenários têm autores que vão dos jihadistas aos «seguranças privados do mundo da noite do Porto».

Como se fosse pouco, o primeiro-ministro de um país onde se pode ter dado, ou não, um assalto em que foram ou não roubadas armas e munições de um paiol militar, vem a público garantir que o relatório secreto, cuja existência o semanário de referência garante, não existe porque se trata de «algo fabricado e não sobre um documento autêntico».

É isto espantoso? Sem dúvida. Contudo, o mais espantoso é o ruído do silêncio de comunistas, bloquistas e do jornalismo de causas que outrora teriam incendiado os jornais e enchido as ruas com pungentes indignações.

24/09/2017

ARTIGO DEFUNTO: Jornalismo de "referência" é o jornalismo de causas adoptado pelo jornal que se diz de referência (5)

Continuação de (1), (2), (3) e (4)

Na página 2 do caderno de Economia do Expresso podemos encontrar a "notícia" aqui ao lado, de onde um leitor distraído concluiria que o STJ «recusou» a entrega de documentos pedidos pela CPE, legitimando assim a golpada da geringonça para esconder os podres da Caixa.

Uma leitura do acórdão do STJ esclarece-nos que não houve recusa nenhuma porque este tribunal se limitou a constatar que:

(1) devido à referida golpada, a CPE consumiu o prazo para a sua existência de onde «parece dever concluir-se, em primeira linha, por exigência legal, que a comissão parlamentar de inquérito, requerente neste processo, se encontra extinta»;

e

(2) «A extinção da requerente – não havendo lugar à habilitação desta, nem se devendo prefigurar que a mesma se haja fundido no Plenário -, tornando impossível a continuação da lide, determina a extinção da instância.»



Na página 26 do caderno principal do mesmo semanário já não se trata só de jornalismo de causas, neste caso da causa «barriga de aluguer».

Trata-se da promoção da «colocação de um útero no mercado de arrendamento» por muito que o Expresso escreva o contrário e informe que a renda monetária neste caso é zero.

DIÁRIO DE BORDO: a passarada que me visita (30)

Rabirruivo-preto também conhecido por carvoeiro ou pisco-ferreiro (Phoenicurus ochruros)
Foto de Aves de Portugal, porque os marotos que me visitam pousam mas não gostam de posar

23/09/2017

NÓS VISTOS POR ELES: Se queremos perceber para onde vamos é melhor ler a imprensa estrangeira

Durante a semana, três artigos da imprensa financeira internacional foram várias vezes citados pelas câmaras de eco da geringonça como fazendo referências laudatórias aos feitos do governo de Costa a propósito do upgrade da notação da S&P.

Marcus Ashworth da Bloomberg, num artigo com um título («Portugal Is Investment Grade in Name Only») que é um bom resumo, explica que se mantém a «carga insustentável da dívida» principal razão do downgrade de há cinco anos, e que a melhoria dos yields das obrigações «é muito mais devida à sua relativa escassez, do que de qualquer transformação económica súbita». E insinua aquilo que muita gente sabe, mas poucos comentam publicamente: o rating da DBRS, uma agência que «não tem a mesma relevância para os investidores» do que as três maiores, existiu para o BCE poder aplicar o seu programa de alívio quantitativo a Portugal.

Mehreen Khan do FT no artigo «Portugal’s comeback is the eurozone’s socialist success story», cujas partes mais apetitosas foram abundantemente citadas, atribui o sucesso da recuperação principalmente «às perspectivas brilhantes da eurozona e da economia global» e aos «frutos das reformas dolorosas do mercado de trabalho do governo anterior de centro-direita». E conclui que a maior lição que os outros partidos socialistas europeus podem tirar do PS é «Timing is everything».

Tony Barber, o editor para Europa do FT, no artigo com o título igualmente significativo «Portugal reforms not gone far enough to ensure financial solidity», lembra que os enormes desafios que Portugal de enfrentar com «um governo socialista minoritário, apoiado no Parlamento pela extrema esquerda» e acrescenta que para os empresários portugueses «o governo está mais inclinado a satisfazer as medidas de luta contra a austeridade do que a reformas destinadas a melhorar a eficiência do sector público e a incentivar o investimento. A questão é se os problemas de Portugal tornarão inevitável um segundo resgate».

A partir dos trechos citados nos jornais domésticos e dos comentários dos opinion dealers alguém poderia entender o que de facto escreveu esta gente?

22/09/2017

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: A esquerdalhada e a sua liberdade de expressão

«Ben Shapiro, um jovem jornalista judeu conservador com uma voz extremamente irritante, com posições anti-trump, tendo há anos como desporto preferido bater nos liberais (leia-se, nos EUA, socialistas) foi convidado a fazer um discurso na meca da liberdade de expressão: a universidade de Berkeley.

Foram precisos gastar US$ 600.000 para medidas de segurança (julgo que orçamento anual normal da Berkeley para segurança rondará os US$ 300.000), autorizar a polícia a poder usar spray irritante (primeira vez desde há vinte anos), chamar 700 polícias para manter a ordem, ter bombeiros e ambulâncias de prevenção, levantar barreiras de controle, prender nove manifestantes, quatro dos quais queriam introduzir armas no recinto, etc.

Há cinquenta anos, foram precisas duras manifestações para esquerdistas lançarem, e bem, o movimento para o Free Speech. Agora são preciso polícias para controlar e bloquear esquerdistas que querem impedirem o Free Speech.

A esquerda adora a liberdade de expressão. Só tem uma condição: a expressão tem que ser de esquerda.»

(De um email do Agent Provocateur)

COMO VÃO DESCALÇAR A BOTA? (12) - Estes já começaram a descalçá-la, antes que se faça tarde

Outras botas para descalçar.


O trilema de Žižek acima representado é evidentemente apenas tendencial. Haverá sempre alguns socialistas (ou comunistas) que serão honestos e inteligentes. Talvez seja o caso dos economistas Paulo Trigo Pereira, deputado do PS, Ricardo Cabral, Luís Teles Morais e Joana Andrade Vicente, que apresentaram um estudo defendendo premissas orçamentais distintas das do orçamento que governo está a negociar com o PCP e o BE.

À primeira vista (e à segunda) o estudo não se afasta do pensamento dominante na Mouse School of Economics, designadamente no que respeita à fé nas propriedades miraculosas da despesa pública e da sua multiplicação, fé tão profunda que resistiu à constatação do desastre das políticas socialistas: um crescimento anual médio de 1% nos últimos 10 anos culminado pelo resgate de 2011, não obstante o elevado investimento público, que aliás este governo socialista reduziu em 2016 para metade.

Nesse sentido, podemos até concluir que o estudo retoma a "pureza" da doutrina socialista abandonada pelo pragmatismo sem princípios nem rumo da mistela de perdões fiscais, aumento de impostos, redução do investimento e cativações adoptada pela dupla Costa-Ronaldo das Finanças para conseguir a quadratura do círculo da sobrevivência da geringonça, mantendo felizes, até ver, Bruxelas, comunistas e berloquistas.

O que verdadeiramente afasta o estudo da mistela é o vértice inferior esquerdo do  trilema de Žižek e a denúncia da «alquimia» orçamental:
«Não é possível, ao mesmo tempo, descongelar carreiras, aumentar emprego público, fazer actualizações salariais, pagar a fornecedores da Saúde e reduzir impostos. Isto não é possível, é do domínio da alquimia.»

21/09/2017

DIÁRIO DE BORDO: A difícil convivência da esquerdalhada com a realidade

Go, go, go, said the bird: human kind / Cannot bear very much reality.
T. S. Eliot, Burnt Norton (No. 1 of Four Quartets)

«É natural que entre os discursos de fim-de-semana das jovens Mortágua, da líder Catarina e do carismático Jerónimo e a realidade as diferenças se tendam cada vez mais a acentuar. Nesse quadro a única expectativa que me parece razoável é admitir que no campo da evolução da ilusão até à realidade ou da demagogia até à seriedade, a juventude dispõe sempre de algum avanço sobre quantos já levam um tempo de vida mais provecto

Excerto de «António Costa vs BE e PCP», Francisco Assis no Público

«A única coisa verdadeiramente grave em tudo isto — e a razão pela qual continuamos sujos mesmo tendo saído do lixo — é o desfasamento entre a realidade e a narrativa sobre essa realidade, que conduz a uma série de avaliações demagógicas sobre aquilo que nos tem acontecido. Sim, as previsões da direita falharam naquilo que ao diabo diz respeito. Só que as previsões da esquerda também falharam quanto à receita para sair da crise. Portugal está a crescer e a baixar o défice em condições que a própria esquerda garantiu que nunca cresceria: com o investimento público mais baixo da História e sem qualquer reestruturação da dívida.»

«Como sair do lixo e continuar sujo», João Miguel Tavares no Público

Mitos (263) - O contrário do dogma do aquecimento global (XVII)

Outros posts desta série.

Em retrospectiva: que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os negacionistas – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.

O paper «Emission budgets and pathways consistent with limiting warming to 1.5 °C» publicado há dias no nature geoscience por uma equipa internacional de 10 investigadores na maioria europeus, concluiu que, apesar de o aquecimento global ainda se estar a verificar, as previsões do aumento da temperatura global podem ter sido indevidamente exageradas, sendo ainda possível atingir o objectivo do Tratado de Paris de limitar o aumento da temperatura global «bem abaixo» de 2° C acima do nível pré-industrial.

20/09/2017

SERVIÇO PÚBLICO: A ideologia do género é a continuação de um projecto totalitário por outros meios

«A Assembleia da República discute um projeto-lei do Bloco de Esquerda que permite a mudança de sexo aos 16 anos e, no caso de os pais se oporem a esta ideia, possibilita que os menores possam intentar judicialmente contra estes. A agenda política do BE é a seguinte: promover a ambiguidade da identidade sexual e considerar normal aquilo que, na maioria dos casos, é patológico. Convém alertar as pessoas para os perigos desta aberração legislativa, pois os deputados não sabem de medicina, nem tão-pouco de psiquiatria. Os casos de perturbação de identidade sexual (disforia de género) são complexos e levam por vezes os jovens ao suicídio, pelo que este assunto deve ser tratado com uma enorme prudência. Considerar que estes casos se resolvem com um pacote legislativo, é uma visão simplista, redutora e perigosa deste problema.

A estratégia por detrás desta mutação social, que agora se pretende implementar pela via legislativa, é fazer crer que a a ideologia de género é cientificamente correta. As teses desta ideologia são apresentadas como um dado científico consensual e indiscutível, mas isto é absolutamente falso. A natureza tem regras, cabe à ciência compreendê-las e descodificá-las. Portanto, compete à ciência elaborar as teorias que ajudem a desvendar a realidade e não o contrário, como acontece na ideologia do género: elaborou-se uma teoria e para a validar procura-se alterar a realidade.

As consequências deste conflito estão à vista. Nunca como hoje se baralhou e confundiu tanto a mente de crianças e adolescentes. E isto não tem nada a ver com liberdade, mas com uma doutrinação promovida por alguns partidos que se apoderaram ideologicamente do Estado e que desejam proceder à reeducação das massas. Neste contexto, esta proposta legislativa não poderia ser mais tirânica: os pais são expulsos do processo educativo, os psiquiatras e psicólogos são totalmente desvalorizados, sendo-lhes retiradas competências, e os menores passam a ser “propriedade” do Estado que, no plano educativo e legislativo, lhes impõe um novo sistema de valores baseado na ideologia do género. »


Excerto de «A estratégia para acabar com os rapazes e as raparigas», Pedro Afonso no Observador

SERVIÇO PÚBLICO: A geringonça pode gripar

«Até agora, a aposta de António Costa em formar governo com o apoio da extrema-esquerda parlamentar tinha--se revelado um enorme sucesso. No parlamento, esses partidos nunca vacilaram no seu apoio ao governo, que em contrapartida os presenteou com a aceitação de medidas radicais de efeitos desastrosos, como o regresso ao congelamento de rendas ou o imposto Mortágua. Por seu lado, Marcelo Rebelo de Sousa abstinha-se de exercer o que quer que se parecesse com um freio ou contrapeso, nunca suscitando sequer a intervenção do Tribunal Constitucional. António Costa conseguia, assim, ter um controlo absoluto do Estado sem ter vencido as eleições.

E esse controlo estendeu-se mesmo à própria sociedade. O PCP paralisou completamente as tradicionais reivindicações sindicais, que constituíam uma dor de cabeça para qualquer governo, e o Bloco também assegurou o apoio das redacções de jornais em que tem influência. O governo não apenas dispunha do apoio de uma maioria e de um Presidente como gozava ainda de uma paz política e social sem precedentes, por muitas asneiras que fizesse. Foi assim que graves descoordenações, como a morte de 65 pessoas num incêndio florestal ou um roubo de material de guerra, passaram praticamente incólumes na imprensa, enquanto uma simples subida do rating da dívida era objecto de manchetes eufóricas.

Mas começam agora a surgir os primeiros sinais de falhanço desta solução de governo».

Excerto de «A geringonça numa encruzilhada», Luís Menezes Leitão no jornal i

19/09/2017

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: A nível nacional como a nível local

A nível nacional:

jornal Eco


jornal Eco

A nível local:

Não é que as câmaras controladas pelos outros partidos se recomendem, mas o certo é que oito das dez autarquias mais endividadas são do PS. (Público)

DIÁRIO DE BORDO: O Céu visto da Terra (17)

[Outros céus vistos de outras terras - este Céu não é um céu nem é visto da Terra mas fica em boa companhia]

Saturno fotografado em Outubro de 2016 pela sonda Cassini da NASA que nele mergulhou na 6.ª feira passada

18/09/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (101)

Outras avarias da geringonça.

Comecemos pela celebração da saída do lixo que para Costa representa «a viragem da página da austeridade que nos permitiu também agora virar a página do lixo». Que Costa tenha sido capaz de celebrar como um grande feito a melhoria do rating por uma agência que ele há dois anos considerava «lixo» com «uma gente que já demonstrou não ser minimamente credível, fiável» só confirma que o seu descaramento está à altura da sua ignorância. De facto, o upgrade da notação da S&P para BBB- (o nível mais baixo de investimento) significa que a dívida portuguesa passou em 15 de Setembro para o mesmo nível que tinha em 29-03-2011, com o resgate à vista. Como o outlook é estável isso significa adicionalmente que a S&P não prevê a curto prazo uma melhoria.

17/09/2017

ACREDITE SE QUISER: Um cruzeiro heterofóbico

«Pela primeira vez vai sair do porto de Lisboa um cruzeiro exclusivamente para gays. A partir de amanhã e durante oito dias, o navio Monarch vai passar por Madeira, La Palma, La Gomera, Tenerife, Lanzarote, terminando a viagem na Gran Canaria. Organizada pela La Demence - responsável por uma das maiores festas gay europeias que costuma ter lugar em Bruxelas -, esta é a sétima edição de uma iniciativa que já faz parte dos roteiros homossexuais anuais.

A novidade nesta iniciativa, que contará com 2200 viajantes de 85 nacionalidades - 35 deles portugueses, segundo disse ao DN a organização -, é a partida de Lisboa, considerada por várias publicações como uma das cidades mais gay friendly da Europa.» (DN)

A propósito desta espécie de heterofobia como oposto da homofobia, lembrei-me que, nos tempos em que a esquerdalhada não disfarçava as suas inclinações profundas com esta treta da ideologia dos géneros, Millor Fernandes explicava assim a diferença entre comunismo e capitalismo: «O capitalismo é a exploração do homem pelo homem. E o comunismo é exactamente o contrário.»

Pro memoria (357) – O choque com a realidade do carro eléctrico de Sócrates (IV)

[Continuação de (I), (II) e (III)]

Balanço no final de 2013:
  • Planos socráticos até 2020: 180 mil carros eléctricos e 25 mil locais de carregamento; 
  • No final de 2013 havia 1.300 pontos de carregamento normal, 50 pontos rápidos, postos que terão custado 15 milhões, e 426 carros eléctricos vendidos desde 2010 sendo 140 em 2013 até Outubro (Expresso); 
  • Desde 2010 até 2013 foram feitos 27 mil carregamentos - o que dá 555 euros de investimento por carregamento nos 1.300 pontos, equivalentes a 7 carregamentos por ponto e ano ou um carregamento em cada 52 dias.
Em 2014 foram vendidos 216 veículos eléctricos, 645 em 2015  e 756 em 2016. Em 2016 existiam cerca de 4.100 veículos eléctricos de todos os tipos (uma parte significativa do Estado ou empresas públicas) e até ao final do ano estima-se que serão cerca de 5.000 (fonte).

Comparemos Portugal com os países europeus com maior penetração de veículos eléctricos em relação a novos registos nos últimos 12 meses terminados em Julho, frota em Julho e número de postos de carregamento e número de veículos por posto de carregamento:

Noruega 31.063 ;  140.752 ; 11.520 ; 12,5
Suécia 9.413 ; 37.594 ; 4.522 ; 8,3
Bélgica 8.624 ; 24.705 ; 3.850 ; 6,4
Holanda  4.375 ; 115.210 ; 21.357 ; 5,4
Portugal  2.062 ; 5.580 ;  1.884 ; 3,0

(Fonte: novos registos e frota - EAFO ; número de postos de carregamento - ChargeMap)

Como seria de esperar também estes planos socráticos saíram furados, houve um enorme desperdício de recursos para plantar postos de abastecimento e provavelmente teremos de esperar talvez uma década para justificar a rede existente que entretanto continuará a crescer.

16/09/2017

Pro memoria (356) - O que significa a saída do lixo? Nada, segundo Costa. As agências de rating são lixo!

Costa sobre as agências de rating em Julho de 2015

«A minha classificação sobre as agências de rating é que são lixo e foi por isso, aliás, que rescindi o contrato com todas quando era presidente da câmara de Lisboa. É uma gente que já demonstrou não ser minimamente credível, fiável, que contribuíram muito gravemente para o endividamento generalizado dos Estados. das famílias, das empresas e não deram nenhum contributo sério até agora para uma gestão mais regulada do mercado de capitais. Portanto, a minha visão sobre essas instituições é péssima e acho mesmo que uma das medidas que ainda é necessário tomar na sequência desta crise é pôr ordem nessa coisa dos ratings.» (Fonte)


Costa sobre o upgrade da notação da Standard & Poor's em Setembro de 2017

«É a demonstração de que a viragem de políticas, que a viragem da página da austeridade nos permitiu também agora virar a página do lixo e que estamos no bom caminho». (Fonte)

Em conclusão

Ou bem que as agências de rating não são minimamente credíveis nem fiáveis e são lixo, ou bem que Costa não é minimamente credível nem fiável e é lixo, ou bem que umas e outro não são minimamente credíveis nem fiáveis e são lixo.

15/09/2017

NÓS VISTOS POR ELES: A Europa do Jean-Claude

Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, no discurso onde anunciou a sua visão para a União Europeia disse enigmaticamente:
«Não se iludam, a Europa estende-se de Vigo a Varna. De Espanha à Bulgária»
Sendo certo que para dar uma imagem da amplitude da UE seria muito mais adequado dizer que a Europa se estende de Portugal à Estónia ou de Lisboa a Talin (uma diagonal perfeita que atravessa o centro do território da UE), o que quereria ele significar com essa imagem geográfica?

Uma explicação simples partiria do facto de ser voz corrente em Bruxelas e noutras capitais que Jean-Claude tem um «increasingly erratic behavior», não consegue ler os relatórios dos assessores nem conter a verborreia (nós também estamos bem servidos nesta matéria) e que esse comportamento se pode dever ao «cognac for breakfast». Mais do que simples, esta explicação é simplista, também porque, mesmo etilizado, um Jean-Claude, primeiro-ministro luxemburguês durante oito anos, dificilmente se esqueceria de um país cujos nacionais e seus descendentes representam 1/6 dos residentes no Luxemburgo e constituem a maior comunidade estrangeira.

A explicação de Rui Ramos constitui um bom ponto de partida para compreender o aparente lapso de Juncker e assenta em duas premissas: (1) Portugal não conta na relação de forças com o grande urso russo, outra vez com ambições de grande potência e uma ameaça sentida pela Alemanha e todos os antigos países comunistas; (2) Com todos os membros da UE na Zona Euro, como defendeu Juncker, a presença dos relapsos financeiros do Sul seria uma borbulha no rabo da União. Conclusão: «uma Europa sem Portugal é perfeitamente imaginável.»

O que é menos imaginável é a viabilidade política de uma União Europeia saída da cabeça de um eurocrata, sem nações, comandada por um «directório franco-alemão (mais alemão do que francês)», como refere RR, e administrada por legiões de apparatchiks bruxelenses.